Atlas da História

Mumificação artificial chinchorro (Arica e Camarones)

c. 5450 a 890 a.C. (UNESCO) · Andes

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Três sítios em Arica e na foz do rio Camarones, no deserto do Atacama, extremo norte do Chile, onde viveram caçadores-coletores marinhos de c. 5450 a 890 a.C. Segundo a UNESCO, guardam a evidência arqueológica mais antiga conhecida de mumificação artificial: corpos de homens, mulheres e crianças de toda a escala social eram desmontados e remontados.

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Do corpo desmontado à múmia vermelha

Santoro et al. (2012) resumem a sequência dos tratamentos. O estilo negro, de cerca de 7 mil a 4,8 mil anos atrás, que eles consideram anterior aos demais e de maior complexidade, tem os primeiros casos em múmias de crianças de Camarones: o corpo era esfolado, descarnado e desmembrado; retiravam-se vísceras e cérebro, às vezes se secava o tórax com brasas e cinzas, e o esqueleto era remontado com varas de madeira amarradas com fibra vegetal, modelado em argila cinza, revestido com a pele e coberto por uma pasta preta, talvez de manganês, com rosto, sexo e peruca curta. O estilo vermelho surge por volta de 5 mil anos atrás, sem substituir o negro: incisões nos ombros, virilhas, joelhos e tornozelos, varas sob a pele, enchimento de penas de aves marinhas, terra e fibra de camelídeo, peruca de uns 60 cm e pintura vermelha no corpo todo. Na fase inicial, tratavam-se sobretudo recém-nascidos e bebês; na final, gente de todas as idades, inclusive fetos. Em Morro 1, Standen (2003) mostra que as varas no interior dos corpos, já lidas como arcos, formavam um sistema de reforço do esqueleto. (Santoro et al. 2012; Standen 2003)

O que Morro 1 enterrou com seus mortos

Standen (2003) descreve 301 bens funerários de 134 sepultados do cemitério Morro 1, de cerca de 5,4 mil a 3,7 mil anos atrás. Os corpos de mumificação natural receberam em média 2,3 objetos; os de mumificação artificial, só 0,6. Entre os instrumentos de subsistência, 37 cabeças de arpão superam de longe os seis anzóis e os nove desconchadores de osso, o que leva a autora a perguntar se a caça marinha era a atividade de mais prestígio; mas só três pontas de pedra apareceram. Saias de fibra vegetal ou de camelídeo vestiam os sepultados, às vezes três num mesmo corpo, algumas sem uso; um feto estava envolto em duas saias de adulto novas, feitas para o rito. Bebês enterrados com desconchadores e anzóis sugerem bens herdados. Pelos estudos químicos de ossos que ela cita, mais de 80% da dieta vinha do mar, e 30% dos homens adultos tinham exostose auditiva, associada ao mergulho. O cemitério, escavado em resgate em 1984, fica hoje no meio da trama urbana de Arica. (Standen 2003)

Fozes, nascentes e um território sem a fronteira atual

Para Santoro et al. (2012), os Chinchorro viviam em acampamentos semissedentários junto às poucas fozes de rios perenes e nascentes de uma costa hiperárida, onde a ressurgência da Corrente de Humboldt dava um mar muito produtivo e as condições do tipo La Niña do Holoceno médio mantinham a água doce; seus monturos de conchas cobrem vários quilômetros quadrados. O núcleo do território ia do vale de Lluta a Punta Patillo; na fase final, traços chinchorro chegaram ao norte até Ilo, no sul do atual Peru, e ao sul até o rio Loa, numa faixa de cerca de 500 km. Em Yara, perto de Ilo, há ocre, ossos envoltos e varas presas aos ossos longos, misturados a ritos próprios do lugar, como adultos cercados por crânios de crianças. Quanto à origem, os restos de Acha, de 10 mil a 9 mil anos atrás, se ligam a uma migração costeira antiga, e os de Camarones 14, de 8 mil a 7 mil anos atrás, parecem mais próximos de gente das terras altas; os autores frisam que a origem das pessoas não faz dos ritos uma importação. (Santoro et al. 2012)

