Atlas da História

Lapa do Santo (Lagoa Santa, Minas Gerais): do corpo manipulado ao poço de ossos, o terceiro padrão funerário (c. 8600–8200 cal AP)

c. 8600–8200 cal AP (c. 6650–6250 a.C.), terceiro padrão funerário (LSMP-3) do abrigo, segundo Strauss e outros (2015); os padrões anteriores vão de c. 10,6 a 9,4 mil anos cal AP · Terras baixas da América do Sul

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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O abrigo de Lapa do Santo, no carste de Lagoa Santa, foi usado como lugar de sepultamento por caçadores-coletores do Arcaico inicial. Strauss e colegas (2015) distinguem três padrões funerários em 26 sepultamentos: corpos fletidos sob blocos de calcário, depois corpos reduzidos por mutilação, descarnamento e fogo, e enfim, entre c. 8600 e 8200 anos cal AP, covas com ossos desarticulados de um só indivíduo, sem sinais de manipulação do corpo. Eles propõem que, sem arquitetura monumental nem objetos de riqueza, essas pessoas usavam o corpo humano para expressar princípios cosmológicos sobre a morte.

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O abrigo e os três períodos de ocupação

Segundo Strauss e colegas, Lapa do Santo é um abrigo rochoso do carste de Lagoa Santa, no centro-leste do Brasil, com presença humana datada de 12,7 a 11,7 mil anos cal AP. A cronologia, baseada em datas de radiocarbono e de luminescência, define três períodos de ocupação: o primeiro vai de 12,7 a 7,9 mil anos cal AP, o segundo de 5,4 a 3,9 e o terceiro de 2,1 até hoje. Para os autores, a tecnologia lítica, a fauna e os isótopos indicam caçadores-coletores típicos do Arcaico inicial, com pouca mobilidade, que se apoiavam em alimentos vegetais ricos em carboidratos e na caça de mamíferos pequenos e médios. Os depósitos são sobretudo de origem humana, com queimas repetidas no mesmo lugar, e o abrigo tem a arte rupestre mais antiga da América do Sul, gravada na rocha sob quatro metros de sedimentos. (Strauss et al. 2015)

Os três padrões funerários

Entre 2001 e 2009 foram exumados 26 sepultamentos do primeiro período. Segundo os autores, o uso do abrigo como cemitério começou entre 10,6 e 10,3 mil anos cal AP. O primeiro padrão (LSMP-1, 10,6 a 9,7 mil anos) reúne esqueletos articulados e fletidos, em covas rasas cobertas por blocos de calcário. O segundo (LSMP-2, 9,6 a 9,4 mil anos) dá ênfase à redução do corpo por mutilação, descarnamento, retirada de dentes e exposição ao fogo, seguida de sepultamento secundário dos restos segundo regras específicas. No terceiro (LSMP-3, 8,6 a 8,2 mil anos) as covas passam a receber ossos desarticulados de um único indivíduo, sem sinais de manipulação do corpo, e em alguns casos os ossos longos foram muito fragmentados para caber na cova pequena. (Strauss et al. 2015)

O sepultamento 26 como exemplo do segundo padrão

O sepultamento 26, escavado em 2007, vem do segundo padrão e foi datado diretamente em 9127–9438 anos cal AP, o que, segundo os autores, é o caso de decapitação mais antigo do Novo Mundo. Era formado por crânio e mandíbula articulados e as seis primeiras vértebras cervicais; a mandíbula e a sexta vértebra têm marcas de corte em V. As duas mãos, amputadas, foram postas sobre o rosto, a direita sobre o lado esquerdo e a esquerda sobre o direito. A cova circular tinha cerca de 40 cm de diâmetro. Os autores comparam o caso com a decapitação mais antiga conhecida nos Andes, de c. 3000 anos AP em Asia 1, no Peru, e com a possível decapitação de Windover, na Flórida, citada por eles com datas de 8120 a 6990 anos cal AP. (Strauss et al. 2015)

Fontes

  1. Strauss, André; Oliveira, Rodrigo Elias; Bernardo, Danilo V.; Salazar-García, Domingo C.; Talamo, Sahra; Jaouen, Klervia; Hubbe, Mark; Black, Sue; Wilkinson, Caroline; Richards, Michael Phillip; Araujo, Astolfo G. M.; Kipnis, Renato; Neves, Walter Alves (2015). "The Oldest Case of Decapitation in the New World (Lapa do Santo, East-Central Brazil)". PLoS ONE 10(9): e0137456, 23 set. 2015. DOI 10.1371/journal.pone.0137456. Texto bruto lido (PDF do manuscrito) em https://researchonline.ljmu.ac.uk/id/eprint/2173/1/Strauss%20et%20al%202015%20-%20The%20oldest%20case%20of%20decapitation%20in%20the%20New%20World%20-%20MAIN%20TEXT.pdf, em 29/10/2026. Acessar

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