Mesquita-Catedral de Córdova
c. 786 (Wikidata); ampliações até o séc. X · Europa Mediterrânea
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Grande mesquita de Córdova, erguida no séc. VIII sobre a basílica visigoda de São Vicente e ampliada ao longo de três séculos sob emires e califas omíadas, como al-Ḥakam II. Para a UNESCO, influenciou a arte islâmica do Ocidente e testemunha o Califado de Córdova (929–1031); em 1236 passou a abrigar a catedral cristã.
De São Vicente a um oratório de onze naves
Segundo Souto (2007), ʿAbd al-Raḥmān I, membro da dinastia omíada derrubada pelos abássidas em 750, proclamou-se emir independente em al-Andalus em 756, com a ideia de transferir o Estado omíada de Damasco para Córdova. No início, os muçulmanos da capital compartilharam o complexo episcopal cristão de São Vicente, como em muitos lugares recém-conquistados da Síria, do Irã e do Egito. Só em 785, quase trinta anos depois, o emir teve apoio político e fiéis suficientes para erguer ali uma mesquita aljama. O oratório tinha onze naves perpendiculares à alquibla, a central mais larga, e seguia a planta hipotética da mesquita al-Aqṣā de Jerusalém (705–715), e não a de Damasco, por razões de estabilidade e pelo valor simbólico de Jerusalém. (Souto 2007)
Arcos duplos e colunas reaproveitadas como troféus
A solução mais conhecida do edifício é a arcaria dupla: arcos de ferradura sobre colunas, sobrepostos por arcos de meio ponto apoiados em pilares. Souto (2007) encontra o antecedente islâmico imediato na mesquita de Damasco e paralelos hispano-romanos em aquedutos como os de Segóvia e de Los Milagros, em Mérida, com o qual Córdova compartilha a alternância de tijolo e pedra nas aduelas. A UNESCO também aponta Los Milagros como precursor direto e vê no uso conjunto de pedra e tijolo a retomada de técnicas romanas e visigodas. As colunas, basas e capitéis são peças romanas ou visigodas reaproveitadas; para Souto, além da economia, isso seguia a prática omíada oriental de exibir materiais clássicos como troféu e emblema de legitimidade. (Souto 2007; UNESCO, lista nº 313)
Emires que ampliaram e assinaram a obra
Os sucessores deixaram marcas próprias. Hishām I ergueu o primeiro minarete e instalações de abluções; ʿAbd al-Raḥmān II ampliou o oratório para o sul a partir de 833 e introduziu, ao lado das colunas reaproveitadas, capitéis novos que imitavam modelos antigos. Muḥammad I concluiu essa obra: a inscrição de uma das portas, transcrita por Souto (2007), data a renovação do ano 241 da Hégira (855–856). Al-Mundhir construiu a bayt al-māl, a sala do tesouro, elemento próprio das mesquitas aljamas do Oriente, e de ʿAbd Allāh resta só a porta de um passadiço (sābāṭ). Proclamado califa em 929, ʿAbd al-Raḥmān III ampliou o pátio e, a partir do outono de 951, ergueu um novo minarete, hoje envolvido pelo campanário cristão. (Souto 2007)
Al-Ḥakam II: o califado feito mesquita
A ampliação de al-Ḥakam II foi a primeira ordem do novo califa, em meados de outubro de 961, e estava pronta em janeiro de 967; Souto (2007) a vê como execução de um projeto de ʿAbd al-Raḥmān III, adiado pela construção de Madīnat al-Zahrāʾ. Ela trouxe abóbadas de nervuras, arcos entrecruzados, uma maqṣūra que separava o califa dos fiéis e um passadiço próprio até ela. Um artista trazido de Bizâncio, junto com o material, desenhou os mosaicos que cobrem os arcos e a abóbada diante do mihrab, concluído no fim de 965. Calvo Capilla (2018) estuda as inscrições corânicas dessa ampliação, em boa parte lidas no séc. XIX por Amador de los Ríos, e sustenta que os versículos também respondiam ao contexto religioso e político de Córdova no séc. X; Damasco e, em menor grau, Medina e as capitais abássidas serviam de modelo aos califas. (Souto 2007; Calvo Capilla 2018)
Almanzor, a catedral e as restaurações
Entre 976 e 1002, o ḥājib Almanzor governou em nome do califa Hishām II e ampliou a mesquita para leste, única direção possível entre o rio, a alquibla e o Alcázar. Souto (2007) lembra que a historiografia costuma desprezar essa obra pela falta de inovações, mas lê nela uma cópia deliberada, sinal de submissão formal aos omíadas diante das acusações de usurpação. No séc. XIII, sob Fernando III, a mesquita virou catedral. Para a UNESCO, a combinação de abóbada de nervuras e arcos entrecruzados antecipou em cem anos a abóbada de nervuras na França, e o edifício influenciou a arte islâmica do Ocidente e o estilo neomourisco do séc. XIX. Parte da decoração atual das portadas exteriores resulta de restaurações de Ricardo Velázquez Bosco no início do séc. XX. (Souto 2007; UNESCO, lista nº 313)
Fontes
- UNESCO World Heritage Centre, "Historic Centre of Cordoba", lista nº 313. https://whc.unesco.org/en/list/313/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026). Acessar
- Souto, J. A. (2007). "La Mezquita Aljama de Córdoba". Artigrama 22: 37–72. DOI 10.26754/ojs_artigrama/artigrama.2007227892. Acessar
- Calvo Capilla, S. (2018). "The Visual Construction of the Umayyad Caliphate in Al-Andalus through the Great Mosque of Cordoba". Arts 7(3): 36. DOI 10.3390/arts7030036. Acessar
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