Atlas da História

Kuk: origens da agricultura na Nova Guiné

fase 1 c. 10.220–9.910 cal AP; montículos c. 6.950–6.440; valas c. 4.350–3.980 cal AP · Pacífico

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Pântano nas terras altas da Nova Guiné com vestígios de manejo de plantas desde cerca de 10 mil anos atrás e de cultivo em montículos e valas nos milênios seguintes. É um caso-chave para mostrar que a agricultura surgiu de forma independente em várias partes do mundo.

A batata-doce e a tese de uma revolução tardia

Kuk fica a cerca de 1.550 m de altitude, no alto vale do Wahgi. Golson (2017) lembra que, até os anos 1930, os de fora tomavam as terras altas da Nova Guiné por uma cadeia de montanhas contínua e desabitada; as expedições daquela década acharam vales muito povoados e cultivados, com a batata-doce, planta da América tropical, como cultura dominante. O antropólogo James Watson propôs então uma "Revolução Ipomeana": como a batata-doce só teria chegado depois da viagem de Magalhães (1519–1522), a população e as sociedades complexas das terras altas teriam se formado em poucos séculos. Em 1965, a abertura de valas de drenagem numa plantação em Warrawau revelou um pilão de pedra, machados, bastões de cavar e pás de madeira. Na escavação de 1966, um bastão no fundo da vala mais antiga deu 2300 ± 120 anos radiocarbônicos, hoje calibrados entre 2710 e 2040 anos antes do presente; para Golson, os achados lançaram grande dúvida sobre a tese. (Golson 2017)

Valas antigas nas paredes dos drenos

Em 1968, o Departamento de Agricultura da administração australiana comprou cerca de 311 hectares do pântano de Kuk para uma estação de pesquisa do chá, e a drenagem começou em 1969. Naquele ano, Jim Allen, da Universidade de Papua-Nova Guiné, viu nas paredes dos novos drenos perfis de valas antigas e artefatos parecidos com os de Warrawau (Golson 2017). O projeto de campo da Universidade Nacional Australiana, de 1972 a 1977, abriu 187 trincheiras, registrou mais de 15 km de paredes de drenos e fez 78 datações por radiocarbono. Já em 1970 os geomorfólogos Russell Blong e Colin Pain reconheceram camadas de cinza vulcânica no pântano. No fim dos anos 1990, Tim Denham retomou as fases mais antigas com análises de diatomáceas, insetos, fitólitos, pólen e resíduos em ferramentas (Golson 2017); Denham et al. (2003) concluíram que a agricultura surgiu de forma independente na Nova Guiné ao menos 6950 a 6440 anos calibrados antes do presente. (Golson 2017; Denham et al. 2003)

Montículos, valas e enxertos: as fases de Kuk

Na fase 1, cerca de 10 mil anos atrás, covas, sulcos e buracos de estacas nas margens de um canal indicam o cultivo de plantas comestíveis, mas os autores do livro discordam se isso já era agricultura; há vestígios de taro, inhame e banana. A fase 2 tem cultivo em montículos, primeiro entre 6950 e 6440 anos atrás, que Denham considera a primeira prova inequívoca de agricultura nas terras altas (Golson 2017). Segundo Denham et al. (2003), o taro já era usado no início do Holoceno, e as bananas eram cultivadas intensivamente ao menos desde a fase 2, quando a floresta deu lugar ao campo. A fase 3, iniciada há cerca de 4400 a 4000 anos, traz as primeiras redes de valas retas; os autores sustentam que surgiram antes da chegada de falantes austronésios ao arquipélago de Bismarck. A fase 4, de cerca de 2 mil anos atrás até a queda de cinzas entre 720 e 980 d.C., tem grades de valas para o taro; na fase 5, de c. 1250 a 1660, o inhame teria ganhado peso, e porcos chegaram das terras baixas. A UNESCO destaca a propagação vegetativa de bananas, taro e inhame e as valas cavadas com ferramentas de madeira. (Golson 2017; Denham et al. 2003; UNESCO, lista nº 887)

