Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo (séc. VIII a.C.?): as duas Lutas, a justiça e os senhores “devoradores de presentes”, nas palavras do poema
séc. VIII a.C. (aprox.); o Wikidata (P571) dá 800 a.C. com precisão de século. Heródoto 2.53 diz que Hesíodo e Homero viveram não mais de quatrocentos anos antes dele · Europa Mediterrânea
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Os Trabalhos e os Dias é um poema em hexâmetros em que Hesíodo se dirige ao irmão Perses, com quem disputa uma herança, e mistura mitos (Prometeu e Pandora, as cinco gerações de homens), conselhos de justiça e um calendário de trabalhos do campo e da navegação. No poema, o poeta diz que há duas Lutas, uma que leva à guerra e outra que estimula o trabalho, e acusa os senhores “devoradores de presentes” de dar sentenças tortas. É uma visão de mundo de camponês da Beócia, falada em primeira pessoa, que o texto lido não permite situar com segurança em data.
As duas Lutas e a disputa com Perses
Depois da invocação às Musas e a Zeus, o poeta diz que não existe uma só Luta (Eris) sobre a terra, mas duas. Uma promove guerra e batalha, é cruel e ninguém a ama; a outra, filha mais velha da Noite e posta por Zeus nas raízes da terra, é muito mais benigna e desperta até o preguiçoso para o trabalho, porque ele vê o vizinho rico que se apressa a arar, plantar e pôr a casa em ordem. Hesíodo pede a Perses que não deixe a Luta que se compraz no mal afastá-lo do trabalho enquanto espreita as disputas do tribunal, e propõe resolver a questão da herança com juízo reto, “o de Zeus”. (Hesíodo. Os Trabalhos e os Dias (Works and Days). Tradução inglesa de Hugh G. Evelyn-White)
Justiça, senhores e a fábula do gavião
Hesíodo faz a Justiça ser arrastada pelos que devoram presentes e dão sentenças tortas; ela segue envolta em névoa pela cidade, chorando e trazendo desgraça. Quem julga reto com estrangeiros e com os da terra faz a cidade florescer e a paz, que nutre as crianças, reinar; quem jura falso fica sem posteridade. Entre os dois avisos há a fábula do gavião e do rouxinol, contada, diz ele, para príncipes que a entendem: o mais forte faz o que quer, e quem resiste perde a disputa e ainda sofre vergonha. (Hesíodo. Os Trabalhos e os Dias (Works and Days). Tradução inglesa de Hugh G. Evelyn-White)
Cinco gerações e a idade do ferro
Os imortais, diz o poema, fizeram primeiro uma geração de ouro, no tempo de Crono, que vivia como deuses, sem trabalho nem dor, e depois uma de prata, uma de bronze (sem ferro negro), uma de heróis e, por fim, a de ferro, em que o poeta se inclui: homens que não descansam do trabalho e da dor de dia nem do perecimento à noite, mas ainda com algum bem misturado ao mal. Hesíodo prevê que Zeus destruirá também essa geração quando os recém-nascidos já tiverem têmporas grisalhas e que Aidós e Nêmesis deixarão a terra. As notas de Evelyn-White explicam Aidós como reverência ou vergonha e Nêmesis como indignação justa. (Hesíodo. Os Trabalhos e os Dias (Works and Days). Tradução inglesa de Hugh G. Evelyn-White)
O calendário de trabalho e o pai emigrado
A parte final do poema ensina a seguir o ano pelas estrelas: vindimar quando Arcturo nasce, arar quando as Plêiades e as Híades se põem, e recolher o navio em terra e pendurar o leme sobre a fumaça quando começa a estação das tempestades. O poeta diz que seu pai também navegava por falta de sustento, deixou Cime, na Eólia, e se instalou perto do Hélicon em Ascra, “ruim no inverno, abafada no verão e boa em nenhuma época”. Ele conta ainda que cruzou a Cálcis para os jogos de Anfidamas e levou um tripé, que dedicou às Musas do Hélicon. (Hesíodo. Os Trabalhos e os Dias (Works and Days). Tradução inglesa de Hugh G. Evelyn-White)
Fontes
- Hesíodo. Os Trabalhos e os Dias (Works and Days). Tradução inglesa de Hugh G. Evelyn-White, em Hesiod, the Homeric Hymns and Homerica (Londres: William Heinemann; Nova York: Macmillan; Loeb Classical Library), pela edição digital do Perseus Project (Universidade Tufts), repositório PerseusDL no GitHub. Lido em texto bruto o poema inteiro; as notas entre colchetes no texto são do tradutor. https://raw.githubusercontent.com/PerseusDL/canonical-greekLit/master/data/tlg0020/tlg002/tlg0020.tlg002.perseus-eng2.xml (baixado e lido em 29/10/2026). Acessar
- Heródoto. Histórias (The Histories), livro 2, cap. 53 (Hesíodo e Homero e os deuses gregos). Tradução inglesa de A. D. Godley (Cambridge, MA: Harvard University Press, Loeb Classical Library), pela edição digital do Perseus Project (Universidade Tufts), repositório PerseusDL no GitHub. https://raw.githubusercontent.com/PerseusDL/canonical-greekLit/master/data/tlg0016/tlg001/tlg0016.tlg001.perseus-eng2.xml (baixado e lido em 29/10/2026). Acessar
Na mesma região
- Pitecusa e Cumas (séc. VIII a.C.): os primeiros assentamentos gregos na baía de Nápoles, segundo Estrabão e a necrópole de San Montano séc. VIII a.C. (a tumba 168 da necrópole de Pitecusa é da segunda metade do séc. VIII a.C., segundo Valerio; Estrabão não dá ano e o item do Wikidata não tem data)
- Pentecôntero: o navio longo de cinquenta remos em uma fileira, tipo básico da marinha grega do século VIII a.C., e os usos que Heródoto lhe dá pelo menos desde o início do séc. VIII a.C. como tipo básico de navio de guerra grego (Ducin); a construção do tipo é datada do fim do séc. VIII a.C. por Davison, citado por Ducin; ainda em uso nos séculos V–IV a.C. e depois
- Primeiros Jogos Olímpicos e a lista dos olimpionikes (tradicionalmente 776 a.C.): Ifito, Corebo e a disputa entre Élida e Pisa, segundo Pausânias e Estrabão tradicionalmente 776 a.C. (a data consta no Wikidata, P571, e na conversão das olimpíadas feita pelos editores da tradução de Pausânias; nenhuma fonte antiga lida dá o ano em número)
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- Fundação de Roma (tradicionalmente 753 a.C.): o relato de Lívio, as datas de Dionísio de Halicarnasso e a tese de Carandini tradicionalmente 753 a.C. (21 de abril, no P585 do Wikidata); Dionísio de Halicarnasso a põe no 1º ano da 7ª olimpíada e outros autores antigos dão datas diferentes