Fundação de Roma (tradicionalmente 753 a.C.): o relato de Lívio, as datas de Dionísio de Halicarnasso e a tese de Carandini
tradicionalmente 753 a.C. (21 de abril, no P585 do Wikidata); Dionísio de Halicarnasso a põe no 1º ano da 7ª olimpíada e outros autores antigos dão datas diferentes · Europa Mediterrânea
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Segundo Lívio, Rômulo e Remo, netos do rei albano Numitor, quiseram fundar uma cidade onde tinham sido criados; uma disputa de augúrios terminou com a morte de Remo, e Rômulo, com o poder sozinho, fortificou o Palatino. A data tradicional, 753 a.C., não está em Lívio nem em Dionísio de Halicarnasso, que dá o 1º ano da 7ª olimpíada e cita outros autores com datas e fundadores diferentes. O arqueólogo Andrea Carandini, que escavou o Palatino, sustenta que a cidade foi fundada por volta de 750 a.C., tese que uma resenha da Bryn Mawr Classical Review chama de controversa.
O relato de Lívio sobre Rômulo e Remo
Lívio conta que Rômulo e Remo, depois de matarem o rei Amúlio com ajuda de pastores e de entregarem a coroa de Alba a seu avô Numitor, resolveram fundar uma cidade no lugar onde tinham sido expostos e criados. A população de albanos e latinos era grande, e juntando os pastores ficaria Alba pequena diante da nova cidade. A disputa por quem daria nome e governo à cidade foi levada aos deuses por augúrio; Rômulo tomou o Palatino e Remo o Aventino. Morto Remo, a cidade recebeu o nome do fundador, que primeiro fortificou o Palatino e adotou do culto estrangeiro apenas o de Hércules, pela instituição de Evandro. (Lívio. Desde a fundação da cidade (Ab Urbe Condita))
As datas que Dionísio discute
Dionísio de Halicarnasso afirma, no livro 1, que a fundação ocorreu no primeiro ano da 7ª olimpíada, 432 anos depois da queda de Troia, e que a data era muito debatida. Cita Tímeu da Sicília, que a colocava 38 anos antes da 1ª olimpíada, junto com a fundação de Cartago; Lúcio Cíncio, perto do 4º ano da 12ª olimpíada; Quinto Fábio, no 1º ano da 8ª; e Políbio, no 2º ano da 7ª. Cato, diz ele, conta 432 anos depois de Troia. O próprio Dionísio soma os 244 anos dos reis romanos desde a expulsão e as 61 olimpíadas correspondentes, e, para fixar os anos dos reis e da república, recorre à tábua dos pontífices e às memórias dos censores. (Dionísio de Halicarnasso. Antiguidades Romanas (Ῥωμαϊκὴ Ἀρχαιολογία))
A arqueologia segundo Carandini
A resenha de Lefkowitz resume seis descobertas de Carandini. A primeira é o muro “romúleo” no canto noroeste do Palatino, datado do segundo quarto do séc. VIII a.C. com a ajuda de um depósito de fundação, o enxoval da tumba de uma menina sob o limiar da Porta Mugonia. As outras incluem a primeira domus regia no santuário de Vesta, no Fórum, também com tumba de fundação e de fins do séc. VIII a.C., uma segunda domus regia de fins do séc. VII ou início do VI e a cabana das vestais, do segundo quarto do séc. VIII a.C. Carandini conclui que não há só uma urbs no Palatino, mas também o centro sagrado e político do regnum. Lefkowitz apresenta tudo isso como tese do autor. (Lefkowitz)
Fontes
- Lívio. Desde a fundação da cidade (Ab Urbe Condita), livro 1, prefácio e caps. 3 a 8 (os reis de Alba, Numitor e Amúlio, Rômulo e Remo, a fundação do Palatino e as primeiras instituições). Tradução inglesa de Benjamin Oliver Foster (Cambridge, MA: Harvard University Press, Loeb Classical Library), pela edição digital do Perseus Project (Universidade Tufts), repositório PerseusDL no GitHub. As glosas “B.C. 753” no texto são dos editores. https://raw.githubusercontent.com/PerseusDL/canonical-latinLit/master/data/phi0914/phi001/phi0914.phi001.perseus-eng1.xml (baixado e lido em 29/10/2026). Acessar
- Dionísio de Halicarnasso. Antiguidades Romanas (Ῥωμαϊκὴ Ἀρχαιολογία), livro 1, caps. 70 a 74 (a data e os fundadores de Roma segundo autores gregos e romanos). Texto grego: Dionysii Halicarnasei Antiquitatum Romanarum, ed. Karl Jacoby, Leipzig: Teubner, 1885–1905, pela edição digital do Perseus Project (Universidade Tufts), repositório PerseusDL no GitHub. Lido em grego, em texto bruto; as paráfrases em português são do atlas. https://raw.githubusercontent.com/PerseusDL/canonical-greekLit/master/data/tlg0081/tlg001/tlg0081.tlg001.perseus-grc2.xml (baixado e lido em 29/10/2026). Acessar
- Lefkowitz, Jeremy B. (Swarthmore College). Resenha de: Carandini, Andrea. Rome: Day One (primeira edição italiana, 2007), tradução de Stephen Sartarelli, Princeton; Oxford: Princeton University Press, 2011, ISBN 9780691139227. Bryn Mawr Classical Review 2012.03.39. https://bmcr.brynmawr.edu/?p=38841 (baixado e lido em 29/10/2026). Acessar
Na mesma região
- Homero: o poeta a quem a tradição grega atribui a Ilíada e a Odisseia, o "velho cego de Quios" e o que os textos lidos dizem e não dizem sobre ele sem data segura (Heródoto: cerca de 400 anos antes dele); o atlas ancora no séc. VIII a.C. (c. 750 a.C., com folga de um século) porque as inscrições de Pitecusa e do Dípilon, de c. 740–720 a.C., já usam a dicção épica
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- O alfabeto grego como adaptação das letras fenícias (séc. VIII a.C.): a explicação de Heródoto e as inscrições mais antigas em Atenas e Pitecusa c. 750 a.C. (P571 do Wikidata, com outros valores de 900 e 1000 a.C.). As inscrições alfabéticas gregas mais antigas lidas são da segunda metade do séc. VIII a.C. (taça de Nestor) e do terceiro quarto do séc. VIII a.C. (oinochoe do Dípilon)
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