Os Kawelka, gente-raiz da terra

Os donos tradicionais de Kuk são os Kawelka, falantes de melpa. Por volta de 1920, derrotados num conflito com vizinhos mais poderosos, refugiaram-se com parentes em Mbukl, no divisor de águas entre o Sepik e o Wahgi, e só começaram a voltar por volta de 1960 (Golson 2017). Muke e Denham (2017) explicam que os Kawelka são reconhecidos como mae pukl wua, o "homem-raiz do chão", com autoridade sobre a terra do clã. Nessa visão, eles são a raiz, ligados à terra de modo profundo e permanente, e o Estado é um "transplante", inquilino secundário que, apesar do contrato de compra, fica em dívida perpétua pelo uso de Kuk. Em 1981, um livreto do Museu Nacional trouxe na capa Korowa, trabalhador kawelka que ajudara a escavar um grande canal antigo, e a imagem causou sensação entre os Kawelka. Depois que o governo abandonou a estação, eles reocuparam a área, hoje dividida entre usuários individuais, com roças de subsistência, café e banana. (Golson 2017; Muke e Denham 2017)

Uma inscrição feita com a comunidade

Segundo Muke e Denham (2017), numa reunião da UNESCO em Suva, em 1997, os Estados insulares do Pacífico constataram sua sub-representação: só três sítios de ilhas do Pacífico estavam na lista, nenhum em país insular independente. Papua-Nova Guiné aderiu à convenção em julho de 1997 e propôs Kuk. A equipe de estudo foi chefiada por John Muke, da Universidade de Papua-Nova Guiné, e o processo sofreu com falta de verbas e disputas entre órgãos até ser retomado pelo Departamento de Ambiente e Conservação. A candidatura saiu em janeiro de 2007, e Kuk entrou na lista em julho de 2008. No plano de gestão, os Kawelka reconhecem o título legal do governo, e o governo os reconhece como donos tradicionais com direito de uso; ficam proibidas só a drenagem e a escavação profundas e as árvores de raiz funda, e o cultivo atual conta como "fase 8". Três agentes locais de patrimônio, um de cada clã kawelka, fariam o monitoramento. A UNESCO pediu que a proteção costumeira fosse confirmada por uma área de conservação e por um acordo formal com a comunidade. (Muke e Denham 2017; UNESCO, lista nº 887)

Fontes

  1. Denham, T. P.; Haberle, S. G.; Lentfer, C.; Fullagar, R. et al. (2003). "Origins of Agriculture at Kuk Swamp in the Highlands of New Guinea". Science 301: 189–193. DOI 10.1126/science.1085255. Acessar
  2. Bellwood, P. (2005). First Farmers: The Origins of Agricultural Societies. Blackwell. ISBN 9780631205661.
  3. Golson, J. (2017). "An Introduction to the Investigations at Kuk Swamp". In: Golson, J.; Denham, T.; Hughes, P.; Swadling, P.; Muke, J. (org.). Ten Thousand Years of Cultivation at Kuk Swamp in the Highlands of Papua New Guinea. ANU Press, p. 1–26. ISBN 9781760461164. DOI 10.22459/TA46.07.2017.01. Acessar
  4. Muke, J.; Denham, T. (2017). "Kuk Phase 8: Heritage Issues to 2008". In: Golson, J.; Denham, T.; Hughes, P.; Swadling, P.; Muke, J. (org.). Ten Thousand Years of Cultivation at Kuk Swamp in the Highlands of Papua New Guinea. ANU Press, p. 457–467. ISBN 9781760461164. DOI 10.22459/TA46.07.2017.25. Acessar
  5. UNESCO World Heritage Centre, "Kuk Early Agricultural Site", lista nº 887. https://whc.unesco.org/en/list/887/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026). Acessar

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