Atlas da História

Restauração Meiji

1868 a 11 fev. 1889 (Wikidata) · Leste Asiático

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Reforma política que restaurou o governo imperial no Japão no último terço do séc. XIX. Abriu o período de transformações estudado como formação do Japão moderno.

Promulgação da Constituição na sala de Estado do novo Palácio Imperial
Xilogravura colorida da cerimônia de entrega da Constituição Meiji, em 1889. Retrata o Estado reformado pela Restauração Meiji do ponto de vista oficial, tema comum nas estampas da época. Promulgação da Constituição na sala de Estado do novo Palácio Imperial, Adachi Ginkō, 14 de março de 1889. CC0 1.0 (domínio público). Ver no acervo
Concerto de música europeia (Ōshū kangengaku gassō no zu)
Xilogravura que mostra mulheres da corte tocando instrumentos europeus. Documenta a adoção de costumes ocidentais pela elite Meiji, tema recorrente nas estampas de Chikanobu. Concerto de música europeia (Ōshū kangengaku gassō no zu), Yōshū (Hashimoto) Chikanobu, 1889. CC0 1.0 (domínio público). Ver no acervo

Uma revolução de 38 anos, de Perry à Dieta

O historiador Mitani Hiroshi propõe ler a Restauração em chave comparada, segundo a resenha de Kobayashi Nobuto (2021) sobre seu livro de 2020. Para Mitani, insistir em tratá-la como caso particular japonês é preguiça intelectual. Ele a compara à Revolução Francesa e a define como uma revolução que desmontou o sistema de status hereditários tendo a monarquia como eixo. Por isso estende o período aos cerca de 38 anos que vão da chegada da esquadra de Perry, em 1853, à abertura da Dieta Imperial, em 1890. Para Mitani, depois de Perry, os rituais perderam peso na política e ganharam importância os debates e movimentos em torno das decisões. A repressão conduzida por Ii Naosuke na crise de 1858, apoiada na primazia da linhagem, acabou por ferir a legitimidade dos próprios Tokugawa. Kobayashi aponta um limite: ao se afastar da historiografia marxista, Mitani deixa de dialogar com o acúmulo de debates das escolas Kōza e Rōnō sobre o caráter da Restauração. (Kobayashi 2021)

Da lealdade ao daimiô à opinião pública

Na leitura de Mitani resumida por Kobayashi (2021), já no período Edo surgiam elementos que favoreciam uma consciência nacional. A Restauração conseguiu transferir a lealdade da elite governante, antes voltada aos Estados dos daimiôs, para o Japão como um todo, e a escola obrigatória ajudou a envolver a gente comum nesse projeto. Mitani acompanha também a prática do debate público, o kōgi ou kōron, que existia em parte no período Edo e cresceu com as disputas sobre a sucessão do xógum e a aprovação imperial dos tratados. Dela teria saído a ideia de um povo em que governantes e governados têm a mesma qualidade de cidadãos. O jornal Hyōron Shinbun, de 1875 e proibido no ano seguinte, criticou duramente a expedição a Taiwan. Kobayashi questiona, porém, o elogio de Mitani à contenção do governo depois de 1890, lembrando a interferência do Ministério do Interior na segunda eleição geral. Suzuki (2018) lembra que, nos primeiros anos, o termo Goisshin, a grande renovação, era muito mais usado que ishin. (Kobayashi 2021; Suzuki 2018)

Kami e budas separados por decreto

Em 1868, duas ordens do novo governo, conhecidas como decretos de distinção entre kami e budas, mandaram que os monges que serviam nos santuários deixassem o hábito e passassem a sacerdotes xintoístas. Também determinaram a retirada de nomes budistas, imagens e objetos de culto dos santuários (Suzuki 2018). Dias depois, cerca de quarenta funcionários de santuário destruíram com violência imagens budistas no santuário Sannō, ao pé do monte Hiei. O governo avisou que a ordem não era um chamado à destruição do budismo. Mesmo assim, na leitura popular, a exclusão do budismo virou abolição, e o movimento haibutsu kishaku causou tumultos em várias regiões. Para Suzuki, o objetivo central da política de fazer do xintoísmo a religião do Estado era afastar o budismo, que ocupara essa posição no período Edo. Ele adverte ainda que os termos usados hoje, separação e fusão entre kami e budas, só surgiram entre 1901 e 1912 e embutem a ideia de superioridade do xintoísmo. (Suzuki 2018)

