Atlas da História

Cultura Marajoara

c. 400–1650: surgimento por volta de 400 d.C. e o sítio Cacoal, de c. 1300 a 1650, mostra a cultura ainda viva na chegada dos portugueses (Schaan 2000) · Terras baixas da América do Sul

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Sociedade indígena da ilha de Marajó, na foz do Amazonas, conhecida pela arte cerâmica. É um caso central no debate sobre sociedades complexas na Amazônia antiga.

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Prato de cerâmica marajoara
Prato de cerâmica da cultura marajoara, do acervo do Met. A decoração e a forma mostram a habilidade de ceramistas que viveram na foz do Amazonas muito antes da chegada dos europeus. Prato de cerâmica marajoara, povo marajoara (autoria coletiva), séc. VIII–XII. CC0 1.0 (domínio público). Ver no acervo
Tangas de cerâmica da cultura marajoara
Peças de cerâmica em forma de triângulo, usadas como tanga, com desenho incisado. Mostram que a cultura marajoara fazia da cerâmica também adorno e vestimenta, não só recipiente. A fotografia é do acervo de arqueologia do Museu Nacional/UFRJ. Tangas de cerâmica da cultura marajoara, povo marajoara (autoria coletiva), séc. IX–XIV (cultura marajoara). CC BY-SA (1.0 a 4.0). Ver no acervo

De migrantes em declínio a desenvolvimento local

Meggers e Evans dividiram a sequência de Marajó em seis fases (Ananatuba, Mangueiras, Acauã, Formiga, Marajoara e Aruã) e explicaram o surgimento da cultura Marajoara, por volta de 400 d.C., como a chegada de migrantes mais complexos que teriam regredido num ambiente inadequado. Esse modelo foi muito criticado, e Schaan (2000) aponta claras evidências de desenvolvimento local. Também se supunha que os marajoaras tivessem desaparecido antes da conquista europeia, por volta de 1350, quando cessou a construção de tesos. Roosevelt propôs as subfases Camutins (400 a 700), Guajará/Pacoval (700 a 1100) e Teso (1100 a 1300). No alto rio Anajás, Schaan identificou um período de 300 a 650 (sítio São Benedito), um período clássico de 650 a 1200 (Saparará, Casinha) e um tardio de 1200 a 1650 (Cacoal, Leal, Vista Alegre). (Schaan 2000)

Tesos, cacicados e linhagens

Exploradores do século XIX, como Ferreira Penna e Netto, encontraram cemitérios de urnas em tesos, grandes plataformas artificiais de terra, e deduziram uma sociedade hierarquizada. Meggers e Evans viram nos tesos áreas de habitação; Roosevelt identificou casas no Teso dos Bichos e em Guajará e propôs que fossem residências de elite. No teso Belém, no rio Camutins, Schaan escavou urnas de uma mesma linhagem e propõe vários cacicados regionais, ligados por casamentos, alianças, festas e talvez guerras. Como a maioria das urnas com figura humana representa mulheres, a matrilinearidade é uma possibilidade (Schaan 2008). Depois de 1200, segundo Schaan (2000), o investimento cerimonial diminuiu e houve descentralização; no Cacoal, sítio de 13 ha estudado em 1998 com magnetometria e radar, a cerâmica temperada com cariapé é doméstica, e a com caco moído, cerimonial. (Schaan 2008; Schaan 2000)

Serpentes, corujas e tangas: o que a cerâmica comunica

Para Schaan (2008), os grafismos marajoaras, naturalistas e geométricos, funcionam como partes que remetem a animais inteiros, e os bichos temidos, como serpentes, jacarés e escorpiões, eram bons para pensar. A cerâmica decorada, cerca de 10% da produção, servia a festas e rituais. A serpente é onipresente e lembra a sucuri dos mitos amazônicos, como a cobra-canoa dos Tukano. Há urnas com figura de mulher-coruja e estatuetas talvez usadas em rituais de cura, com furos e seixos que as fazem chocalhar e muitas vezes quebradas no pescoço, o que pode indicar quebra ritual. Tangas de cerâmica só aparecem em tesos de elite: as decoradas, menores, poderiam marcar a iniciação de meninas, e as lisas, mulheres casadas, mas isso é hipótese. A autora lembra que muitas peças de museu vieram de retiradas ilegais. (Schaan 2008)

Nheengaíba e a chegada dos portugueses

O Cacoal, datado de c. 1300 a 1650, mostra que a cultura Marajoara persistia quando os portugueses se instalavam na costa leste da ilha (Schaan 2000). As fontes coloniais, como as cartas de Antônio Vieira, distinguem os Aruã, na costa norte, dos Nheengaíba, no centro da ilha, nome tupi depreciativo que reunia várias nações, como Anajás, Mapuás, Mamaianazes e Sacacas. Os Nheengaíba resistiram às expedições de captura, espalhando-se pelos rios e matas, até a paz negociada por Vieira em 1659, quando cerca de 40 mil indígenas viviam na ilha, segundo Hemming (1978); depois foram levados para missões no baixo Amazonas. Os Aruã só foram reduzidos em 1757. Para Schaan, as populações marajoaras estavam provavelmente entre os Nheengaíba, numa organização multiétnica e supraétnica. (Schaan 2000)

A arte marajoara de hoje

Desde os anos 1970, ceramistas como mestre Cardoso e mestre Cabeludo, no bairro do Paracuri, em Icoaraci, passaram a reproduzir e recriar peças marajoaras; em 1990, Giovanni Gallo publicou um livro sobre o tema. Os motivos marajoaras se espalharam por ônibus, prédios e até um estádio em Belém. Schaan (2008) lê esse movimento, com Hobsbawm, como uma tradição inventada, que liga a identidade regional contemporânea a uma sociedade indígena antiga. (Schaan 2008)

Fontes

  1. Schaan, D. P. (2000). "Recent investigations on Marajoara Culture, Marajó Island, Brazil". Antiquity 74: 469–470. DOI 10.1017/s0003598x0005969x. Acessar
  2. Schaan, D. P. (2008). "A Arte da Cerâmica Marajoara: encontros entre o passado e o presente". Habitus 5: 99–117. DOI 10.18224/hab.v5.1.2007.99-117. Acessar
  3. Neves, E. G. (2022). Sob os tempos do equinócio: oito mil anos de história na Amazônia Central. Ubu / Edusp. ISBN 9788571260702.
  4. Schaan, D. P. (2000). "Evidências para a permanência da Cultura Marajoara à época do contato europeu". Revista de Arqueologia 12(1): 23–42. DOI 10.24885/sab.v12i1.150. Acessar

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