Cultura Lapita
c. 1500–500 a.C. (Wikidata) · Pacífico
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Cultura arqueológica neolítica associada à colonização da Oceania Remota, ilhas do Pacífico até então desabitadas. Sua expansão é um dos grandes movimentos de navegação e povoamento da história.
Cerâmica denteada e uma cronologia encurtada
Bedford et al. (2019) definem a cultura Lapita sobretudo pela cerâmica decorada com carimbos denteados e pelo sistema de desenhos aplicado a ela e a peças incisas. Ela aparece primeiro no arquipélago de Bismarck, a leste da Nova Guiné, nos séculos anteriores a 3000 anos calibrados antes do presente; por volta dessa data passou além das ilhas já habitadas da Oceania Próxima e fundou as primeiras comunidades humanas do sudeste das Salomão, de Vanuatu, da Nova Caledônia, de Fiji, de Tonga, de Samoa e de Wallis e Futuna. Os autores dão por superada a ideia de uma Lapita que duraria mais de mil anos em algumas áreas ou de uma pausa de 400 anos nas Bismarck: datações mais refinadas indicam que as populações ocuparam quase toda a sua área final num "instante radiocarbônico", nas palavras de Sheppard. A cerâmica denteada teria deixado de ser feita no máximo entre 2700 e 2500 anos calibrados antes do presente, e Specht e Gosden propõem para as Bismarck um início por volta de 3250 a 3150. (Bedford et al. 2019)
293 sítios e fronteiras ainda abertas
O inventário do volume soma 293 sítios lapita: 19 na Nova Guiné, 88 nas Bismarck, 28 nas Salomão, 30 em Vanuatu, 38 na Nova Caledônia, 51 em Fiji, 34 em Tonga, um em Samoa, três em Wallis e um em Futuna (Bedford et al. 2019). Quase todos ficam no litoral; os sítios em zona entremarés parecem restritos à Oceania Próxima, onde os recém-chegados encontravam ilhas já povoadas. As fronteiras leste e sul, Samoa e Nova Caledônia, não mudam desde os anos 1970, mas a noroeste há cerâmica denteada mais antiga e simples no Sudeste Asiático insular, como em Luzon, e segue sem resposta sua relação com a da Micronésia e a das Bismarck. A oeste, achados na costa sul de Papua levaram a área lapita até o rio Fly, e há cerâmica posterior no estreito de Torres e na ilha Lizard. Para Lilley, os aborígines australianos do litoral estariam muito mais ligados à expansão lapita do que se imaginava. Persistem lacunas nas Salomão centrais e em Samoa, e discute-se se são reais ou fruto de pouca pesquisa. (Bedford et al. 2019)
A hipótese do salto sobre as Salomão
Em 1979, Roger Green supunha que os portadores da cultura Lapita, falantes de línguas austronésias, tivessem descido das Bismarck pelas Salomão principais até as ilhas Reefs-Santa Cruz, primeiro posto na Oceania Remota. Diante da falta de sítios lapita antigos nas Salomão principais, Sheppard e Walter propuseram em 2006 que a ocupação de Reefs-Santa Cruz tivesse saltado essas ilhas. Ao rever a hipótese, Sheppard (2019) conclui que os novos dados arqueológicos, genéticos e linguísticos a confirmam, com exceção da ideia de um movimento de volta para o oeste. Em sua reconstrução, navegadores que chegavam ao fim da cadeia, em Ulawa, se abasteceriam antes de cruzar uns 400 km até a ilha alta de Santa Cruz, guiados por ventos sazonais e por uma rota de estrelas no zênite; dali em diante, ilhas visíveis umas das outras se estendiam até Vanuatu. Para o autor, esse salto ajuda a explicar a rapidez da expansão por volta de 3000 anos calibrados antes do presente, e é concebível que em poucas gerações todas as ilhas do sul da Melanésia insular tivessem várias comunidades. (Sheppard 2019; Bedford et al. 2019)
Rostos, cestos, peixes e aves extintas
Os capítulos do volume levam o debate da cerâmica para a vida das comunidades (Bedford et al. 2019). Ambrose, que desenhou cacos lapita já em 1959, inverte a tese de que os motivos lapita influenciaram outras artes: para ele, o trançado e a cestaria foram influências fundamentais na arte oceânica, inclusive na decoração da cerâmica. Spriggs, que firmou em 1990 a leitura de "rostos" lapita, passa a ver neles antes cabeças, máscaras, toucados e gorros. Lebot e Sam listam plantas nativas de Vanuatu que os primeiros colonos poderiam comer logo na chegada, o que enfraquece a ideia de uma ocupação travada pela escassez de flora local; Ono et al. revisam a pesca, com anzóis, restos de peixe e métodos de captura; Hawkins e Worthy reúnem sinais de impacto humano radical sobre aves sem experiência com predadores. (Bedford et al. 2019)
Teouma: ancestrais, festival e Mini Jogos
Para Richard Shing e Edson Willie, do Centro Cultural de Vanuatu, os Lapita são "nossos ancestrais" e de boa parte do Pacífico (Shing e Willie 2019). Em Vanuatu, a cultura foi identificada nos anos 1960, em Efate e Malo. O sítio de Teouma, em Efate, veio à luz porque Salkon Yona, filwoka (agente de campo voluntário) de Epi formado numa oficina de 2003, reconheceu como lapita um grande caco guardado pelo tratorista Charlie Nati. Localizado no início de 2004, o sítio foi escavado pela Universidade Nacional Australiana e pelo centro até 2010, com muitos sepultamentos e potes inteiros, e revelou espécies extintas, como aves que não voavam, crocodilos terrestres e tartarugas. Desde 2015, por iniciativa de George Tasso, morador de Teoumaville, um festival lapita de cinco dias acompanha o Dia Nacional da Cultura, em novembro; em 2016 tratou da dieta e das doenças não transmissíveis e lançou ao mar uma canoa feita por moradores de Port Vila vindos de Futuna. Em 2017, motivos de Teouma ornaram as medalhas e o palco dos Mini Jogos do Pacífico. (Shing e Willie 2019)
Fontes
- Sheppard, P. J. (2011). "Lapita Colonization across the Near/Remote Oceania Boundary". Current Anthropology 52: 799–840. DOI 10.1086/662201. Acessar
- Kirch, P. V. (2017). On the Road of the Winds: An Archaeological History of the Pacific Islands before European Contact (ed. revista e ampliada). University of California Press. DOI 10.1525/9780520968899. Acessar
- Bedford, S.; Spriggs, M.; Burley, D. V.; Sand, C. et al. (2019). "Debating Lapita: Distribution, chronology, society and subsistence". In: Bedford, S.; Spriggs, M. (org.). Debating Lapita: Distribution, Chronology, Society and Subsistence. ANU Press, p. 5–33. ISBN 9781760463304. DOI 10.22459/TA52.2019.01. Acessar
- Sheppard, P. (2019). "Early Lapita colonisation of Remote Oceania: An update on the leapfrog hypothesis". In: Bedford, S.; Spriggs, M. (org.). Debating Lapita: Distribution, Chronology, Society and Subsistence. ANU Press, p. 135–153. ISBN 9781760463304. DOI 10.22459/TA52.2019.07. Acessar
- Shing, R.; Willie, E. (2019). "Connecting with Lapita in Vanuatu: Festivals, sporting events and contemporary themes". In: Bedford, S.; Spriggs, M. (org.). Debating Lapita: Distribution, Chronology, Society and Subsistence. ANU Press, p. 471–481. ISBN 9781760463304. DOI 10.22459/TA52.2019.22. Acessar
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