Atlas da História

Lapa do Santo

Período 1 de ocupação de c. 12,7 a 7,9 mil anos cal AP; sepultamentos desde c. 10,6–10,3 mil anos cal AP, em três padrões funerários (10,6–9,7; 9,6–9,4; 8,6–8,2 mil anos cal AP) (Strauss et al. 2015); Araujo et al. 2018 dão 12.460–8.700 cal AP à primeira ocupação, seguida de hiato de c. 3.600 anos · Terras baixas da América do Sul

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Abrigo no carste de Lagoa Santa, em Matozinhos (MG), ocupado desde cerca de 12,7 a 11,7 mil anos atrás. Um sepultamento de c. 9,4 a 9,1 mil anos é de um homem que Strauss et al. (2015) interpretam como morador local, decapitado em ritual, com as mãos amputadas sobre o rosto; os autores o apresentam como a decapitação mais antiga das Américas; outro, de c. 9,6 mil anos, mostra manipulação intencional do corpo.

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Um abrigo de calcário e seus moradores

Segundo Strauss et al. (2015), o abrigo de Lapa do Santo, em Matozinhos (MG), tem cerca de 1.300 m² de área abrigada sob um maciço calcário de 30 metros e se insere num carste cujos primeiros ossos humanos antigos foram achados pelo naturalista dinamarquês Peter Lund entre 1835 e 1844. Mais de 170 anos de escavações na região deixaram grande coleção de esqueletos do Holoceno inicial, mas sem documentação de contexto. As escavações em Lapa do Santo, entre 2001 e 2009, buscaram suprir essa lacuna, e uma nova área foi aberta em 2011 em parceria entre o Instituto Max Planck e a Universidade de São Paulo. A presença humana começa c. 12,7 a 11,7 mil anos atrás. Lítico, fauna e isótopos indicam caçadores-coletores de pouca mobilidade, que coletavam plantas e caçavam mamíferos de pequeno e médio porte; a frequência de cáries, comparável à de populações agrícolas, sugere dieta assentada em carboidratos de base. (Strauss et al. 2015)

Uma sequência de modos de sepultar

Em Lapa do Santo foram exumados 26 sepultamentos do Holoceno inicial entre 2001 e 2009. Strauss et al. (2015) descrevem três padrões: o primeiro, de c. 10,6 a 9,7 mil anos atrás, com esqueletos fletidos em covas rasas cobertas por blocos de calcário; o segundo, de c. 9,6 a 9,4 mil anos atrás, centrado na redução do corpo por mutilação, descarnamento, retirada de dentes e exposição ao fogo, seguida de sepultamento secundário; o terceiro, de c. 8,6 a 8,2 mil anos atrás, com ossos desarticulados de um só indivíduo em covas pequenas. Não há arquitetura monumental nem bens funerários, e o corpo parece ter sido o principal suporte simbólico do rito. (Strauss et al. 2015)

O sepultamento 26: cabeça e mãos

Escavado em julho de 2007, o sepultamento 26 reunia, numa cova circular de c. 40 cm, o crânio com a mandíbula e as seis primeiras vértebras cervicais, mais os ossos das duas mãos, postas sobre o rosto, uma voltada para o queixo e outra para a testa, sob cinco blocos de calcário. Estimou-se um homem jovem. Marcas de corte na mandíbula e na sexta vértebra indicam seccionamento do pescoço entre a sexta e a sétima, além de remoção de tecidos moles do crânio. Strauss et al. (2015) concluem tratar-se de decapitação e a datam, em osso do esfenoide, entre 9,1 e 9,4 mil anos atrás (intervalo de 95,4%). Uma segunda datação em outro laboratório deu intervalo próximo, mas os autores a consideraram menos segura. (Strauss et al. 2015)

Inimigo ou membro do grupo?

A leitura de Strauss et al. (2015) é que o decapitado era local e que o ato fez parte de um rito funerário, não de um troféu de guerra. Os autores se apoiam na razão de estrôncio do esmalte do dente, dentro da faixa da população do abrigo, e na morfologia craniana, que não indicou estrangeiro, e lembram que os esqueletos da região mostram pouco conflito entre grupos. A disposição das mãos sobre o rosto sugeriria uma exibição pública que reforçava a coesão social. Eles reconhecem limites: é um único caso, não há dados moleculares e a comparação craniométrica tem amostra pequena de Lagoa Santa. Segundo o artigo, a decapitação mais antiga antes conhecida na América do Sul vinha dos Andes, de c. 3 mil anos atrás. (Strauss et al. 2015)

O sepultamento 21 e o corpo manipulado

Strauss e Oliveira (2018) descrevem o sepultamento 21, um esqueleto adulto quase completo e articulado sem as diáfises das tíbias e fíbulas. Marcas de corte e de percussão e fraturas em osso fresco indicam retirada intencional logo após a morte, com lascas de pedra, e datam o achado de c. 9,6 a 9,5 mil anos atrás. Os autores propõem que os ossos retirados seriam depois enterrados em sepultamentos secundários e que a cova registra uma etapa inicial de rito em várias fases. Também sugerem que o rito foi interrompido por razão desconhecida e, de forma especulativa, que o grupo teria deixado a região, pois deixou de enterrar seus mortos no abrigo por volta de 8,5 mil anos atrás. Para eles, tais manipulações não eram troféus, mas parte de um conjunto de prescrições funerárias. (Strauss e Oliveira 2018)

Fontes

  1. Strauss, A.; Oliveira, R. E.; Bernardo, D. V.; Salazar-García, D. C. et al. (2015). "The Oldest Case of Decapitation in the New World (Lapa do Santo, East-Central Brazil)". PLOS ONE 10(9): e0137456. DOI 10.1371/journal.pone.0137456. Acessar
  2. Strauss, A.; Oliveira, R. (2018). "Early Holocene mortuary practices in Lagoa Santa region: a 9600-9495 years cal BP case of perimortem body manipulation from Lapa do Santo (East-Central Brazil)". CLIO Arqueológica 33(2): 138–183. DOI 10.20891/clio.v33n2p138-183. Acessar

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