Atlas da História

Pesca de bagres e produção de lamelas de obsidiana em Lakora-03 (bacia do lago Abhe, Afar, Etiópia), a partir de c. 11.100 anos cal AP

11.164–10.737 cal AP (faixa de 95,4% publicada por Khalidi e colegas, 2020, para o carvão do nível principal, Poz-111634, 9590 ± 60 BP; mediana 10.939 ± 121); em ano astronômico (1950 − cal AP), c. 9214 a 8787 a.C. O início foi tomado na ponta mais antiga da faixa, não na mediana · África Oriental

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Lakora-03, nas encostas de uma crista de basalto ao norte do lago Abhe (Afar, Etiópia), guarda o mais antigo assentamento do Holoceno preservado que Khalidi e colegas (2020) acharam na região: o carvão do nível principal deu 11.164–10.737 anos cal AP. O nível tinha uma pequena lareira, muitos restos de peixe, sobretudo bagres, e obsidiana lascada, com produção dominante de lamelas grandes e nenhuma peça de dorso. Os autores leem aí pesca intensiva a partir de um promontório de basalto e notam que, na bacia de Abhe, não aparecem a cerâmica nem os arpões de osso das comunidades lacustres de outras regiões.

Um lago baixo e uma planície que se reativava

Segundo Khalidi e colegas (2020), faltam sedimentos na região para o período de cerca de 29 a 12 mil anos atrás, e os primeiros sinais de ocupação holocênica aparecem quando o clima volta a ficar úmido depois do Dryas Recente. No começo do Holoceno, entre cerca de 11,1 e 10,6 mil anos cal AP, o lago Abhe estava relativamente baixo, entre 340 e 360 m de altitude, e o solo se desenvolvia nas bordas da planície aluvial do Awash. É nesse solo que estão os assentamentos mais antigos preservados, entre eles Lakora-03. Um evento fluvial de cerca de 10,5 mil anos cal AP anuncia a subida do lago, que entre c. 10,3 e 9,8 mil anos cal AP chegou a 410-420 m e ocupou toda a baixa planície do Awash. Os autores atribuem a falta de sítios dessa fase de lago cheio à erosão intensa dos afloramentos de basalto e ao acesso difícil às terras acima de 400 m. (Khalidi et al. 2020)

Peixe, lareira e obsidiana no nível principal

Lakora-03 fica nas encostas de uma crista de basalto a noroeste do vulcão Borawli. Os autores abriram ali uma sondagem de 1,5 × 2 m. O nível de ocupação principal (UE 5 e 4) é um silte escuro com uma pequena lareira, carvão, grande quantidade de restos de peixe e obsidiana lascada, além de uma única conta redonda e achatada de casca de ovo de avestruz achada na lareira. Os peixes são sobretudo bagres, com um osso de tilápia e um de ciprinídeo; há também restos de grandes mamíferos, entre eles bovídeos. Os autores concluem que a abundância de peixes, inclusive queimados, mostra que o grupo se instalou por algum tempo na margem do lago e que a pesca era atividade central e fonte de boa parte da dieta, praticada a partir de um promontório ou ilhota de basalto. (Khalidi et al. 2020)

Lamelas grandes e nenhuma peça de dorso

O material lítico da sondagem (132 peças, com uma remontagem) e da coleta de superfície numa área de 40 × 15 m é todo de obsidiana. Segundo os autores, domina a produção de lamelas grandes a partir de núcleos de esquemas operatórios distintos; há poucos instrumentos retocados, sobretudo buris e raspadores de extremidade, e nem uma peça de dorso foi vista ou coletada. As peças estão muito alteradas, mecânica e quimicamente. Em Raso-02, com carvão de 10.744–10.418 cal AP, a amostra é ainda menor, mas parece semelhante. Khalidi e colegas notam que esses traços se parecem com os de sítios de 14–13,5 mil anos cal AP na bacia de Ziway-Shala e propõem, como possibilidade, uma persistência tardia de uma tradição do Tardiglacial. (Khalidi et al. 2020)

Sem cerâmica nem arpões de osso: um contraste com o Turkana

Khalidi e colegas situam Abhe entre as comunidades lacustres chamadas de aqualíticas, que no Saara, no Sahel e até o lago Turkana ligam arpões de osso a uma cerâmica impressa desde cerca de 12–10 mil anos cal AP. Em Ziway-Shala e em Abhe, dizem, essas duas tradições estão totalmente ausentes, embora os recursos aquáticos fossem importantes. Wright e colegas (2015) presumem, para os pescadores do Holoceno inicial do Turkana, o uso de pontas de osso farpadas e de vasos de cerâmica para cozinhar. A comparação mostra que, no Chifre da África, a vida junto aos lagos úmidos do início do Holoceno teve mais de um modo técnico, o que Khalidi e colegas resumem dizendo que as tradições de Abhe não se alinham com as dos ceramistas e arpoadores do Saara e do Nilo. (Khalidi et al. 2020; Wright et al. 2015)

Fontes

  1. Khalidi, Lamya; Mologni, Carlo; Ménard, Clément; Coudert, Lucie; Gabriele, Marzia; Davtian, Gourguen; Cauliez, Jessie; Lesur, Joséphine; Bruxelles, Laurent; Chesnaux, Lorène; Redae, Blade Engda; Hainsworth, Emily; Doubre, Cécile; Revel, Marie; Schuster, Mathieu; Zazzo, Antoine (2020). "9000 years of human lakeside adaptation in the Ethiopian Afar: fisher-foragers and the first pastoralists in the Lake Abhe basin during the African Humid Period". Quaternary Science Reviews 243: 106459. DOI 10.1016/j.quascirev.2020.106459 (resolve em doi.org). Texto baixado de https://hal.science/hal-02911601v1/document em 31/10/2026. Acessar
  2. Wright, David K.; Forman, Steven L.; Kiura, Purity; Bloszies, Christopher; Beyin, Amanuel (2015). "Lakeside View: Sociocultural Responses to Changing Water Levels of Lake Turkana, Kenya". African Archaeological Review 32: 335-367. DOI 10.1007/s10437-015-9185-8 (resolve em doi.org). Texto baixado de https://link.springer.com/content/pdf/10.1007/s10437-015-9185-8.pdf em 31/10/2026. Acessar

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