A cor preta vinha das terras altas

A pasta preta das múmias leva óxido de manganês, e Sepúlveda et al. (2013), da Universidade de Tarapacá, mostram que ele não existe na costa: o mineral identificado, a criptomelana, só aparece em fontes acima de 3,8 mil metros de altitude, a cerca de 90 km em linha reta dos cemitérios. Uma areia escura do sul de Arica, antes proposta como fonte, tem manganês só em traços. As pinturas das múmias chegam a 69,6% de manganês, contra até 38% no minério bruto, sinal de seleção e moagem cuidadosas. O preto aparece em menos de 15% das múmias chinchorro conhecidas, artificiais ou naturais. Os autores deixam abertas duas hipóteses: troca com caçadores das terras altas ou acesso direto às fontes por grupos da costa e da serra; a raridade de objetos de uma zona na outra pesa contra a troca. Standen (2003) via troca na pele de nandu, ave que no norte do Chile vive acima de 3 mil metros, achada num corpo de Morro 1, e nas peles e fibras de camelídeo dos fardos. (Sepúlveda et al. 2013; Standen 2003)

Mar em mudança e o abandono de uma tradição

Santoro et al. (2012) ligam o fim da tradição a mudanças do ambiente. Depois de 5 mil anos atrás, eventos El Niño ficaram mais frequentes e intensos, a produtividade do mar caiu e a água doce rareou; entre 4,5 mil e 4 mil anos atrás, as espécies grandes de moluscos, que eram de 50% a 100% da coleta, caíram para 40% a 60%. A população seguiu crescendo, e aumentaram infecções, parasitas e sinais de estresse nutricional; o arsênio, natural na região, está na água de Camarones em nível cem vezes acima do recomendado pela OMS. Na fase final, com mais violência entre pessoas, a mumificação se diversificou, o que os autores leem como esforço para manter a ordem antiga; depois de 4 mil anos atrás, os povos da costa a deixaram aos poucos, rumo a uma economia que somava caça e coleta marinhas e horticultura. A UNESCO, que inscreveu os três sítios em 2021, estende a cultura até 890 a.C., e a gestão local cabe à Corporación Chinchorro Marka. (Santoro et al. 2012; UNESCO, lista nº 1634)

Fontes

  1. UNESCO World Heritage Centre, "Settlement and Artificial Mummification of the Chinchorro Culture in the Arica and Parinacota Region", lista nº 1634. https://whc.unesco.org/en/list/1634/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026). Acessar
  2. Standen, V. G. (2003). "Bienes funerarios del cementerio chinchorro Morro 1: descripción, análisis e interpretación". Chungará (Arica) 35(2). DOI 10.4067/s0717-73562003000200002. Acessar
  3. Arriaza, B. (2026). "The Artistic Nature of the Chinchorro Mummies and the Archaeology of Grief". Cambridge Archaeological Journal 36(1): 117–134. DOI 10.1017/s095977432510022x. Acessar
  4. Santoro, C. M.; Rivadeneira, M. M.; Latorre, C.; Rothhammer, F.; Standen, V. G. (2012). "Rise and decline of Chinchorro sacred landscapes along the hyperarid coast of the Atacama Desert". Chungará (Arica) 44(4): 637–653. DOI 10.4067/s0717-73562012000400007. Acessar
  5. Sepúlveda, M.; Valenzuela, D.; Cornejo, L.; Lienqueo, H.; Rousselière, H. (2013). "Óxidos de manganeso en el extremo norte de Chile: abastecimiento, producción y movilidad del color negro durante el período Arcaico". Chungará (Arica) 45(1): 143–159. DOI 10.4067/s0717-73562013000100007. Acessar

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