Atlas da História

Engenho de açúcar e a Cultura e Opulência do Brasil (Antonil, 1711)

publicado em 1711 (capítulo do açúcar escrito entre 1693 e 1698) · Terras baixas da América do Sul

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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O engenho real do Recôncavo baiano era uma unidade de moagem movida a água, com muitas pessoas escravizadas e lavradores de cana dependentes do senhor. O tratado jesuíta Cultura e Opulência do Brasil (1711) o descreve como uma casa hierárquica governada pelo senhor.

Cultura e Opulência do Brasil (folha de rosto)
Folha de rosto da obra de Antonil, que descreve o engenho de açúcar e a mineração do ponto de vista do senhor de engenho. A obra foi proibida pela Coroa logo depois de publicada. Cultura e Opulência do Brasil (folha de rosto), André João Antonil, 1711. Domínio público. Ver no acervo

O engenho real e o olhar de Antonil

Na edição de 1711, reimpressa no Rio de Janeiro em 1837, Antonil explica que os engenhos reais se distinguem por mais de uma razão: a perfeição das oficinas, o grande número de pessoas escravizadas, a extensão dos canaviais próprios ou obrigados a moer ali e, sobretudo, a moenda movida a água, em contraste com os que moem com cavalos e bois. Conta que visitou, durante oito ou dez dias, o engenho de Sergipe do Conde, no recôncavo da Bahia, que chama de quase rei dos engenhos reais, e que se informou com o administrador de mais de trinta anos, com um mestre de açúcar de cinquenta anos de ofício e com os demais oficiais. Registra também que os lavradores de cana dependem dos senhores como os cidadãos dos fidalgos, alguns arrendando partidos em terras do próprio engenho. Tomich (2023) lembra que Antonil era jesuíta, escreveu o capítulo do açúcar entre 1693 e 1698 e o livro só saiu em 1711. (Antonil 1711; Tomich 2023)

As pessoas escravizadas na voz de um jesuíta

No capítulo IX, Antonil afirma que as pessoas escravizadas são as mãos e os pés do senhor do engenho, porque sem elas não se faz fazenda nem se tem engenho corrente. Descreve compras anuais de africanos de várias procedências, entre elas Ardas, Minas, Congos, Angola, Cabo Verde, São Tomé e Moçambique, e atribui a cada grupo juízos que hoje se leem como estereótipos de quem comprava. Critica os senhores que não dão o sustento, ocupam os dias santos e castigam por qualquer coisa, e lembra o dito corrente de que, para quem é mantido cativo, são necessários pão, pau e pano, lamentando que o castigo viesse sempre primeiro. Escreve que, quando o castigo é excessivo, os cativos fogem para o mato ou se matam, e adverte que Deus os ouvirá. Tomich (2023) mostra que a expressão das mãos e dos pés não é só desumanização: dentro da imagem do corpo do engenho, o senhor é a cabeça e os supervisores são os braços. (Antonil 1711; Tomich 2023)

Sergipe do Conde em 1717 e 1718

Souza (2009) conta o que se sabe do mesmo engenho depois de Antonil. Segundo documentos que ela reúne, cerca de sessenta e seis cativos, entre eles Domingos Benguela, André Arda, Salvador Barqueiro e o carpinteiro Paulo Crioulo, mataram o capitão João Dorneles na safra de cana, e foram presos na cadeia da Vila de São Francisco, enquanto os jesuítas do Colégio de Santo Antão de Lisboa, administradores do engenho, pediam a soltura dos presos, que faziam grande falta ao engenho. O artigo situa o fato em 1717 e também no início de 1718. A autora descreve a safra como trabalho do amanhecer até a noite, com a vigilância do feitor, e a casa da moenda como uma das maiores da Bahia, com cerca de 42 metros; lembra que na moenda a água o trabalho era perigoso, e que um dos cativos, Simão Ganguela, teve a mão direita levada. A documentação, escreve, não aponta o motivo do crime nem registra o desfecho do processo. (Souza 2009)

Como ler Antonil: guia moral e fonte sobre o trabalho

Tomich (2023) lê Cultura e Opulência do Brasil como um guia moral e ético para administrar o engenho, e não como manual técnico nem análise econômica: o jesuíta o trata como uma casa hierárquica (oikos, em categorias aristotélicas), ligada à autoridade do senhor, e não menciona custos, lucro ou produtividade. Para o autor, por isso mesmo, há uma contradição entre esse quadro interpretativo e a rica descrição empírica, que expõe o engenho como parte da escravização moderna ligada ao mercado mundial. Souza (2009) lembra que Antonil e o também jesuíta Jorge Benci criticaram o tratamento dado às pessoas escravizadas, mas que a regra parecia ser o descumprimento, mesmo de medidas régias como a carta de 1701 que mandava dar o sábado livre. O texto de Antonil é de um clérigo europeu que fala dos senhores; as ações dos cativos de Sergipe do Conde, por sua vez, são conhecidas por documentos produzidos pela justiça, e a voz das pessoas escravizadas aparece, aí, só pelos nomes e ofícios. (Tomich 2023; Souza 2009)

Fontes

  1. Tomich, D. (2023). "O Engenho de açúcar: André João Antonil and the Anatomy of the Seventeenth-Century Brazilian Slave Plantation". Culture & History Digital Journal 12(2): e017. DOI 10.3989/chdj.2023.017. Acessar
  2. Antonil, A. J. (1711). Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Lisboa: Officina Real Deslandesiana. Reimpressão: Rio de Janeiro: Typ. Imp. e Const. de J. Villeneuve, 1837. Texto digitalizado no Internet Archive (b29329358), lido nos capítulos sobre o engenho real e sobre o senhor e os escravos.
  3. Souza, D. S. de (2009). "Na teia da escravidão: trabalho e resistência no Recôncavo baiano na primeira metade do século XVIII". Revista de História (UFBA) 1(1): 53–73.

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