Caverna da Pedra Pintada
c. 12,4–11,4 mil anos atrás (datas calibradas; Pereira e Moraes 2019) · Terras baixas da América do Sul
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Caverna com pinturas rupestres em Monte Alegre, no oeste do Pará, ocupada desde o fim do Pleistoceno. Uma camada com pontas de projétil foi datada de 12,4 a 11,4 mil anos atrás (datas calibradas). As escavações mostraram que a Amazônia foi povoada cedo, o que pesou no debate sobre o povoamento das Américas.
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Mais de 140 figuras nas paredes da caverna
As pinturas da Pedra Pintada, nas serras de Monte Alegre (Ererê e Paituna), ocupam a entrada e as paredes internas e externas da caverna, de 0,70 m a 4,60 m de altura. Hartt registrou em 1871 que elas eram conhecidas havia mais de dois séculos; marcas posteriores, como o ano de 1764 e a sigla I.H.S., são atribuídas a jesuítas. O inventário feito por Edithe Pereira entre 1992 e 2012 contou pelo menos 143 motivos. Predominam figuras geométricas em vermelho e amarelo, como círculos, volutas, cruzes concêntricas e composições de simetria bilateral. Há também mãos em positivo, de 10 a 15 cm, animais como peixes, serpentes, rãs e peixe-boi, e três figuras humanas completas com o tronco preenchido por formas geométricas. Comparando esses motivos com a cerâmica da região, Pereira (2010) associou as figuras humanas a grupos ceramistas tardios (Pereira e Moraes 2019). (Pereira e Moraes 2019)
Datar a ocupação não é datar as pinturas
Roosevelt et al. (1996) obtiveram 56 datas por radiocarbono em restos vegetais carbonizados e 13 por luminescência e situaram a ocupação inicial no fim do Pleistoceno, na mesma época dos paleoíndios da América do Norte, mas com uma cultura distinta, de pontas bifaciais triangulares. Frutos de árvores, madeira e fauna carbonizados indicaram uma economia de amplo espectro, baseada na coleta de recursos da floresta tropical úmida e dos rios. Como os pigmentos dos níveis mais antigos eram quimicamente idênticos aos das paredes, a equipe atribuiu às pinturas cerca de 11.200 anos. Pereira e Moraes (2019) questionam esse passo: a ocupação se estende de c. 11.200 a 430 anos AP, e os motivos mostram variações de estilo que indicam momentos diferentes, como já sugerira Consens (1989) a partir das manchas de sílica sobre as figuras. Sem datação direta, a idade das pinturas segue em aberto. (Roosevelt et al. 1996; Pereira e Moraes 2019)
O que as camadas escavadas em 2014 mostram
A escavação de 2014 identificou dez camadas, de c. 12.425 a 605 anos calibrados AP. Na camada V (c. 12.160 a 11.390 AP) apareceram duas lascas com tinta vermelha, provavelmente vestígios indiretos da preparação de tinta. A camada VI (c. 9.005 a 8.770 AP) trouxe três corantes, e a VII (c. 3.345 a 3.160 AP) concentrou a maior quantidade de corantes e de cerâmica, o que leva os autores a supor que a atividade de pintura se intensificou nesse período e que parte das figuras se liga a grupos ceramistas. Na camada VIII (c. 625 a 605 AP), uma grande fogueira deixou fuligem sobre as pinturas: as figuras cobertas por ela são anteriores. Hematita e suportes com pigmento preto, talvez de manganês, completam o quadro. As figuras geométricas mais escuras podem ter precedido as demais, mas isso é hipótese, e reconhecer quais motivos vêm do Pleistoceno continua um desafio (Pereira e Moraes 2019). (Pereira e Moraes 2019)
Pedra lascada de Monte Alegre e de Carajás
Darte-Talim e Rodet (2023) voltam ao material da Pedra Pintada pelo estudo tecnológico da pedra lascada. O artigo compara as indústrias líticas da caverna com as das grutas do Gavião e do Pequiá, na serra dos Carajás, também no Pará, e com outras ocupações antigas. Segundo o resumo, as pesquisas na Amazônia brasileira se intensificaram a partir dos anos 1980 e revelaram ocupações entre c. 12.800 e 8.000 anos AP, que reforçam as críticas ao modelo segundo o qual Clovis teria sido a primeira presença humana nas Américas. Roosevelt et al. (1996) já destacavam que a evidência da Pedra Pintada mudava o entendimento das migrações para o continente. (Darte-Talim e Rodet 2023; Roosevelt et al. 1996)
Fontes
- Roosevelt, A. C.; Lima da Costa, M.; Lopes Machado, C.; Michab, M. et al. (1996). "Paleoindian Cave Dwellers in the Amazon: The Peopling of the Americas". Science 272: 373–384. DOI 10.1126/science.272.5260.373. Acessar
- Neves, E. G. (2022). Sob os tempos do equinócio: oito mil anos de história na Amazônia Central. Ubu / Edusp. ISBN 9788571260702.
- Pereira, E. da S.; Moraes, C. de P. (2019). "A cronologia das pinturas rupestres da Caverna da Pedra Pintada, Monte Alegre, Pará: revisão histórica e novos dados". Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas 14: 327–342. DOI 10.1590/1981.81222019000200005. Acessar
- Darte-Talim, D.; Rodet, M. J. (2023). "(Re)visitando a Amazônia: Serra dos Carajás e Monte Alegre, estado do Pará". Cadernos do LEPAARQ 20(39): 106–128. DOI 10.15210/lepaarq.v20i39.5175. Acessar
Na mesma região
- Lapa do Santo Período 1 de ocupação de c. 12,7 a 7,9 mil anos cal AP; sepultamentos desde c. 10,6–10,3 mil anos cal AP, em três padrões funerários (10,6–9,7; 9,6–9,4; 8,6–8,2 mil anos cal AP) (Strauss et al. 2015); Araujo et al. 2018 dão 12.460–8.700 cal AP à primeira ocupação, seguida de hiato de c. 3.600 anos
- Mandioca e abóbora nas ilhas de floresta dos Llanos de Moxos (Bolívia): cultivo na Amazônia há mais de 10.000 anos c. 10.350 anos cal. AP (mandioca) e c. 10.250 anos cal. AP (abóbora), na Isla Manechi (Lombardo et al. 2020); as ilhas de floresta antrópicas começam c. 10.850 cal. AP
- Lagoa Santa (Minas Gerais): a interrupção de milênios na ocupação dos abrigos e a "persistência cultural extrema" (c. 8700–5100 cal AP) c. 8700 a 5100 cal AP (c. 6750–3150 a.C.), intervalo entre as duas ocupações de Lapa do Santo, segundo Araujo e outros (2018); a leitura regional de Araujo e outros (2025) dá c. 8200 a 5300 cal AP
- Lapa do Santo (Lagoa Santa, Minas Gerais): do corpo manipulado ao poço de ossos, o terceiro padrão funerário (c. 8600–8200 cal AP) c. 8600–8200 cal AP (c. 6650–6250 a.C.), terceiro padrão funerário (LSMP-3) do abrigo, segundo Strauss e outros (2015); os padrões anteriores vão de c. 10,6 a 9,4 mil anos cal AP
- Sambaqui Monte Castelo: evidência de domesticação do arroz ocupação desde c. 6 mil anos AP e ao menos até a fase Bacabal, que começa c. 4.300 AP (Villagran et al. 2022); o fim real não tem data confiável
- Santa Ana–La Florida: o uso mais antigo conhecido do cacau c. 3350 a.C., c. 5.300 anos atrás (Zarrillo et al. 2018)