Lagoa Santa (Minas Gerais): a interrupção de milênios na ocupação dos abrigos e a "persistência cultural extrema" (c. 8700–5100 cal AP)
c. 8700 a 5100 cal AP (c. 6750–3150 a.C.), intervalo entre as duas ocupações de Lapa do Santo, segundo Araujo e outros (2018); a leitura regional de Araujo e outros (2025) dá c. 8200 a 5300 cal AP · Terras baixas da América do Sul
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
Abrir no mapa e na linha do tempo
No carste de Lagoa Santa, em Minas Gerais, os abrigos de Lapa do Santo foram ocupados do fim do Pleistoceno até c. 8700 anos cal AP e depois voltaram a ser usados, c. 5100 anos cal AP, com os mesmos instrumentos e hábitos. Araujo e colegas (2018) interpretam o intervalo de 3600 anos como a mudança do foco de ocupação para outro lugar, sem ruptura cultural, e falam em "persistência cultural extrema" de uma mesma linha de transmissão. Em 2025, os mesmos autores ligam o abandono da região às mudanças climáticas rápidas, entre elas o evento de 8,2 mil anos atrás.
Leia sobre isto
Duas ocupações separadas por 3600 anos
Segundo Araujo e colegas (2018), o abrigo de Lapa do Santo teve duas ocupações principais: uma do Holoceno inicial, de 12.460 a 8700 anos cal AP, e outra do Holoceno médio, de 5100 a 4200 anos cal AP. Nas unidades M, o fundo da escavação deu 10.060 ± 100 anos cal AP e uma coluna de cerca de 1 m de cinzas e outros materiais de origem humana chega a 9140 ± 90; depois a cronologia salta para 4860 ± 150 anos cal AP, sem mudança de cor ou de aspecto do sedimento, o que indica um hiato de 4280 anos naquele ponto. Para o conjunto das datas, o hiato é de 3600 anos. Os autores veem na ausência de sedimentação, sem erosão nem camada estéril, um indício forte de que o sedimento do abrigo é de origem humana e de que a pausa significa ausência de atividade. (Araujo et al. 2018)
A mesma cultura material antes e depois
Os autores compararam a abundância relativa de matérias-primas, de artefatos de pedra lascada e de osso (espátulas, perfuradores, anzóis) e da fauna do Holoceno inicial e do médio, e a diferença não foi significativa. Dizem que esse conjunto de indústrias líticas e ósseas e de práticas de subsistência é formal e tecnicamente distinto de tradições da mesma época, como as chamadas Umbu e Itaparica. Eles notam apenas mudanças pequenas dentro do Holoceno inicial: mais de 90% das peças de sílex ficam entre 12.500 e 10.200 anos cal AP, e o costume de sepultar nos abrigos aparece só por volta de 9900 anos cal AP, 2500 anos depois da primeira ocupação. Em seguida, no Holoceno médio, a cultura material não mudou de modo relevante. (Araujo et al. 2018)
Um intervalo que a região inteira mostra
No levantamento de 2025, com mais de mil datas para o Brasil Central, a curva de soma das probabilidades de Lagoa Santa mostra queda por volta de 10,5, de 9,5 e de 8,2 mil anos atrás e outra entre 7,5 e 6,3 mil anos. Os autores resumem que a área de foco foi ocupada de 12,5 a 8,2 mil anos cal AP, abandonada por 3 mil anos e reocupada pelo mesmo grupo cultural entre 5,3 e 4,0 mil anos cal AP, e dizem que não se deve concluir que ninguém visitou a região nesse período. Compararam o caso, como paralelo etnográfico, ao território dos Bororo, que se estendia da Bolívia a Goiás e ao Mato Grosso do Sul. Eles citam também Raczka e colegas (2013) para uma seca de lago de 7,8 a 7,5 mil anos em Lagoa Santa. (Araujo et al. 2025)
Fontes
- Araujo, Astolfo G. M.; Pugliese Jr., Francisco A.; Santos, Rafael O. dos; Okumura, Mercedes (2018). "Extreme cultural persistence in eastern-central Brazil: the case of Lagoa Santa Paleaeoindians" [sic]. Anais da Academia Brasileira de Ciências 90(2 suppl 1), ago. 2018. DOI 10.1590/0001-3765201720170109. Texto bruto lido em https://doi.org/10.1590/0001-3765201720170109 (SciELO Brasil), em 29/10/2026. Acessar
- Araujo, Astolfo G. M.; Correa, Letícia Cristina; Perez, Glauco Constantino; Di Gregorio, Enrico Dalmas; Okumura, Mercedes (2025). "Human-environment interaction during the Holocene in Eastern South America: Rapid climate changes and population dynamics". PLOS ONE 20(2): e0315747, 3 fev. 2025. DOI 10.1371/journal.pone.0315747. Texto bruto lido em https://www.ebi.ac.uk/europepmc/webservices/rest/PMC11790176/fullTextXML (Europe PMC), em 29/10/2026. Acessar
Na mesma região
- Lapa do Santo (Lagoa Santa, Minas Gerais): do corpo manipulado ao poço de ossos, o terceiro padrão funerário (c. 8600–8200 cal AP) c. 8600–8200 cal AP (c. 6650–6250 a.C.), terceiro padrão funerário (LSMP-3) do abrigo, segundo Strauss e outros (2015); os padrões anteriores vão de c. 10,6 a 9,4 mil anos cal AP
- Mandioca e abóbora nas ilhas de floresta dos Llanos de Moxos (Bolívia): cultivo na Amazônia há mais de 10.000 anos c. 10.350 anos cal. AP (mandioca) e c. 10.250 anos cal. AP (abóbora), na Isla Manechi (Lombardo et al. 2020); as ilhas de floresta antrópicas começam c. 10.850 cal. AP
- Sambaqui Monte Castelo: evidência de domesticação do arroz ocupação desde c. 6 mil anos AP e ao menos até a fase Bacabal, que começa c. 4.300 AP (Villagran et al. 2022); o fim real não tem data confiável
- Santa Ana–La Florida: o uso mais antigo conhecido do cacau c. 3350 a.C., c. 5.300 anos atrás (Zarrillo et al. 2018)
- Caverna da Pedra Pintada c. 12,4–11,4 mil anos atrás (datas calibradas; Pereira e Moraes 2019)
- Lapa do Santo Período 1 de ocupação de c. 12,7 a 7,9 mil anos cal AP; sepultamentos desde c. 10,6–10,3 mil anos cal AP, em três padrões funerários (10,6–9,7; 9,6–9,4; 8,6–8,2 mil anos cal AP) (Strauss et al. 2015); Araujo et al. 2018 dão 12.460–8.700 cal AP à primeira ocupação, seguida de hiato de c. 3.600 anos