O desmonte do Shugendō nas aldeias e nas montanhas

O Shugendō, religião de ascetas das montanhas que misturava práticas budistas e culto aos kami, foi o mais atingido (Suzuki 2018). Entre 1868 e 1871, seus praticantes tiveram de escolher entre manter-se como templo, tornar-se sacerdotes xintoístas ou voltar à lavoura. Em 1872, um decreto aboliu o Shugendō como escola e o anexou às escolas budistas Tendai e Shingon. Suzuki mostra o efeito local com o caderno de anotações de Ryōchi, asceta da linhagem Haguro numa aldeia de Yamagata. Ele fazia ritos para o tempo, curas e buscas de objetos roubados e trabalhava com os vizinhos; em 1871 virou sacerdote xintoísta. Nos grandes centros, Haguro, Yoshino e Hikosan foram transformados à força em santuários em 1873 e 1874. Yoshino logo voltou a ter templos, pela pressão de fiéis e confrarias; em Hikosan, onde um grupo armado destruiu imagens e edifícios budistas a partir de 1874, 112 das 259 casas de ascetas de 1863 sumiram em pouco mais de dez anos. Suzuki cita o historiador Yasumaru Yoshio, para quem essa política foi imposta com arrogante incompreensão da vida espiritual do povo. (Suzuki 2018)

Mulheres, médiuns e o poder na Restauração

A historiadora Sekiguchi Sumiko, em livro de 2005 resenhado por Hayashi Yōko (2006), relê a Restauração do ponto de vista do gênero. Para ela, o Goisshin foi a exclusão do poder das mulheres, ou seja, a reafirmação do poder dos homens. O livro contesta a imagem de que as mulheres não tinham poder no período Edo, examina a política dos aposentos femininos do xogunato e liga essa exclusão à mudança na imagem das prostitutas, de cortesãs admiradas a mulheres de ofício vergonhoso. Hayashi pede mais clareza sobre o que a autora entende por poder. As medidas religiosas também atingiram mulheres (Suzuki 2018). Em 1872, o governo suspendeu as proibições de entrada de mulheres em montanhas sagradas, para que estrangeiros acompanhados das esposas pudessem subir o monte Hiei durante a Exposição de Quioto, sem pesar o efeito local. Em 1873, proibiu as médiuns azusa miko e ichiko e práticas de possessão e adivinhação, vistas como costumes antigos e indecorosos. (Hayashi 2006; Suzuki 2018)

Fontes

  1. Jansen, M. B. (2002). The Making of Modern Japan. Harvard University Press (Belknap). DOI 10.4159/9780674039100. Acessar
  2. Kobayashi, N. (2021). "三谷博著『日本史のなかの「普遍」―比較から考える「明治維新」―』" (resenha). Rekishi to Keizai (歴史と経済) 63(4): 44–47. DOI 10.20633/rekishitokeizai.63.4_44. Acessar
  3. Suzuki, M. (2018). "明治維新と修験道 [The Meiji Restoration and Shugendō]". Shūkyō Kenkyū (Journal of Religious Studies) 92(2): 131–157. DOI 10.20716/rsjars.92.2_131. Acessar
  4. Hayashi, Y. (2006). "ジェンダーの視点から塗りかえる明治維新像" (resenha de Sekiguchi, S., Goisshin to jendā, 2005). Seiji Shisō Kenkyū (政治思想研究) 6: 426–427. DOI 10.11326/jjpt2000.6.0_426. Acessar

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