Restauração Meiji
1868 a 11 fev. 1889 (Wikidata) · Leste Asiático
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Reforma política que restaurou o governo imperial no Japão no último terço do séc. XIX. Abriu o período de transformações estudado como formação do Japão moderno.
Uma revolução de 38 anos, de Perry à Dieta
O historiador Mitani Hiroshi propõe ler a Restauração em chave comparada, segundo a resenha de Kobayashi Nobuto (2021) sobre seu livro de 2020. Para Mitani, insistir em tratá-la como caso particular japonês é preguiça intelectual. Ele a compara à Revolução Francesa e a define como uma revolução que desmontou o sistema de status hereditários tendo a monarquia como eixo. Por isso estende o período aos cerca de 38 anos que vão da chegada da esquadra de Perry, em 1853, à abertura da Dieta Imperial, em 1890. Para Mitani, depois de Perry, os rituais perderam peso na política e ganharam importância os debates e movimentos em torno das decisões. A repressão conduzida por Ii Naosuke na crise de 1858, apoiada na primazia da linhagem, acabou por ferir a legitimidade dos próprios Tokugawa. Kobayashi aponta um limite: ao se afastar da historiografia marxista, Mitani deixa de dialogar com o acúmulo de debates das escolas Kōza e Rōnō sobre o caráter da Restauração. (Kobayashi 2021)
Da lealdade ao daimiô à opinião pública
Na leitura de Mitani resumida por Kobayashi (2021), já no período Edo surgiam elementos que favoreciam uma consciência nacional. A Restauração conseguiu transferir a lealdade da elite governante, antes voltada aos Estados dos daimiôs, para o Japão como um todo, e a escola obrigatória ajudou a envolver a gente comum nesse projeto. Mitani acompanha também a prática do debate público, o kōgi ou kōron, que existia em parte no período Edo e cresceu com as disputas sobre a sucessão do xógum e a aprovação imperial dos tratados. Dela teria saído a ideia de um povo em que governantes e governados têm a mesma qualidade de cidadãos. O jornal Hyōron Shinbun, de 1875 e proibido no ano seguinte, criticou duramente a expedição a Taiwan. Kobayashi questiona, porém, o elogio de Mitani à contenção do governo depois de 1890, lembrando a interferência do Ministério do Interior na segunda eleição geral. Suzuki (2018) lembra que, nos primeiros anos, o termo Goisshin, a grande renovação, era muito mais usado que ishin. (Kobayashi 2021; Suzuki 2018)
Kami e budas separados por decreto
Em 1868, duas ordens do novo governo, conhecidas como decretos de distinção entre kami e budas, mandaram que os monges que serviam nos santuários deixassem o hábito e passassem a sacerdotes xintoístas. Também determinaram a retirada de nomes budistas, imagens e objetos de culto dos santuários (Suzuki 2018). Dias depois, cerca de quarenta funcionários de santuário destruíram com violência imagens budistas no santuário Sannō, ao pé do monte Hiei. O governo avisou que a ordem não era um chamado à destruição do budismo. Mesmo assim, na leitura popular, a exclusão do budismo virou abolição, e o movimento haibutsu kishaku causou tumultos em várias regiões. Para Suzuki, o objetivo central da política de fazer do xintoísmo a religião do Estado era afastar o budismo, que ocupara essa posição no período Edo. Ele adverte ainda que os termos usados hoje, separação e fusão entre kami e budas, só surgiram entre 1901 e 1912 e embutem a ideia de superioridade do xintoísmo. (Suzuki 2018)
O desmonte do Shugendō nas aldeias e nas montanhas
O Shugendō, religião de ascetas das montanhas que misturava práticas budistas e culto aos kami, foi o mais atingido (Suzuki 2018). Entre 1868 e 1871, seus praticantes tiveram de escolher entre manter-se como templo, tornar-se sacerdotes xintoístas ou voltar à lavoura. Em 1872, um decreto aboliu o Shugendō como escola e o anexou às escolas budistas Tendai e Shingon. Suzuki mostra o efeito local com o caderno de anotações de Ryōchi, asceta da linhagem Haguro numa aldeia de Yamagata. Ele fazia ritos para o tempo, curas e buscas de objetos roubados e trabalhava com os vizinhos; em 1871 virou sacerdote xintoísta. Nos grandes centros, Haguro, Yoshino e Hikosan foram transformados à força em santuários em 1873 e 1874. Yoshino logo voltou a ter templos, pela pressão de fiéis e confrarias; em Hikosan, onde um grupo armado destruiu imagens e edifícios budistas a partir de 1874, 112 das 259 casas de ascetas de 1863 sumiram em pouco mais de dez anos. Suzuki cita o historiador Yasumaru Yoshio, para quem essa política foi imposta com arrogante incompreensão da vida espiritual do povo. (Suzuki 2018)
Mulheres, médiuns e o poder na Restauração
A historiadora Sekiguchi Sumiko, em livro de 2005 resenhado por Hayashi Yōko (2006), relê a Restauração do ponto de vista do gênero. Para ela, o Goisshin foi a exclusão do poder das mulheres, ou seja, a reafirmação do poder dos homens. O livro contesta a imagem de que as mulheres não tinham poder no período Edo, examina a política dos aposentos femininos do xogunato e liga essa exclusão à mudança na imagem das prostitutas, de cortesãs admiradas a mulheres de ofício vergonhoso. Hayashi pede mais clareza sobre o que a autora entende por poder. As medidas religiosas também atingiram mulheres (Suzuki 2018). Em 1872, o governo suspendeu as proibições de entrada de mulheres em montanhas sagradas, para que estrangeiros acompanhados das esposas pudessem subir o monte Hiei durante a Exposição de Quioto, sem pesar o efeito local. Em 1873, proibiu as médiuns azusa miko e ichiko e práticas de possessão e adivinhação, vistas como costumes antigos e indecorosos. (Hayashi 2006; Suzuki 2018)
Fontes
- Jansen, M. B. (2002). The Making of Modern Japan. Harvard University Press (Belknap). DOI 10.4159/9780674039100. Acessar
- Kobayashi, N. (2021). "三谷博著『日本史のなかの「普遍」―比較から考える「明治維新」―』" (resenha). Rekishi to Keizai (歴史と経済) 63(4): 44–47. DOI 10.20633/rekishitokeizai.63.4_44. Acessar
- Suzuki, M. (2018). "明治維新と修験道 [The Meiji Restoration and Shugendō]". Shūkyō Kenkyū (Journal of Religious Studies) 92(2): 131–157. DOI 10.20716/rsjars.92.2_131. Acessar
- Hayashi, Y. (2006). "ジェンダーの視点から塗りかえる明治維新像" (resenha de Sekiguchi, S., Goisshin to jendā, 2005). Seiji Shisō Kenkyū (政治思想研究) 6: 426–427. DOI 10.11326/jjpt2000.6.0_426. Acessar
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