Homero: o poeta a quem a tradição grega atribui a Ilíada e a Odisseia, o "velho cego de Quios" e o que os textos lidos dizem e não dizem sobre ele
sem data segura (Heródoto: cerca de 400 anos antes dele); o atlas ancora no séc. VIII a.C. (c. 750 a.C., com folga de um século) porque as inscrições de Pitecusa e do Dípilon, de c. 740–720 a.C., já usam a dicção épica · Europa Mediterrânea
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Homero é o nome que a tradição grega dá ao autor da Ilíada e da Odisseia, e nada dos poemas diz quem ele foi: Clay e Vergados notam que ele é reticente sobre si, ao contrário de Hesíodo. Tucídides cita como de Homero um hino a Apolo cujo cantor se diz um "velho cego" da ilha de Quios, e Heródoto o põe, com Hesíodo, cerca de 400 anos antes de si. Estudiosos modernos tratam a figura ora como um poeta real, ora como o nome de uma tradição oral de cantores, e não há consenso sobre a data.
O que Heródoto e Tucídides dizem
Heródoto (2.53) afirma que Hesíodo e Homero viveram não mais de quatrocentos anos antes dele e que foram eles que ensinaram aos gregos a descendência dos deuses, deram-lhes nomes, distribuíram suas honras e artes e descreveram suas formas; os poetas ditos mais antigos seriam, a seu ver, mais recentes. Tucídides, no livro I, usa os poemas como prova de que Homero nasceu muito depois de Troia e de que não chama todos os gregos de helenos, mas de dânaos, argivos e aqueus. No livro III, ao tratar da festa de Delos, cita versos de um hino a Apolo como "de Homero". (Heródoto. The Histories (Histórias); Tucídides. History of the Peloponnesian War (História da Guerra do Peloponeso))
O "velho cego de Quios"
No livro III, Tucídides reproduz, na tradução de Crawley, versos do hino a Apolo em que o cantor se despede das moças de Delos e lhes pede que, se um viajante perguntar quem canta as canções mais doces, respondam com um sorriso que é "um velho cego da rochosa Quios". Tucídides trata essa passagem como alusão do poeta a si mesmo. É dela que vem a ideia, depois muito repetida, de que Homero era cego e de Quios; as fontes lidas não trazem nenhuma outra evidência sobre a vida do poeta. (Tucídides. History of the Peloponnesian War (História da Guerra do Peloponeso))
Uma tradição que já circulava no século VIII a.C.
Duas inscrições em hexâmetro, lidas nos artigos da revista Axon, mostram o ambiente. A oinochoe do Dípilon, de Atenas, é datada por Cardin do terceiro quarto do séc. VIII a.C., e seu verso anuncia um prêmio de dança com muitos paralelos épicos, em especial em jogos funerários da Ilíada e em passagens da Odisseia. A taça de Nestor, de Pitecusa, tem versos que Valerio vê como feitos por alguém com plena familiaridade com a dicção épica, e o Nestor do primeiro verso foi ligado por muitos ao Nestor de Pilos, dono de uma taça na Ilíada (11.632-637). Valerio expõe, porém, leituras modernas que o descartam. (Cardin; Valerio)
Pessoa ou tradição
Clay e Vergados lembram que, para uma corrente que enfatiza o caráter oral e tradicional do hexâmetro antigo, nomes como Hesíodo e Homero seriam personas de um gênero; na nota, citam Nagy, para quem Homero era uma figura tradicional da narrativa épica. A outra posição, a dos antigos, trata o poeta como pessoa real. Os autores não resolvem a questão e dizem apenas que, sem consenso sobre a data de Homero, a cronologia relativa dos dois poetas continua aberta. Este registro mantém a pessoa por convenção e marca a dúvida como parte da ficha. (Clay)
Fontes
