Doença de Minamata
maio 1956 (confirmação oficial da doença; causa em 1959; reconhecimento oficial em 1968) · Leste Asiático
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Em maio de 1956 foi oficialmente confirmada, na cidade de Minamata (Kyushu, Japão), uma doença neurológica então desconhecida; em 1959 a equipe da Universidade de Kumamoto apontou o mercúrio orgânico, e só em 1968 o governo reconheceu a doença como causada pelos efluentes da fábrica química da Chisso, com metilmercúrio acumulado em peixes e mariscos. A contaminação atingiu a baía de Minamata e o litoral do mar de Shiranui, e houve casos congênitos em bebês cujas mães comeram o pescado.
Uma cidade moldada pela fábrica
Antes da Chisso, Minamata vivia do sal, da madeira, da lavoura e da pesca (Nagano 2017). A empresa chegou em 1908 para fabricar carbureto e, com a Primeira Guerra Mundial, seu sulfato de amônio passou a responder por mais da metade da produção japonesa. Nos anos 1920 já controlava a água, o porto e terras, e em 1925 o prefeito e vereadores saíram de seus quadros. Em 1932 a fábrica começou a produzir acetaldeído com mercúrio como catalisador, processo que durou até 1968 e gerava metilmercúrio como subproduto (Maruyama 2000). Nagano lembra que a técnica foi levada à fábrica de Hungnam, na Coreia sob domínio japonês, onde o governo-geral desalojou moradores e a obra mobilizou trabalhadores coreanos e chineses; para ela, esse modo de agir passou ao pós-guerra. Maruyama registra pedidos de indenização dos pescadores já em 1925 e um contrato de 1943 em que eles se comprometiam a não atrapalhar uma fábrica dita vital ao Estado, texto que o autor lê como de mentalidade colonial. (Nagano 2017; Maruyama 2000)
Do primeiro aviso à tese do mercúrio (1956–1959)
Já no início dos anos 1950, descreve Maruyama (2000), viam-se na baía gatos em convulsão que se lançavam ao mar, aves que caíam e peixes boiando. Em abril de 1956, duas meninas de uma aldeia de pescadores, de 5 e 2 anos, foram internadas no hospital da própria fábrica, e em 1º de maio o diretor, Hosokawa Hajime, comunicou os casos ao posto de saúde (Nagano 2017; Maruyama 2000). Moradores idosos contaram a Nagano que havia doentes desde c. 1940. Em novembro de 1956, a equipe da Universidade de Kumamoto descartou contágio, apontou um metal pesado ingerido com o pescado e indicou o efluente da fábrica como fonte provável. Em 1958, a Chisso desviou o despejo da baía para a foz do rio Minamata em segredo, e logo surgiram doentes também ali. Em julho de 1959, a equipe de Kumamoto apontou o mercúrio orgânico; em outubro, Hosokawa fez um gato adoecer com o efluente da planta de acetaldeído, mas a empresa escondeu o resultado e proibiu novos testes (Maruyama 2000). (Maruyama 2000; Nagano 2017)
Pescadores contra a frente All Minamata
Desde janeiro de 1957, a cooperativa de pesca de Minamata pedia que a empresa parasse o despejo ou o tratasse antes; para Maruyama (2000), atendê-la teria contido a expansão da doença. O governo de Kumamoto nunca proibiu a pesca: pediu aos pescadores que se contivessem, enquanto a fábrica seguia operando. O Ministério do Comércio Internacional e da Indústria alegava causa indeterminada; segundo o autor, a Chisso era então quase a única fonte de octanol, insumo do plástico PVC, e o ministério queria a produção mantida. Em 2 de novembro de 1959, pescadores de todo o mar de Shiranui que exigiam a parada do efluente invadiram a fábrica. A cidade reagiu em bloco: prefeito, câmara, comércio e sindicato da Chisso pediram ao governador que não se interrompesse o despejo, frente que Nagano (2017) chama de All Minamata. Em 30 de dezembro, os pacientes aceitaram um contrato de mitekin, uma soma de consolação baixa, sem admissão de culpa e com renúncia a indenizações futuras mesmo que a fábrica fosse a causa (Harada 1997). (Maruyama 2000; Nagano 2017; Harada 1997)
