Atlas da História

Hégira

622 (setembro, calendário juliano) · Península Arábica

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

Abrir no mapa e na linha do tempo

Viagem de Maomé de Meca para Iatribe, depois chamada Medina, em 622. É o marco inicial da comunidade muçulmana em Medina.

Antes da partida: a busca de aliados fora de Meca

Dindi (2023), historiador do Islã da Universidade Ibrahim Çeçen de Ağrı, na Turquia, reconstitui com base nas fontes narrativas clássicas a procura de apoio que antecedeu a Hégira. A partir do quarto ano da missão, a cada temporada de peregrinação, Maomé percorria as feiras de Ukaz, Majanna e Dhu al-Majaz, visitava nas tendas os chefes e peregrinos que chegavam a Meca para o culto e o comércio e os convidava ao Islã, prometendo-lhes, segundo esses relatos, primazia entre os árabes. No décimo ano, quando ele se dirigiu aos Banu Amir b. Sa'sa'a, um deles, Bayhara b. Firas, disse que o apoiaria se o poder passasse ao seu grupo depois de Maomé. Para Dindi, a fala mostra que, sem autoridade central na península, as próprias linhagens árabes sonhavam em reunir todos os árabes sob um só comando. (Dindi 2023)

Uma irmandade para quem chegou sem nada

Os muçulmanos de Meca deixaram casas e bens para trás. No primeiro ano da Hégira, segundo a reconstrução de Akbaş (2010) a partir de Ibn Sa'd, Maomé declarou irmãos, dois a dois, emigrados de Meca (muhajirun) e muçulmanos de Medina (ansar), ligados aos grupos aws e khazraj; ele mesmo escolheu os pares, numa reunião na casa de Anas b. Malik. Ibn Sa'd fala em 90 ou 100 participantes; Akbaş achou nas fontes 106 nomes, com repetições. Quando os ansar quiseram dividir casas e palmeirais, Maomé recusou a partilha da propriedade, e os emigrados passaram a trabalhar nos pomares dos irmãos em troca de parte da colheita. No início, um emigrado podia herdar do irmão de Medina, regra suprimida depois da batalha de Badr pelo versículo 75 da surata 8. Alguns anfitriões ficaram célebres: Kulthum b. Hidm e Sa'd b. Khaythama receberam emigrados em Quba, e Abu Ayyub al-Ansari hospedou Maomé por sete meses. (Akbaş 2010)

Profeta e governante: o debate sobre o Estado de Medina

Em Medina, Maomé passou a exercer, além da função profética, a de chefe político. Dindi (2023) resume o debate: discute-se se o Estado nascido ali resultou do caráter unificador da religião ou de um plano, se Maomé pretendia fundar um Estado e se o Islã o exige. A opinião mais difundida, segundo ele, é que o Estado surgiu das circunstâncias posteriores à Hégira, pela necessidade de instituições sociais e jurídicas que sustentassem a nova comunidade. Dindi propõe outra leitura: já em Meca Maomé teria anunciado metas políticas, como controlar Meca e a Caaba, reunir os árabes sob uma autoridade central e livrá-los da pressão bizantina e sassânida, metas ligadas à falta de um poder central no Hejaz. As primeiras se cumpririam em Medina; as últimas, com os primeiros califas. É uma interpretação do autor, apoiada em tradições, e não um consenso. (Dindi 2023)

Por que o ano 1 da Hégira começa em julho de 622

A Hégira dá nome e marco ao calendário islâmico, mas a viagem e o início do calendário não coincidem. Zein e El-Wakil (2021), da Faculdade de Estudos Islâmicos da Universidade Hamad bin Khalifa, no Catar, lembram que a tradição atribui a adoção do calendário ao califa Umar b. al-Khattab; eles sustentam que vários calendários árabes concorreram até o ano 17 da Hégira (638) e que só então o hégirico se tornou o calendário definitivo dos muçulmanos, embora al-Tabari registre a tradição de que Maomé mandou instituir um calendário ao chegar a Medina. O ano 1 começa em 1º de muharram, que as tabelas de conversão fazem cair em 15 de julho de 622, no cálculo astronômico, que conta o dia a partir do pôr do sol, ou em 16 de julho, no cálculo civil. O ano lunar tem 354 dias, e em cada ciclo de 30 anos onze anos ganham um dia a mais. (Zein e El-Wakil 2021)

Quando Maomé chegou a Medina?

A data da chegada também é discutida. Al-Waqidi dá como certa a segunda-feira, 12 de rabi al-awwal, mas no ano 1 da Hégira esse dia não cai numa segunda-feira, problema já apontado por vários estudiosos (Zein e El-Wakil 2021). Shamsi propôs que um copista confundiu a chegada a Quba, em 20 de setembro de 622, com a entrada em Medina, em 24 de setembro. Zein e El-Wakil sugerem outra solução: Maomé teria chegado no "ano zero", em 5 de outubro de 621, e o calendário começaria oficialmente no ano seguinte. Eles defendem ainda que a tentativa de conciliar datas de calendários diferentes gerou erros de cálculo que afetaram a cronologia da vida do Profeta. A data de setembro de 622, adotada no registro, corresponde à reconstrução de Shamsi; a de 621 é hipótese de Zein e El-Wakil. (Zein e El-Wakil 2021)

Fontes

  1. Kennedy, H. (2015). The Prophet and the Age of the Caliphates. Routledge. DOI 10.4324/9781315673516. Acessar
  2. Zein, I.; El-Wakil, A. (2021). "On the Origins of the Hijrī Calendar: A Multi-Faceted Perspective Based on the Covenants of the Prophet and Specific Date Verification". Religions 12(1): 42. DOI 10.3390/rel12010042. Acessar
  3. Akbaş, M. (2010). "Muhâcirûn-Ensâr Kardeşliğinin Serüveni". İstem 8(15): 61–77.
  4. Dindi, K. (2023). "Risaletin Mekke Döneminde Hz. Peygamber’in Siyasi Hedefleri". Yakın Doğu Üniversitesi İlahiyat Fakültesi Dergisi 9(2): 185–199. DOI 10.32955/neu.ilaf.2023.9.2.04. Acessar

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