- Clay, Jenny Strauss; Vergados, Athanassios. Hesiod: Theogony, Introdução, seção 1 "Life and Works" (pp. 1-5). Cambridge: Cambridge University Press (edição comentada; ano e série a conferir), trecho "excerpt" de acesso aberto, consultado em 29/10/2026. https://assets.cambridge.org/97811074/83484/excerpt/9781107483484_excerpt.pdf Acessar
- Heródoto. The Histories (Histórias), livro II (cap. 53). Trad. A. D. Godley. Cambridge, MA: Harvard University Press; Londres: William Heinemann, 1920-1925 (Loeb Classical Library). Perseus Digital Library (Tufts University), consultado em 29/10/2026. https://raw.githubusercontent.com/PerseusDL/canonical-greekLit/master/data/tlg0016/tlg001/tlg0016.tlg001.perseus-eng2.xml Acessar
- Tucídides. History of the Peloponnesian War (História da Guerra do Peloponeso), livro I (cap. 3) e livro III (cap. 104). Trad. Richard Crawley. Londres: J. M. Dent; Nova York: E. P. Dutton, 1914. Perseus Digital Library (Tufts University), consultado em 29/10/2026. https://raw.githubusercontent.com/PerseusDL/canonical-greekLit/master/data/tlg0003/tlg001/tlg0003.tlg001.perseus-eng6.xml Acessar
- Cardin, Marta. "Oinochoe del Dipylon". Axon [online], vol. 1, n. 1, jun. 2017, pp. 19-30. Università Ca' Foscari Venezia. DOI 10.14277/2532-6848/Axon-1-1-17-2. https://edizionicafoscari.unive.it/media/pdf/article/axon/2017/1/art-10.14277-2532-6848-Axon-1-1-17-2_ojvVQUD.pdf, consultado em 29/10/2026 Acessar
- Valerio, Francesco. "Coppa di Nestore". Axon [online], vol. 1, n. 1, jun. 2017, pp. 11-18. Università Ca' Foscari Venezia. DOI 10.14277/2532-6848/Axon-1-1-17-1. https://edizionicafoscari.unive.it/media/pdf/article/axon/2017/1/art-10.14277-2532-6848-Axon-1-1-17-1_cVVTB1Q.pdf, consultado em 29/10/2026 Acessar
Na mesma região
- Inscrição da oinochoe do Dípilon, em Atenas: um hexâmetro gravado num vaso que anuncia como prêmio de dança o próprio vaso, entre as primeiras escritas alfabéticas gregas 3º quarto do séc. VIII a.C. (Cardin); a datação mais baixa, entre o fim do séc. VIII e o início do VII a.C., era a preferida no passado
- Taça de Nestor de Pitecusa: a kotyle rodia da tumba 168, com três versos gravados em alfabeto euboico, entre as mais antigas inscrições alfabéticas gregas 2ª metade do séc. VIII a.C. (Valerio, Tardo-Geométrico II); a tumba 168 é datada pelo mesmo autor do fim do séc. VIII a.C.
- O alfabeto grego como adaptação das letras fenícias (séc. VIII a.C.): a explicação de Heródoto e as inscrições mais antigas em Atenas e Pitecusa c. 750 a.C. (P571 do Wikidata, com outros valores de 900 e 1000 a.C.). As inscrições alfabéticas gregas mais antigas lidas são da segunda metade do séc. VIII a.C. (taça de Nestor) e do terceiro quarto do séc. VIII a.C. (oinochoe do Dípilon)
- Fundação de Roma (tradicionalmente 753 a.C.): o relato de Lívio, as datas de Dionísio de Halicarnasso e a tese de Carandini tradicionalmente 753 a.C. (21 de abril, no P585 do Wikidata); Dionísio de Halicarnasso a põe no 1º ano da 7ª olimpíada e outros autores antigos dão datas diferentes
- Primeira Guerra Messênia (tradicionalmente c. 743–724 a.C.): Esparta contra Messênia em Pausânias, Estrabão e nos versos de Tirteu tradicionalmente 743–724 a.C. (20 anos; início no P580 do Wikidata e nas glosas dos editores de Pausânias: 2º ano da 9ª olimpíada até o 1º ano da 14ª)
- Fundações gregas na Sicília oriental (séc. VIII a.C.): Naxos, Siracusa, Leontinos, Catânia e Mégara Hibleia, segundo Tucídides c. 735–730 a.C. (fim do séc. VIII a.C.). Tucídides só dá a ordem relativa das fundações; o item do Wikidata da Siracusa antiga (Q4420718) traz 735 a.C. como fundação