O alfabeto grego como adaptação das letras fenícias (séc. VIII a.C.): a explicação de Heródoto e as inscrições mais antigas em Atenas e Pitecusa
c. 750 a.C. (P571 do Wikidata, com outros valores de 900 e 1000 a.C.). As inscrições alfabéticas gregas mais antigas lidas são da segunda metade do séc. VIII a.C. (taça de Nestor) e do terceiro quarto do séc. VIII a.C. (oinochoe do Dípilon) · Europa Mediterrânea
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Segundo Heródoto, os fenícios que vieram com Cadmo trouxeram o alfabeto para a Grécia e os jônios, que viviam por perto, aprenderam as letras e as usaram com pequenas mudanças, chamando-as “fenícias”; ele diz ter visto letras cadmeias gravadas em trípodes no templo de Apolo Ismênio, em Tebas. As inscrições alfabéticas gregas mais antigas lidas, a oinochoe do Dípilon, em Atenas, e a taça de Nestor, em Pitecusa, são da segunda metade do séc. VIII a.C., e a primeira tem um alfa deitado como no alfabeto fenício. Os textos lidos não datam a própria adaptação.
Heródoto sobre as letras cadmeias
No livro 5, Heródoto, ao falar dos gefireus, que descendiam dos que vieram com Cadmo e acabaram em Atenas, diz que os fenícios, entre muitas outras artes, levaram à Hélade o alfabeto, que antes os gregos desconheciam, em sua opinião. Com o tempo o som e a forma das letras mudaram. Os gregos vizinhos, em geral jônios, aprenderam-nas e as usaram com alguns ajustes de forma, e por isso as chamaram de fenícias. Heródoto acrescenta que os jônios chamavam o papiro de “peles”, pois usavam couro de ovelha e de cabra por falta de papiro. Uma nota da edição lida observa que a semelhança de forma e ordem entre as letras antigas gregas e fenícias é certa, seja qual for o valor da teoria de Heródoto. (Heródoto. Histórias (The Histories))
A oinochoe do Dípilon
Achada em 1871 em escavações ilegais de sepulturas junto ao Dípilon, em Atenas, a oinochoe é um vaso de produção ática do Geométrico Tardio, e o poeta pode ser ático mesmo se o gravador não for. Cardin a dataria do terceiro quarto do séc. VIII a.C., embora no passado se preferisse uma data entre o fim do séc. VIII e o início do VII. As primeiras 35 letras formam um hexâmetro perfeito, com muitos paralelos com a dicção de Homero, que anuncia como prêmio de um concurso de dança o próprio vaso, e as 12 letras seguintes talvez iniciem um segundo hexâmetro. O vaso e a inscrição têm registro próprio no lote B deste ciclo. (Cardin)
A taça de Nestor em Pitecusa
Segundo Valerio, a kotyle de Rodes da tumba 168 de Pitecusa é da segunda metade do séc. VIII a.C. e traz, gravada depois da cozedura, uma inscrição de três versos em alfabeto euboico e dialeto jônico, com andamento retrógrado e dois pontos como pontuação. A leitura é “Sou a taça de Nestor, boa de beber; quem beber desta taça, logo o desejo de Afrodite de bela coroa o tomará”. Valerio nota que a taça compete com a oinochoe do Dípilon pelo primeiro lugar entre os testemunhos de escrita alfabética grega, e que seu texto é a mais antiga forma de um tema da poesia de banquete, a ligação do vinho ao erotismo. (Valerio)
Fontes
- Heródoto. Histórias (The Histories), livro 5, cap. 58 e 59 (as letras “fenícias” e as letras cadmeias em Tebas). Tradução inglesa de A. D. Godley (Cambridge, MA: Harvard University Press, Loeb Classical Library), pela edição digital do Perseus Project (Universidade Tufts), repositório PerseusDL no GitHub. As notas curtas no texto são do tradutor ou da edição. https://raw.githubusercontent.com/PerseusDL/canonical-greekLit/master/data/tlg0016/tlg001/tlg0016.tlg001.perseus-eng2.xml (baixado e lido em 29/10/2026). Acessar
- Cardin, Marta. “Oinochoe del Dipylon”. Axon [online], vol. 1, n. 1, jun. 2017, pp. 19-30 (verbete n. 64). Università Ca’ Foscari Venezia. DOI 10.14277/2532-6848/Axon-1-1-17-2. https://edizionicafoscari.it/media/pdf/article/axon/2017/1/art-10.14277-2532-6848-Axon-1-1-17-2_ojvVQUD.pdf (baixado e lido em 29/10/2026). Acessar
- Valerio, Francesco. “Coppa di Nestore”. Axon [online], vol. 1, n. 1, jun. 2017, pp. 11-18 (verbete n. 12). Università Ca’ Foscari Venezia. DOI 10.14277/2532-6848/Axon-1-1-17-1. https://edizionicafoscari.it/media/pdf/article/axon/2017/1/art-10.14277-2532-6848-Axon-1-1-17-1_cVVTB1Q.pdf (baixado e lido em 29/10/2026). Acessar
- Lívio. Desde a fundação da cidade (Ab Urbe Condita), livro 1, cap. 7 (Evandro e Hércules no Palatino). Tradução inglesa de Benjamin Oliver Foster (Cambridge, MA: Harvard University Press, Loeb Classical Library), pela edição digital do Perseus Project (Universidade Tufts), repositório PerseusDL no GitHub. A nota sobre as letras de Evandro é do editor. https://raw.githubusercontent.com/PerseusDL/canonical-latinLit/master/data/phi0914/phi001/phi0914.phi001.perseus-eng1.xml (baixado e lido em 29/10/2026). Acessar
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- Homero: o poeta a quem a tradição grega atribui a Ilíada e a Odisseia, o "velho cego de Quios" e o que os textos lidos dizem e não dizem sobre ele sem data segura (Heródoto: cerca de 400 anos antes dele); o atlas ancora no séc. VIII a.C. (c. 750 a.C., com folga de um século) porque as inscrições de Pitecusa e do Dípilon, de c. 740–720 a.C., já usam a dicção épica
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- Taça de Nestor de Pitecusa: a kotyle rodia da tumba 168, com três versos gravados em alfabeto euboico, entre as mais antigas inscrições alfabéticas gregas 2ª metade do séc. VIII a.C. (Valerio, Tardo-Geométrico II); a tumba 168 é datada pelo mesmo autor do fim do séc. VIII a.C.
- Fundação de Roma (tradicionalmente 753 a.C.): o relato de Lívio, as datas de Dionísio de Halicarnasso e a tese de Carandini tradicionalmente 753 a.C. (21 de abril, no P585 do Wikidata); Dionísio de Halicarnasso a põe no 1º ano da 7ª olimpíada e outros autores antigos dão datas diferentes
- Primeira Guerra Messênia (tradicionalmente c. 743–724 a.C.): Esparta contra Messênia em Pausânias, Estrabão e nos versos de Tirteu tradicionalmente 743–724 a.C. (20 anos; início no P580 do Wikidata e nas glosas dos editores de Pausânias: 2º ano da 9ª olimpíada até o 1º ano da 14ª)
- Fundações gregas na Sicília oriental (séc. VIII a.C.): Naxos, Siracusa, Leontinos, Catânia e Mégara Hibleia, segundo Tucídides c. 735–730 a.C. (fim do séc. VIII a.C.). Tucídides só dá a ordem relativa das fundações; o item do Wikidata da Siracusa antiga (Q4420718) traz 735 a.C. como fundação