Heian-kyō (Quioto)
794 a 1868 (Fauré 2019) ou 1869 (Wikidata) como capital · Leste Asiático
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Capital do Japão fundada pelo imperador Kanmu, que em 794 deixou Nagaoka-kyō por um sítio escolhido segundo princípios do fengshui; o nome quer dizer capital da paz e da segurança. A mudança encerrou as trocas de sede da corte iniciadas no século VII. Atual Quioto, foi capital até 1868 e deu nome ao período Heian (794–1185).
Por que a corte deixou Nara e depois Nagaoka
Segundo McCullough (1999), a ida para Heian-kyō pôs fim a uma longa peregrinação: desde que o sistema de governo por códigos se instalou no século VII, os soberanos e suas cortes mudavam de sede com frequência. Fauré (2019) lembra as duas últimas etapas. Kanmu deixou Heijō-kyō (Nara) em 784, mandou erguer Nagaoka-kyō, na atual cidade de Mukō, e a abandonou dez anos depois. A resenha de Kawahara (2007) sobre a obra coletiva organizada por Kinda Akihiro registra que as obras da nova capital começaram em 793 e que a corte se mudou no ano seguinte para o lugar batizado Heian-kyō. O sítio ficava no distrito de Kadono, província de Yamashiro. Pouco depois da mudança, Kanmu trocou os caracteres do nome da província: de terra além dos montes de Nara passou a fortaleza das montanhas. Fauré cita ainda o historiador Inoue Mitsuo, para quem pesaram na escolha, além da geomancia, os rios que serviam ao transporte e ao abastecimento e as aldeias de famílias poderosas aliadas do imperador. (McCullough 1999; Fauré 2019; Kawahara 2007)
Os quatro animais: uma tradição escrita depois
A ideia de que o lugar foi escolhido pelo fengshui tem história própria, mostra Fauré (2019). A crônica oficial do período, o Nihon Kōki (840), chegou incompleta e sem os trechos sobre a fundação. Quem primeiro afirma que Kadono correspondia aos quatro animais guardiães dos pontos cardeais é o Heike Monogatari, de c. 1250. A ligação de cada animal a um tipo de relevo (rio a leste, lago ao sul, estrada a oeste, montanha ao norte) só aparece por escrito em 1314, num comentário do monge Hōkū. Com o tempo, firmou-se a leitura de que o rio Kamo era o Dragão Azul, uma estrada a oeste o Tigre Branco, os montes Funaoka a Tartaruga Negra e o lago Ogura a Fênix Vermelha. Como Nara, fundada em 710, também fora descrita como conforme aos quatro animais sem ter esse relevo, Fauré conclui que as regras chinesas eram conhecidas desde o século VIII, mas foram adaptadas aos poucos para caber na paisagem de Heian-kyō. Essa versão quiotense passou a ser tida como o arranjo ideal e serviu depois de modelo a castelos e cidades. (Fauré 2019)
Uma capital em grade e sem muralhas
O traçado seguiu as capitais chinesas de Chang'an e Luoyang: uma grade de avenidas em ângulo reto, com o palácio, as repartições e os oito ministérios cercados por muros altos (Fauré 2019). Funo (2017) classifica Chang'an como capital de palácio ao norte, tipo que serviu de modelo a Heijō-kyō, a Heian-kyō e à capital de Balhae. Havia, porém, uma diferença essencial. Chang'an tinha fossos e muralhas; Heian-kyō não. Seus limites eram apenas as ruas de borda, como a Ichijō ao norte e a Kujō ao sul. A porta principal, Rashōmon, com cerca de 35 m de largura e 21 m de altura, podia ser contornada a pé. Servia para impressionar embaixadores da China e da Coreia, como arco de triunfo para tropas que voltavam das campanhas no nordeste do arquipélago e como palco de ritos para afastar epidemias e demônios. Só em 1591 Toyotomi Hideyoshi mandou cercar a cidade com taludes de terra e sete passagens, que os moradores foram desmanchando depois. (Fauré 2019; Funo 2017)
