Formação Santana, no Araripe: fósseis de um lago e de um mar raso
c. 113 milhões de anos atrás (Aptiano tardio; Melo et al. 2020) · Terras baixas da América do Sul
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
Abrir no mapa e na linha do tempo
A Bacia do Araripe, entre o Ceará e Pernambuco, tem camadas das formações Crato e Romualdo, do Cretáceo, com fósseis excepcionais preservados. Os estudos da Romualdo apontam o Aptiano tardio, cerca de 113 milhões de anos atrás, com idade em debate.
Duas unidades de fósseis excepcionais
A Bacia do Araripe é conhecida no mundo todo por duas Konservat-Lagerstätten (depósitos de preservação excepcional) do Cretáceo Inferior, as formações Crato e Romualdo, do Grupo Santana. Na Romualdo, além de peixes, há ouriços-do-mar, moluscos, foraminíferos e dinoflagelados marinhos, evidência de que o mar entrou numa bacia de rifte (abertura da crosta) abortada. A sequência do Grupo Santana vai das formações Barbalha, Crato, Ipubi e Romualdo, e é recoberta por unidades fluviais. (Melo et al. 2020)
A abertura do Atlântico Sul ao fundo
Bacias do leste da América do Sul e do oeste da África registram a abertura do Atlântico Sul como uma grande zona de rifte do Jurássico ao Cretáceo, durante a separação do oeste de Gondwana. A Bacia do Araripe é um aulacógeno (braço de rifte sem abertura de oceano) no Nordeste. Melo e colegas, da Universidade Federal de Pernambuco, mostram um mapa do Aptiano tardio, cerca de 113 milhões de anos atrás, da separação entre América do Sul e África. Na carta ICS v2026/06, o Aptiano vai de cerca de 121 a 113 milhões de anos. (Melo et al. 2020; International Commission on Stratigraphy 2026)
Aptiano ou Albiano?
Não existem fósseis-guia confiáveis para a Formação Romualdo, e por isso sua idade é debatida: ela está no andar local Alagoas, que cobre Aptiano e Albiano. Melo et al. (2020) analisam foraminíferos planctônicos e ostracodes (pequenos crustáceos) da seção Sítio Sobradinho. Encontram espécies do Aptiano tardio, como Microhedbergella miniglobularis, e não encontram as espécies típicas do Albiano, o que sustenta a idade aptiana. A conclusão vale para essa seção, não para toda a formação. (Melo et al. 2020)
Fósseis brasileiros fora do Brasil
Cisneros e colegas, da Universidade Federal do Piauí e de instituições do Brasil, da Alemanha e do Reino Unido, entre outras, mostram que muitos estudos sobre fósseis do Araripe usam exemplares levados ilegalmente para coleções no exterior, sobretudo na Alemanha e no Japão. A lei brasileira proíbe o comércio de fósseis, exige licença para exportação temporária e proíbe a exportação definitiva de holótipos. Muitos dos artigos analisados não declaravam trabalho de campo nem licenças, e não incluíam especialistas locais entre os autores. (Cisneros et al. 2022)
Fontes
- Melo, R. M.; Guzmán, J.; Almeida-Lima, D.; Piovesan, E. K. et al. (2020). "New marine data and age accuracy of the Romualdo Formation, Araripe Basin, Brazil". Scientific Reports 10: 15779. DOI 10.1038/s41598-020-72789-8. Acessar
- Cisneros, J. C.; Raja, N. B.; Ghilardi, A. M.; Dunne, E. M. et al. (2022). "Digging deeper into colonial palaeontological practices in modern day Mexico and Brazil". Royal Society Open Science 9(3): 210898. DOI 10.1098/rsos.210898. Acessar
- International Commission on Stratigraphy (2026). International Chronostratigraphic Chart, v2026/06. https://stratigraphy.org/chart (consultado em 07/10/2026). Acessar
Na mesma região
- Abertura do Atlântico Sul: a separação entre a América do Sul e a África de c. 140 milhões de anos atrás (início da extensão no modelo) a c. 103 milhões (separação final no Atlântico equatorial); Heine et al. 2013
- Lapa do Santo Período 1 de ocupação de c. 12,7 a 7,9 mil anos cal AP; sepultamentos desde c. 10,6–10,3 mil anos cal AP, em três padrões funerários (10,6–9,7; 9,6–9,4; 8,6–8,2 mil anos cal AP) (Strauss et al. 2015); Araujo et al. 2018 dão 12.460–8.700 cal AP à primeira ocupação, seguida de hiato de c. 3.600 anos
- Caverna da Pedra Pintada c. 12,4–11,4 mil anos atrás (datas calibradas; Pereira e Moraes 2019)
- Mandioca e abóbora nas ilhas de floresta dos Llanos de Moxos (Bolívia): cultivo na Amazônia há mais de 10.000 anos c. 10.350 anos cal. AP (mandioca) e c. 10.250 anos cal. AP (abóbora), na Isla Manechi (Lombardo et al. 2020); as ilhas de floresta antrópicas começam c. 10.850 cal. AP
- Lagoa Santa (Minas Gerais): a interrupção de milênios na ocupação dos abrigos e a "persistência cultural extrema" (c. 8700–5100 cal AP) c. 8700 a 5100 cal AP (c. 6750–3150 a.C.), intervalo entre as duas ocupações de Lapa do Santo, segundo Araujo e outros (2018); a leitura regional de Araujo e outros (2025) dá c. 8200 a 5300 cal AP
- Lapa do Santo (Lagoa Santa, Minas Gerais): do corpo manipulado ao poço de ossos, o terceiro padrão funerário (c. 8600–8200 cal AP) c. 8600–8200 cal AP (c. 6650–6250 a.C.), terceiro padrão funerário (LSMP-3) do abrigo, segundo Strauss e outros (2015); os padrões anteriores vão de c. 10,6 a 9,4 mil anos cal AP