Atlas da História

Viagens macassarenses do trepang a Marege' (norte da Austrália)

c. 1780–1907 (Clark e May 2013); início em debate · Austrália / Sahul, Sudeste Asiático insular

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

Abrir no mapa e na linha do tempo

Desde pelo menos o século XVIII, frotas de Makassar, no sudoeste de Sulawesi, iam todo ano às costas de Kimberley e da Terra de Arnhem, chamadas Kayu Jawa e Marege', para colher e processar trepang (pepino-do-mar) vendido a comerciantes chineses. O contato levou aos povos aborígines canoas, velas, anzóis e metais; a última frota veio na temporada de 1906–07.

Monções, praus e o mercado chinês

As frotas de praus, barcos de madeira a vela, partiam com a monção de noroeste em dezembro e voltavam a Makassar com os ventos de sudeste por volta de março ou abril. A maior parte das tripulações vinha de Makassar e falava as línguas dos bugis e dos macassareses, mas havia também gente de Buton e sama-bajau. Além do trepang, levavam madrepérola, cera de abelha e madeira dura, vendidos a mercadores chineses que abasteciam o sul da China, onde o trepang era iguaria e remédio. Foi o crescimento da economia chinesa no século XVIII que puxou esses produtos do Sudeste Asiático (Clark e May 2013). O nome "macassarense" é de quem estava do lado australiano: segundo Macknight, citado por Clark e May, ele não tem uso na Indonésia, e ninguém de Makassar se apresentaria assim. A análise da cerâmica de Malara, na baía de Anuru, indica que as frotas se abasteciam de louça local no porto de Makassar antes de zarpar para Marege' (Wesley et al. 2014). (Clark e May 2013; Wesley et al. 2014)

Quando começaram as viagens: documentos e datações

A data de início é uma das discussões mais vivas da arqueologia do norte australiano. Macknight situou primeiro a origem da pesca entre 1650 e 1750; depois, com dados do comércio de Makassar, passou a sustentar que ela só ganhou escala na década de 1780, com possíveis viagens desde 1750. Datações por radiocarbono de carvão de fornalhas de cozimento de trepang em três sítios (baía de Anuru, ilha Entrance e Groote Eylandt) deram de 1170 a 1520 d.C., mas foram atribuídas a problemas na datação de madeira de mangue. Outras pistas apontam para antes do século XVIII: uma figura de cera de abelha pintada sobre a imagem de um barco do Sudeste Asiático, na serra Wellington, foi feita entre 1517 e 1664, e um dos dois esqueletos do Sudeste Asiático achados na baía de Anuru seria de alguém que morreu antes de 1730. Para Anne Clarke, contatos anteriores podem ter sido esporádicos e pequenos, sem a escala da indústria organizada a partir de Makassar. Os sama-bajau podem ter chegado ainda antes (Clark e May 2013). (Clark e May 2013)

Trabalho, viagens e crenças compartilhadas

Os pescadores contratavam aborígines para colher e processar o trepang, e dezenas, talvez centenas, deles viajaram até Makassar, onde alguns se fixaram e formaram família. Clark e May (2013) resumem os capítulos do volume que tratam dessas trocas: a influência islâmica entre os Yolngu e povos vizinhos da Terra de Arnhem (Ganter); a chegada de tabaco, araque e noz de bétele, com a ressalva de que há pouca prova de que os próprios visitantes fumassem tabaco nos longos cachimbos ditos "macassarenses" (Brady); e a arte rupestre de contato, que guarda alguns dos raros relatos indígenas da época (Taçon e May). Nas pinturas da família Marika sobre os ancestrais Djang'kawu, os barcos e acampamentos de cozimento aparecem ao lado dos Bayini, navegantes que as narrativas yolngu situam antes dos macassarenses. Quem eram os Bayini é debatido: lembrança de viagens aborígines a Makassar, para Macknight, ou pescadores bajau, para Fox; segundo McIntosh, os Yolngu guardaram em segredo essa identidade até 1988. (Clark e May 2013)

O fim das frotas e uma memória dividida

A atividade caiu a partir de 1880, com taxas e cobranças sobre os visitantes, e terminou quando o governo da Austrália Meridional deixou de dar licenças a estrangeiros. Pescadores indonésios continuaram a buscar trepang no mar de Timor, agora na ilegalidade; nas últimas décadas tripulações foram presas e barcos queimados. Um memorando de 1974 entre os dois governos reserva uma área do mar de Timor à pesca indonésia com barcos e métodos tradicionais. Clark e May (2013) ligam o apagamento dessa história à Lei de Restrição da Imigração de 1901 e à política da Austrália Branca, e registram que revistas populares contavam o contato reforçando a imagem de povos aborígines imutáveis, quando eles participavam de uma rede comercial internacional. Em Makassar quase não restam monumentos dessa época, mas o legado é tratado como processo cultural ainda em curso em Sulawesi do Sul, e parte dos pescadores de trepang da ilha de Rote descende de grupos de lá. O volume propõe estudar a rota do trepang, do sul da China a Kimberley e à Terra de Arnhem, como candidata a rota cultural do Patrimônio Mundial. (Clark e May 2013)

Fontes

  1. Clark, M.; May, S. K. (2013). "Understanding the Macassans: A regional approach". In: Clark, M.; May, S. K. (orgs.). Macassan History and Heritage: Journeys, Encounters and Influences. ANU Press. ISBN 9781922144973. DOI 10.22459/mhh.06.2013.01. Acessar
  2. Wesley, D.; Jones, T.; O’Connor, S.; Fenner, J. et al. (2014). "Earthenware of Malara, Anuru Bay: A reassessment of potsherds from a Macassan trepang processing site, Arnhem Land, Australia, and implications for Macassan trade and the trepang industry". Australian Archaeology 79: 14–25. DOI 10.1080/03122417.2014.11682015. Acessar

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