Templos contra epidemias e a porta dos demônios
Na falta de muralhas, a defesa foi religiosa. Fauré (2019) descreve uma rede de templos e santuários ao redor da cidade, cujos religiosos deviam repelir epidemias e criaturas sobrenaturais. Na entrada ficava o Tōji, confiado a Kūkai; no monte Hiei, a nordeste, o mosteiro Enryakuji, confiado a Saichō. O nordeste era a porta dos demônios, ideia de origem chinesa que os japoneses adaptaram. Muitas atribuições dessas obras a Kanmu vêm de monografias da cidade dos séculos XVII e XVIII e não podem ser confirmadas, adverte o autor. Mas a construção de templos seguiu por séculos. Para Fauré, a concentração inédita de gente aumentava os estragos de terremotos e epidemias, e crescia a crença de que os males vinham de mortos ressentidos. Ainda hoje se veem em Quioto talismãs do mestre cornudo nas fachadas, estátuas de macaco e o canto nordeste recortado do muro do palácio imperial. (Fauré 2019)
De Heian-kyō a Quioto
Kawahara (2007) observa que kyō, miyako e Kyōto eram de início substantivos comuns para capital; com o tempo viraram nome de lugar, e Kyōto se firmou como o principal. Até a era Meiji, a residência do imperador continuou sendo, no essencial, Heian-kyō. A cidade, porém, mudou muito. Os estudos resenhados por Kawahara descrevem, já no fim do período Heian, um espaço disperso e com vários núcleos, distante do plano original. No século XVII, a população dos bairros urbanos somava cerca de 410 mil pessoas e, comparada a Edo, a cidade tinha poucos guerreiros. McCullough (1999) mostra que, na metade do século IX, o ramo norte do clã Fujiwara caminhava para dominar o imperador e o governo. Fauré (2019) acrescenta que, quando a sede do poder foi para Edo, em 1868, a cidade rebatizada Tóquio foi reorganizada segundo princípios de fengshui desenvolvidos em Quioto. Ele nota também que o lago Ogura, a Fênix Vermelha, foi aterrado na Segunda Guerra Mundial para virar campo de cultivo. (Kawahara 2007; McCullough 1999; Fauré 2019)
Fontes
- Wikidata Q751907 (P571 794-11-22 juliano; P576 1869; descrição 'capital of Japan 794–1868'); consultado via API em out. 2026
- Wikidata Q193292 (período Heian 794–1185); consultado via API em out. 2026
- McCullough, W. H. (1999). "The Heian court, 794–1070". In: Shively, D. H.; McCullough, W. H. (orgs.). The Cambridge History of Japan, v. 2: Heian Japan. Cambridge University Press, p. 20–96. ISBN 9780521223539. DOI 10.1017/CHOL9780521223539.003. Acessar
- Fauré, E. (2019). "La fondation de Heian-kyô ou comment obtenir la paix et la sûreté dans une Capitale". Kult-ur 6: 83–102. DOI 10.6035/kult-ur.2019.6.12.3. Acessar
- Kawahara, N. (2007). "Kinda, A.: Heiankyo-Kyoto: City Plans and Urban Structure" (resenha). Geographical Review of Japan 80(11): 660–662. DOI 10.4157/grj.80.660. Acessar
- Funo, S. (2017). "Ancient Chinese capital models — Measurement system in urban planning —". Proceedings of the Japan Academy, Series B 93(9): 724–745. DOI 10.2183/pjab.93.045. Acessar
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- Jimmu e a fundação do Japão no Nihon shoki Nihon shoki concluído em 720; Kojiki, em 712 (Aston, introdução)
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- Xuanzang c. 600/603 – 664 (Deeg 2019; Hwui Li, trad. Beal 1911)
- Tripitaka Coreana (blocos de Haeinsa) 1237–1248 (UNESCO)
- Zheng He c. 1371 – c. 1433/35 (Yang 2014; Wikidata)