Chegada do dingo à Austrália
presente no sul da Austrália há 3.348–3.081 anos (Balme et al. 2018); chegada anterior em debate · Austrália / Sahul
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Cão que chegou à Austrália por mar, provavelmente com grupos humanos, descendente de cães domésticos do Leste Asiático segundo o DNA mitocondrial. Ossos datados diretamente na caverna de Madura, na planície de Nullarbor, mostram dingos no sul do continente há 3.348–3.081 anos; a difusão depois disso teria sido muito rápida.
Uma travessia que exigia barcos
Nenhuma ponte de terra ligou a Austrália ao Sudeste Asiático. Mesmo com o mar no nível mais baixo das glaciações, quem viesse do continente asiático pelas ilhas teria de cruzar pelo menos uns 50 km de mar aberto, e nenhum outro grande animal terrestre fez esse trajeto sozinho; por isso Savolainen et al. (2004) concluem que os ancestrais do dingo vieram em embarcações, com gente. Balme, O'Connor e Fallon (2018) acrescentam que, no Holoceno, a menor distância de ilha em ilha era da ordem de 100 km, e que o dingo é a única prova material de visitas de fora ao continente entre o primeiro povoamento indígena e os últimos 400 anos, quando chegaram navios europeus e os pescadores de trepang de Makassar. O dingo nunca chegou à Tasmânia, isolada pela subida do mar há cerca de 12 mil anos. Duas hipóteses disputavam a origem: o Leste Asiático, pela proximidade, ou a Índia, pela semelhança do esqueleto com cães párias indianos e com lobos. (Savolainen et al. 2004; Balme et al. 2018)
O que o DNA conta sobre os fundadores
Savolainen et al. (2004) compararam o DNA mitocondrial de 211 dingos de todos os estados australianos com o de 676 cães de todos os continentes e 38 lobos. Mais da metade dos dingos tinha o mesmo tipo, chamado A29, e os demais diferiam dele por uma só mutação. Entre cães domésticos, o A29 só apareceu no Leste Asiático, no Sudeste Asiático insular, na Nova Guiné e na América ártica, o que favorece a origem leste-asiática, não a indiana. Os autores propõem uma população fundadora muito pequena, talvez trazida numa só ocasião, e uma chegada há cerca de 4.600 a 5.400 anos; se a separação entre lobo e coiote for mais antiga do que supõem, a faixa vai até 10.800 anos. Genomas antigos de nove dingos, com 400 a 2.746 anos, mostram que a divisão entre as populações do noroeste e do sudeste já existia há uns 2 mil anos e admitem um cenário de pelo menos duas levas de migração, uma delas mais próxima dos cães cantores da Nova Guiné (Souilmi et al. 2024). (Savolainen et al. 2004; Souilmi et al. 2024)
Datar o osso, e não a camada
A data mais repetida, de 5 a 4 mil anos atrás, vinha de carvão achado perto de ossos, não dos ossos. A caverna de Madura, também chamada Mereguda, foi escavada em 1969 em camadas de 15 cm, e o carvão datado em c. 3.450 anos de radiocarbono saiu de outra trincheira, não daquela onde estavam os ossos de dingo mais profundos. Das 15 datas de dingos subfósseis de uma base de dados de referência, só três passaram nos critérios de confiabilidade, e todas têm menos de 2.500 anos. Balme, O'Connor e Fallon (2018) dataram por espectrometria de massa com acelerador o colágeno de duas falanges: uma deu 2143–1932 anos calibrados antes do presente, a outra 3348–3081. Para os autores, essa data está muito perto da primeira chegada. Ela combina com o que se sabe dos cães da região: não há prova confiável de cães no Sudeste Asiático continental antes de c. 4 mil anos, e o cão datado diretamente mais antigo do Timor-Leste tem c. 3 mil anos. (Balme et al. 2018)
Um animal adotado pelas sociedades aborígines
Para Balme, O'Connor e Fallon (2018), o dingo se espalhou depressa porque os povos aborígines o acolheram e o levaram por suas redes de contato, que cobriam o continente inteiro. Dão dois termos de comparação: os cães trazidos à Tasmânia pelos europeus em 1804 foram adotados pelos aborígines da ilha em poucos anos, até por grupos que ainda não tinham convivido de perto com europeus, e os gatos cruzaram a Austrália em cerca de 70 anos. Os autores sustentam que o dingo mudou a subsistência, as relações de gênero e outros aspectos dessas sociedades. Alguns grupos criavam dingos como animais de estimação ou de caça, sem domesticá-los por inteiro (Savolainen et al. 2004). Dingos aparecem em histórias e crenças espirituais e às vezes foram sepultados como membros da comunidade (Souilmi et al. 2024). Sua chegada também foi ligada ao fim do tilacino e do diabo-da-tasmânia no continente, por volta de 3.200 anos atrás, mas Balme e colegas lembram que o clima ficou mais seco e instável na mesma época e que extinções raramente têm uma causa só. (Balme et al. 2018; Savolainen et al. 2004; Souilmi et al. 2024)
Fontes
- Balme, J.; O’Connor, S.; Fallon, S. (2018). "New dates on dingo bones from Madura Cave provide oldest firm evidence for arrival of the species in Australia". Scientific Reports 8. DOI 10.1038/s41598-018-28324-x. Acessar
- Savolainen, P.; Leitner, T.; Wilton, A. N.; Matisoo-Smith, E. et al. (2004). "A detailed picture of the origin of the Australian dingo, obtained from the study of mitochondrial DNA". Proceedings of the National Academy of Sciences 101: 12387–12390. DOI 10.1073/pnas.0401814101. Acessar
- Souilmi, Y.; Wasef, S.; Williams, M. P.; Conroy, G. et al. (2024). "Ancient genomes reveal over two thousand years of dingo population structure". Proceedings of the National Academy of Sciences 121(30): e2407584121. DOI 10.1073/pnas.2407584121. Acessar
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