Nove anos em branco e a certificação dos doentes
Nagano (2017) chama de período em branco os anos de 1959 a 1968. Um purificador instalado em 1959 foi apresentado como solução, mas, segundo Maruyama (2000), não retirava o metilmercúrio; a produção de acetaldeído chegou ao pico, quase sem tratar o efluente, e o reconhecimento de novos pacientes parou. O quadro mudou com a doença de Minamata de Niigata, revelada em 1965: só então a empresa tratou de fato o efluente, e em 1968 o governo reconheceu a doença como poluição industrial. A visita de pacientes de Niigata ajudou a criar em Minamata o primeiro grupo de apoio, e o primeiro processo veio em 1969. Maruyama mostra como o comitê criado às pressas em 1959 para decidir quem receberia o mitekin deu origem a um sistema de certificação que definia quem tinha direito a indenização. Com os critérios de 1977, a maioria dos pedidos passou a ser negada. A solução política de 1995 pagou aos não certificados uma soma única, sem reconhecê-los como pacientes da doença. (Nagano 2017; Maruyama 2000)
Filhos da doença estranha: estigma e memória
Harada (1997) acompanha a vida de T. Yukimi, filha de pescador, nascida em Minamata em 1947. O pai adoeceu em 1954 e foi internado num hospital psiquiátrico; a família caiu na pobreza, e na escola ela era chamada de criança da doença estranha. Aos 17 anos foi para Tóquio e, por décadas, escondeu a origem. Só em 1993 passou a falar em público como filha de paciente, e em 1994 escreveu um relato. A autora mostra que essa segunda geração, mesmo sem sintomas, sofria discriminação no casamento e no emprego, alimentada pela ideia falsa de que a doença era hereditária; os casos congênitos vêm da exposição ao mercúrio no útero. Nagano (2017) registra que o boato de contágio persiste e que os pacientes se dividiram em mais de 30 grupos. O centro Soshisha, fundado em 1974, mantém um museu numa antiga fábrica de cogumelos criada para pacientes congênitos trabalharem. Em 1994, o prefeito Yoshii Masazumi pediu desculpas aos atingidos e lançou a ideia de moyai-naoshi, refazer os laços, que cada grupo da cidade entende a seu modo (Maruyama 2000). (Harada 1997; Nagano 2017; Maruyama 2000)
Fontes
- Harada, M. (1995). "Minamata Disease: Methylmercury Poisoning in Japan Caused by Environmental Pollution". Critical Reviews in Toxicology 25: 1–24. DOI 10.3109/10408449509089885. Acessar
- George, T. S. (2001). Minamata: Pollution and the Struggle for Democracy in Postwar Japan. Harvard University Asia Center. ISBN 9780674007857. DOI 10.1163/9781684173471. Acessar
- Nagano, M. (2017). "水俣病事件の経緯・現状・課題と水俣病センター相思社". Dōjidaishi Kenkyū (The Japanese Journal of Contemporary History) 10: 92–97. DOI 10.34364/doujidaishi.10.0_92. Acessar
- Maruyama, S. (2000). "水俣病に対する責任―発生・拡大・救済責任の問題をめぐって― [Responsibilities for Minamata Disease]". Kankyō Shakaigaku Kenkyū (Journal of Environmental Sociology) 6: 23–38. DOI 10.24779/jpkankyo.6.0_23. Acessar
- Harada, R. (1997). "水俣病患者第二世代のアイデンティティ―水俣病を語り始めた「奇病の子」の生活史より― [Identity of the Second Generation of Minamata Disease Victims]". Kankyō Shakaigaku Kenkyū (Journal of Environmental Sociology) 3: 213–228. DOI 10.24779/jpkankyo.3.0_213. Acessar
Na mesma região
- Restauração Meiji 1868 a 11 fev. 1889 (Wikidata)
- Guerra Imjin (invasões japonesas da Coreia) 1592–1598
- Zheng He c. 1371 – c. 1433/35 (Yang 2014; Wikidata)
- Tripitaka Coreana (blocos de Haeinsa) 1237–1248 (UNESCO)
- Murasaki Shikibu c. 978 – c. 1014 (Lowell 1920; Arntzen 2015)
- Heian-kyō (Quioto) 794 a 1868 (Fauré 2019) ou 1869 (Wikidata) como capital