Covadonga (c. 718–722): a revolta de Pelayo contada pelas crônicas asturianas e a dúvida sobre o que de fato ocorreu
c. 718 (Chalmeta e Sánchez Saus); o Wikidata dá 718 e 722 · Europa Mediterrânea
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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As crônicas asturianas do reinado de Afonso III (866-910) contam que o godo Pelayo, refugiado numa gruta do monte Auseva, resistiu a um exército muçulmano e o derrotou, em episódio ligado ao início do reino das Astúrias. Sánchez Saus lê o relato como providencialista; Chalmeta, comparando-o com a única fonte coetânea, a Crônica de 754, e com fontes árabes tardias, duvida da historicidade e do local, e aponta como exagero as cifras dos cronistas (187.000 soldados, de 63.000 a 124.000 mortos).
O relato das crônicas asturianas, resumido por Chalmeta
Chalmeta resume o relato: Pelayo, fugindo de um destacamento enviado para prendê-lo, refugia-se com gente da terra numa gruta do monte Auseva, onde é eleito chefe (princeps). O exército muçulmano, sob Alkama, acampa diante da gruta; o bispo Opa tenta que Pelayo ceda; falhada a negociação, atiram-se projéteis das catapultas, que, ao chegar à casa da Virgem, voltam contra quem os lançou. Os pelagianos contra-atacam e matam Alkama; os fugitivos são soterrados por um desabamento no rio Deva, e Munnuza, em Gijón, é capturado e morto. Segundo o autor, o relato é difícil de levar a sério na descrição física e traz, por exemplo, o transporte de catapultas por quase mil quilômetros desde Córdoba. (Chalmeta Gendrón 2022)
Números das crônicas e vítimas
Segundo o resumo de Chalmeta, as crônicas dão 187.000 muçulmanos no exército de Alkama; contam 20.000 mortos pelos projéteis devolvidos (De Rebus, de Ximénez de Rada), de 104.000 a 124.000 mortos no contra-ataque que mata Alkama, e 63.000 sobreviventes soterrados no Deva. Chalmeta lembra que, se 187.000 foram mortos, cada pelagiano teria matado 4.133 inimigos, e diz que na Idade Média 'nunca tão poucos mataram tantos'; vê nessas cifras números simbólicos de padrão bíblico, para engrandecer um episódio 'nacional-reconquistador'. Quanto à gruta, ele contrasta a capacidade que lhe atribuem a Silense e Ximénez de Rada com a descrição de Ambrosio de Morales (1572), para quem nela caberiam, 'quando muito, até trezentos' homens. Não há número de fonte coetânea. (Chalmeta Gendrón 2022)
Data: 718, 722 ou outra
Chalmeta indica em nota que, se Pelayo reinou 18 ou 19 anos e morreu em 737, sua rebelião seria de 718; Sánchez Saus fala do monte Auseva 'a altura do 718'. O Wikidata registra 718 e 722. As crônicas Albeldense e Rotense dão cronologias que Chalmeta considera obsoletas. Chalmeta ainda aponta, nessa linha, a dificuldade de simultanear conquista (92/711) e rebeldia, pois mediariam 7-8 anos entre as duas. A versão árabe de al-Rāzī e a Crônica de San Juan de la Peña, também citadas por ele, não foram lidas por mim. (Chalmeta Gendrón 2022; Sánchez Saus 2020)
A herança de Covadonga como sentido histórico
Sánchez Saus mostra que a interpretação providencialista dos cronistas do ciclo de Afonso III foi assumida por séculos pela historiografia principal e substituída por novos paradigmas desde o séc. XVIII e sobretudo desde meados do XIX. Segundo ele, o contexto de escrita é o do reino de Afonso III, de êxitos militares contra os muçulmanos, de repovoamento ao sul da cordilheira, de afluxo de mozárabes que deixavam al-Andalus e da guerra civil (fitna) no emirato cordobês. Esse contexto sustenta a 'consciência de continuidade com o passado visigodo' das crônicas. Chalmeta, por sua vez, abre o artigo contando que lhe ensinaram na escola a Reconquista como iniciada em Covadonga, e propõe examinar o fato 'à luz exclusiva dos dados e das evidências materiais conservadas'. (Sánchez Saus 2020; Chalmeta Gendrón 2022)
Fontes
- Chalmeta Gendrón, Pedro (2022). "¿Asturias, Covadonga, Pelayo?". Aragón en la Edad Media 33: 1-50. DOI 10.26754/ojs_aem/aem.2022337321. Acessar
- Sánchez Saus, Rafael (2020). "Sentido, providencia y formación de la conciencia histórica: Covadonga". Isidorianum 29 (1): 131-144. DOI 10.46543/ISID.2029.1007. Acessar
- Crônica mozárabe de 754 (Continuatio Isidoriana Hispana), autor anônimo; tradução inglesa e comentário de Aymenn Jawad Al-Tamimi, "The Mozarabic Chronicle: Full Translation and Analysis", 22 set. 2019. https://aymennjawad.org/23270/the-mozarabic-chronicle-full-translation Acessar
Na mesma região
- Batalha de Guadalete (711): a derrota do rei Rodrigo e o início da conquista omíada da Península Ibérica verão de 711 (o Wikidata dá 19 de julho; a edição de Ibn Abd al-Hakam lida traz, entre colchetes, 11 de julho)
- Paulo Diácono (Paulus Diaconus), monge lombardo de Cividale e Montecassino, autor da Historia Langobardorum, c. 725–c. 799 nasceu em Cividale entre 720 e 730; morreu em 13 de abril ou 21 de julho de um dos últimos anos do séc. VIII (799 é data só convencional), segundo Capo (2014)
- Irene de Atenas, imperatriz bizantina que reinou em nome próprio e restabeleceu a veneração das imagens, c. 752–803 nasceu em Atenas por volta de 752; morreu na ilha de Lesbos em 803
- Comentário ao Apocalipse atribuído a Beato de Liébana, datado de 776, e seu primeiro mapa-múndi, hoje perdido datado de 776 (era hispânica 814) por datas contidas nos manuscritos, segundo García-Aráez Ferrer (2001-2002); outras duas versões do texto são posteriores
- Mesquita-Catedral de Córdova c. 786 (Wikidata); ampliações até o séc. X
- Edito de Rotário (643), primeira lei lombarda escrita 22 nov. 643 (data do prólogo, segundo o Mapping Medieval Peasants)