Caral
c. 2627–1977 a.C. (datas calibradas) · Andes
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Centro monumental pré-cerâmico no vale do Supe, na costa central do Peru, ocupado entre cerca de 2600 e 2000 a.C. Está entre os centros urbanos mais antigos das Américas.
Leia sobre isto
Um vale estreito entre o mar e a serra
Caral fica no médio vale do Supe, uns 180 km ao norte de Lima e 23 km do litoral. O resumo do artigo de Shady, Haas e Creamer (2001) a descreve como um dos 18 grandes sítios pré-cerâmicos do vale. O Supe é um vale pequeno, de pouca terra e rio alimentado por chuvas sazonais, mas Ruth Shady e Sonia López (1999) apontam as condições que o favoreceram: um lençol freático raso no baixo vale, que permitia irrigar terras adubadas pelo limo das cheias sem grandes obras hidráulicas; um mar riquíssimo em peixes e moluscos; uma especialização precoce entre pescadores e agricultores; e a vizinhança de outras sociedades complexas com excedentes para trocar, como as de Kotosh e La Galgada, na serra. Para as autoras, a área entre os rios Santa e Chancay formou no Arcaico Tardio uma esfera de intercâmbio entre regiões, movida na serra pelo cultivo com canais e pequenos terraços e, na costa, pelas redes de algodão, que permitiam uma pesca de consumo social, e não só individual. (Shady Solís e López Trujillo 1999; Shady Solís et al. 2001)
Caral alta, Caral baixa e a reconstrução permanente
Shady e López (1999) descrevem a cidade em duas grandes partes. Na Caral alta ficam os principais volumes piramidais e a maior parte dos módulos de moradia com cercas de pedra ou paredes de guarango e caniço, com os recintos mais amplos e alguns módulos especiais de pedra; na Caral baixa, estruturas médias e pequenas e casas menores de quincha, a parede de caniço trançado coberta de barro. A UNESCO, que inscreveu o sítio em 2009, destaca seis grandes estruturas piramidais, praças circulares rebaixadas e um quipu, o registro em cordas com nós, achado no lugar. As escavações mostram que os edifícios eram construídos, enterrados e refeitos o tempo todo; Shady e López leem esse ciclo como instrumento de gestão política ligado à religião, embora admitam não saber quando nem por que se decidia cada reforma, às vezes mínima, às vezes drástica. (Shady Solís e López Trujillo 1999; UNESCO, lista nº 1269)
Uma oferenda no bairro alto
No recinto 6 de um módulo residencial do bairro alto, quando o cômodo foi enterrado, construiu-se uma caixa de 120 por 60 cm, rebocada e pintada de vermelho e depois de branco, e encheu-se o espaço com oferendas em camadas. Shady e López (1999) registram grandes mexilhões dispostos ora para cima, ora para baixo, cheios de uma massa coberta de folhas; conchas de amêijoa encaixadas aos pares; peixes inteiros e pacotes de comida embrulhados em folhas, alguns carbonizados; sementes de abóbora, algodão e pacae; esqueletos de roedores, animal que ainda hoje se enterra na costa central para pedir chuva e fertilidade; fragmentos de cristal de rocha; e, no centro, um par de figurinhas de barro de rosto para baixo, que as autoras leem como um casal, junto a uma flauta de osso de pelicano quebrada. Elas perguntam se a quebra não seria uma destruição ritual, e veem no uso de urucum um sinal de trocas a longa distância. (Shady Solís e López Trujillo 1999)
Anchovetas na mesa, algodão nas redes
Apesar de estar no meio do vale, Caral comia muito do mar. A análise dos ossos de peixe da oferenda, feita por Luis Miranda com apoio do ictiólogo Philippe Béarez, mostra preferência por espécies pequenas, anchoveta e sardinha, e menos corvina; os moluscos são machas de praias arenosas e mexilhões de costões, que podiam vir do litoral do Supe ou do de Huaura, a 17 km. Shady e López sugerem que esses peixes pequenos eram escolhidos por se conservarem bem e servirem a trocas a distância. Não se achou em Caral nenhum instrumento de pesca nem pedaço de rede, mas sobram sementes de algodão, cultivo para o qual aquele trecho do vale é muito favorável. Daí a hipótese das autoras: pescadores do litoral, como os de Áspero e Bandurria, obtinham dos agricultores a fibra para as redes e davam em troca peixe e moluscos. Os coprólitos indicam ainda frutas como goiaba e pacae. (Shady Solís e López Trujillo 1999)
Estado pioneiro? Leituras e datas em disputa
Para Shady e López (1999), formou-se no Supe a primeira organização estatal, cujo prestígio teria chegado ao vale de Chao, ao norte, e ao Chillón, ao sul, como sugeririam Salinas de Chao e El Paraíso. A UNESCO adota leitura parecida e fala em Estado sociopolítico plenamente desenvolvido. As cifras variam conforme a fonte: Shady e López falam em cerca de 50 hectares e ocupação de 2600 a 1800 a.C.; o resumo de 2001 dá uma zona central de 65 hectares e datas calibradas de 2627 a 1977 a.C.; a UNESCO, citando o Projeto Especial Arqueológico Caral-Supe, situa o desenvolvimento entre 3000 e 1800 a.C. e protege 626 hectares. Segundo a UNESCO, o abandono precoce conservou a cidade: houve só duas ocupações posteriores, na periferia, por volta de 1000 a.C. e entre 900 e 1440 d.C., e a falta de ouro e prata limitou os saques. (Shady Solís e López Trujillo 1999; Shady Solís et al. 2001; UNESCO, lista nº 1269)
Fontes
- Shady Solís, R.; Haas, J.; Creamer, W. (2001). "Dating Caral, a Preceramic Site in the Supe Valley on the Central Coast of Peru". Science 292: 723–726. DOI 10.1126/science.1059519. Acessar
- Shady Solís, R.; López Trujillo, S. (1999). "Ritual de enterramiento de un recinto en el Sector Residencial A en Caral-Supe". Boletín de Arqueología PUCP 3: 187–212. DOI 10.18800/boletindearqueologiapucp.199901.010. Acessar
- UNESCO World Heritage Centre, "Sacred City of Caral-Supe", lista nº 1269. https://whc.unesco.org/en/list/1269/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026). Acessar
Na mesma região
- Chavín de Huántar (Peru): rapé de vilca e tabaco inalado por tubos de osso na Galeria 3, em depósitos de c. 800–350 a.C. c. 800–350 a.C. (faixa dos depósitos de uso da Galeria 3, segundo modelo bayesiano de Rick et al. 2025); a galeria foi selada por volta de 500 a.C. e escavada em 2017–2018
- Cultura Moche c. 100–700 d.C. (o fim varia por região; Kaulicke 1993)
- Mumificação artificial chinchorro (Arica e Camarones) c. 5450 a 890 a.C. (UNESCO)
- Amido em cálculo dentário de Ñanchoc (Peru): abóbora, amendoim, feijão e pacay na dieta de c. 8600 anos atrás c. 8600 cal AP (c. 6650 a.C.), conversão dada pelos autores para "cerca de 8000 anos 14C AP"; os dentes foram associados a datas entre 8210 ± 180 e 6970 ± 60 anos 14C AP, que são idades de radiocarbono não calibradas e não valem como ano de calendário
- Tawantinsuyu (Império Inca) 1438–1533 (Wikidata; data alternativa de fim: 1572)
- Manco Cápac e sua mulher saem do lago Titicaca escrito por Garcilaso, nascido em Cusco, depois da conquista; data da edição a conferir (Garcilaso, Comentarios Reales)