Dia de Luto aborígine (Day of Mourning, 1938)
26 jan. 1938 · Austrália / Sahul
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Protesto aborígine de 26 de janeiro de 1938 no Australian Hall, em Sydney (terra gadigal), enquanto se festejavam os 150 anos da chegada da Primeira Frota. Organizado por Jack Patten, William Ferguson e William Cooper, foi um ato de luto pelas terras, pela liberdade e pelas vidas aborígines perdidas desde 1788, quando começou a colonização britânica.
A reencenação na praia e a conferência fechada
Em Nova Gales do Sul, o 26 de janeiro se chamava então "Anniversary Day" (Moran 2024). Um dos eventos do sesquicentenário foi a reencenação do desembarque do capitão Arthur Phillip. Segundo o Museu Nacional da Austrália, os aborígines que viviam em Sydney se recusaram a participar; os organizadores trouxeram homens de Menindee, no oeste de Nova Gales do Sul, e os mantiveram trancados nas estrebarias do quartel de polícia de Redfern até o dia da cena, em que tiveram de correr pela praia fugindo dos britânicos, uma versão inexata dos fatos. As imagens filmadas mostram que não participavam por vontade própria. Enquanto isso, no Australian Hall, nos números 150–152 da Elizabeth Street, reunia-se uma conferência só para indígenas; entraram apenas dois policiais brancos e dois jornalistas. A resolução lida por Jack Patten protestava contra 150 anos de tratamento cruel e pedia ao país novas leis para a educação e o cuidado dos aborígines e uma política que levasse os aborígines à plena cidadania e à igualdade. (Moran 2024; National Museum of Australia)
William Cooper, de Cumeroogunga à petição ao rei
Attwood (2020) apresenta William Cooper como ancião yorta yorta, nascido em dezembro de 1860 na junção dos rios Murray e Goulburn. Seu povo reivindicou e obteve nos anos 1880 uma reserva de terra, Cumeroogunga, e a cultivou até o início do século XX, mas a perdeu nas décadas de 1910 e 1920 sob as políticas da Junta de Proteção dos Aborígines de Nova Gales do Sul, que separaram famílias. As leis especiais das juntas negavam liberdade de movimento, guarda dos filhos e controle dos bens. Na juventude, Cooper foi acolhido por missionários na missão de Maloga e leu no Êxodo a promessa de libertação a um povo perseguido. Trabalhou como tosquiador, tropeiro, domador de cavalos e peão, foi sindicalizado e, já idoso, mudou-se para Melbourne para receber a pensão de velhice. Em 1933 redigiu uma petição ao rei Jorge V pedindo um deputado federal escolhido por aborígines; tinha mais de 1.800 assinaturas quando chegou ao governo federal, em 1937. O primeiro-ministro Joseph Lyons não a encaminhou, e o original nunca foi achado em arquivo algum. (Attwood 2020)
Uma campanha entre direitos iguais e reparação
A Liga dos Aborígines Australianos (Australian Aborigines' League), fundada por Cooper e pensada por ele como representativa de todos os aborígines, pedia os direitos dos demais cidadãos e também medidas de "elevação" (uplift): direitos especiais a terra, capital e outros recursos, justificados pela desvantagem. Cooper insistia na posse anterior da terra por seus antepassados e no despojo que se seguiu, para lembrar aos brancos suas obrigações. Daí o pedido de um Dia de Luto no sesquicentenário e de um "Dia dos Aborígines" anual nas igrejas, no domingo mais próximo do Australia Day. A Liga rejeitava a política de absorção e via os aborígines como comunidade permanente. Em dezembro de 1938, Cooper liderou um protesto contra a perseguição nazista no consulado alemão de Melbourne (Attwood 2020). Para o Museu Nacional, foi a primeira vez que grupos ativistas aborígines de estados diferentes cooperaram plenamente: Ferguson ajudara a criar em 1937 a Aborigines' Progressive Association, e Patten fundara o Abo Call, jornal escrito e editado por aborígines. (Attwood 2020; National Museum of Australia)
Do encontro com Lyons ao NAIDOC e ao patrimônio
O Arquivo do Estado de Nova Gales do Sul guarda as cartas originais de William Ferguson ao premiê do estado, escritas antes de 26 de janeiro de 1938, convidando-o a receber uma delegação do executivo da Aborigines Progressive Association (Moran 2024). Depois do protesto, o primeiro-ministro federal Joseph Lyons e sua esposa, Enid, passaram duas horas com os organizadores, sem resultado prático. O Dia de Luto passou a ser lembrado todo ano, primeiro no domingo anterior ao Australia Day; com o tempo a data foi para julho e deu origem à semana NAIDOC (Museu Nacional da Austrália). Cooper morreu em março de 1941, depois de inspirar o sobrinho-neto Doug Nicholls e os irmãos Onus; sua ideia de "pensar negro" (thinking black) marcaria também Oodgeroo Noonuccal (Attwood 2020). O Australian Hall é visto como o lugar da primeira reunião nacional de direitos civis aborígines e como ponto de origem do movimento político aborígine (Moran 2024), e consta do registro nacional de lugares de patrimônio. (Moran 2024; National Museum of Australia; Attwood 2020)
Fontes
- Moran, G. (2024). "Day of Mourning". Museums of History NSW. https://mhnsw.au/stories/first-nations/first-day-of-mourning/ (consultado em 07/10/2026). Acessar
- Attwood, B. (2020). "William Cooper: the Indigenous leader who petitioned the king, demanding a Voice to Parliament in the 1930s". The Conversation. DOI 10.64628/aa.vu74kc6x9. Acessar
- Attwood, B. (2021). William Cooper. Melbourne University Publishing. ISBN 9780522877946. DOI 10.2307/jj.4688130. Acessar
- National Museum of Australia, "Day of Mourning". https://www.nma.gov.au/defining-moments/resources/day-of-mourning (consultado em 07/10/2026). Acessar
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