Atlas da História

Geoglifos do Acre

datas entre c. 500 a.C. e 1000 d.C. (Schaan et al. 2007); auge c. 100–400 d.C. e declínio depois de 1000 d.C. (de Souza et al. 2018) · Terras baixas da América do Sul

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Mais de 450 recintos geométricos cercados por valas, espalhados por cerca de 13 mil km² do Acre e hoje encobertos pela floresta. Usados de forma esporádica como espaços de cerimônia e reunião sobretudo entre c. 100 e 400 d.C., com declínio depois de 1000 d.C., foram abertos em clareiras pequenas e temporárias numa floresta dominada por bambu e manejada havia milênios, sem desmatamento extenso.

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Geoglifos no sítio Fazenda Colorada
Valas escavadas em formas geométricas, visíveis depois do desmatamento. Foram feitas por povos indígenas que viveram ali muito antes da chegada dos europeus; o sítio da foto é datado em torno de 1283. Geoglifos no sítio Fazenda Colorada, povos indígenas do sudoeste amazônico (autoria coletiva); foto de Sanna Saunaluoma, c. 1283 d.C. (datação do sítio). CC BY-SA (1.0 a 4.0). Ver no acervo

Do Quinari aos geoglifos: como os recintos vieram à tona

As primeiras pesquisas sistemáticas no Acre foram as do Pronapaba, a partir de 1977: Ondemar Dias e Franklin Levy registraram 70 sítios até 1980, vários da tradição ceramista Quinari. Dias e Carvalho (1988) descreveram oito sítios com valetas e sugeriram que a terra retirada formaria, do lado de fora, uma barreira plantada com abacaxis, com base no que viram em 1983 numa aldeia Curina do rio Juruá. Em 1999, o paleontólogo Alceu Ranzi, da Universidade Federal do Acre, avistou as figuras de um voo comercial entre Porto Velho e Rio Branco e passou a chamá-las de geoglifos. Ranzi atraiu arqueólogos da Universidade de Helsinque; em 2005, no licenciamento de uma linha de transmissão da Eletronorte ao longo da BR-317, recomendou-se desviá-la para proteger os sítios; e em junho de 2007 começou um projeto conjunto de pesquisadores brasileiros e finlandeses. Foi a derrubada da floresta para pastagens que tornou as valas visíveis (Schaan et al. 2007). (Schaan et al. 2007)

Quadrados, círculos e caminhos de até 600 metros

Em 2007, Schaan et al. contavam 110 sítios, com cerca de 130 estruturas, num trecho de 250 km entre Xapuri e Boca do Acre (AM), e estimavam conhecer talvez 10% do total, já que quase todos foram localizados no Google Earth. Os recintos ficam em interflúvios elevados, a cerca de 200 m de altitude, entre os rios Abunã e Acre. Cada um combina uma vala e uma mureta feita com a terra escavada; as valas têm em média 10 m de largura e de 1 a 7 m de profundidade, e as figuras medem de 100 a 350 m. Há quadrados, retângulos, círculos, ovais, hexágonos, octógonos e formas em U, ligados por caminhos retos de até 600 m; os círculos predominam no sul e as figuras quadrangulares no norte. Em alguns sítios, nascentes se ligam às valas, o que sugere manejo de água. Em Jacó Sá e Fazenda Colorada, Watling et al. (2017) mediram valas de até 11 m de largura e 4 m de profundidade, com até seis recintos por sítio. (Schaan et al. 2007; Watling et al. 2017)

Fitólitos e carvão: a floresta ao redor dos recintos

Watling et al. (2017) reconstruíram a vegetação de Jacó Sá e Fazenda Colorada com fitólitos, macrocarvões e isótopos de carbono, apoiados em 19 datas de carvão e 6 de húmus do solo. O bambu (Guadua) domina a paisagem há pelo menos 6 mil anos. As palmeiras aumentaram de 28% a 30% ao longo de uns 3 mil anos de atividade humana e recuaram de 15% a 25% por volta de 650 anos atrás. Valores de δ13C entre −23 e −24‰ indicam dossel fechado durante a construção, e as clareiras mais antigas, de c. 4.000 a 3.600 anos atrás, antecedem as valas. Nove das dez espécies mais abundantes perto de um dos recintos têm importância socioeconômica atual. Os autores contestam a ideia de que o reflorestamento após a conquista europeia tenha contribuído para a queda de CO2 da Pequena Idade do Gelo e alertam que não se deve presumir que essa floresta seja resiliente. (Watling et al. 2017)

Cerimônia, defesa ou encontro: as leituras em debate

As poucas datas disponíveis em 2007 situavam os sítios entre 500 a.C. e 1000 d.C., com uma data de 1260 d.C.; castanheiras de cerca de 800 anos crescidas dentro das valas mostram que a mata atual é mais recente que os recintos. Pärssinen et al. (2003) pensaram em aldeias fortificadas ou em valas usadas como reservatório, talvez para criar tartarugas. Schaan et al. (2007) trabalham com três hipóteses, não excludentes: lugares cerimoniais, aldeias fortificadas ou locais de encontro; veem na geometria precisa um sentido simbólico e, nos sítios, um argumento contra a ideia, associada a Betty Meggers, de que os povos de terra firme seriam poucos e dispersos. Se eram cacicados centralizados ou sociedades heterárquicas, segue em aberto. Watling et al. (2017) notam a quase ausência de material cultural dentro dos recintos e a falta de aldeias contemporâneas, o que favorece o uso cerimonial, e atribuem as obras a uma rede de grupos locais relativamente autônomos, unidos por uma ideologia, com reutilização por grupos diferentes. A ligação com povos aruaques foi proposta, mas a cerâmica não confirma o vínculo com as tradições Saladoide e Barrancoide. (Schaan et al. 2007; Watling et al. 2017)

Fontes

  1. Watling, J.; Iriarte, J.; Mayle, F. E.; Schaan, D. et al. (2017). "Impact of pre-Columbian “geoglyph” builders on Amazonian forests". Proceedings of the National Academy of Sciences 114(8): 1868–1873. DOI 10.1073/pnas.1614359114. Acessar
  2. Schaan, D.; Pärssinen, M.; Ranzi, A.; Piccoli, J. C. (2007). "Geoglifos da Amazônia ocidental". Revista de Arqueologia 20(1): 67–82. DOI 10.24885/sab.v20i1.229. Acessar
  3. de Souza, J. G.; Schaan, D. P.; Robinson, M.; Barbosa, A. D. et al. (2018). "Pre-Columbian earth-builders settled along the entire southern rim of the Amazon". Nature Communications 9: 1125. DOI 10.1038/s41467-018-03510-7. Acessar

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