Sítio de Yana (Yana RHS)
c. 31,6 mil anos atrás (Sikora et al. 2019) · Sibéria e Norte da Ásia
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Sítio junto ao rio Iana, no Ártico siberiano, a cerca de 71° N, ocupado há uns 31,6 mil anos, com uma rara haste de projétil de chifre de rinoceronte, outras de mamute, contas, pingentes e agulhas decoradas. Em 2004, sua idade dobrava a das ocupações árticas então conhecidas. Desenhos antropomorfos em presas de mamute lembram imagens xamânicas dos iucaguires registradas no início do séc. XX.
Um complexo de sítios no permafrost do baixo Iana
Identificado em 2001, a 70°43′N, Yana é na verdade, segundo Pitulko e Pavlova (2022), um complexo de ao menos sete localidades geoarqueológicas. A principal, o acampamento Northern Point, foi escavada por inteiro de 2003 a 2015; outra, uma grande acumulação de ossos de mamute, foi muito saqueada por moradores que extraem marfim. As camadas de ocupação ficam a cerca de 7 m acima do rio, dentro do chamado Complexo de Gelo (yedoma), com 30% a 70% de gelo e temperatura próxima de −9 °C, o que explica a conservação excepcional de osso, marfim e chifre. Os autores alertam que a erosão do rio e o degelo ameaçam o sítio e que os movimentos do solo congelado podem deslocar o material datável, cuidado necessário na leitura das datas. (Pitulko e Pavlova 2022)
Antes do Último Máximo Glacial
Quando Pitulko et al. (2004) publicaram o sítio, as datas eram de cerca de 27 mil anos de radiocarbono, idade que mostrava uma adaptação humana ao Ártico muito anterior ao que se supunha. A data calibrada adotada por Sikora et al. (2019) é de 31,6 mil anos atrás. Segundo esses autores, a indústria de Yana, feita sobre lascas e com artefatos elaborados de osso e marfim, lembra o Paleolítico Superior da Eurásia e do sul da Sibéria. Por volta do Último Máximo Glacial, entre 23 mil e 19 mil anos atrás, esse conjunto desaparece; depois dele há um vazio de sítios na região até perto de 20 mil anos atrás, e os achados posteriores trazem a tecnologia de microlâminas vinda da região do Amur. (Pitulko et al. 2004; Sikora et al. 2019)
Adornos, marfim gravado e identidade
Pitulko et al. (2012) registram, além de contas, pingentes e agulhas decoradas, recipientes rasos e formas sem paralelo em outros sítios. Para Pitulko e Pavlova (2025), a produção em massa de objetos sem uso utilitário, como pingentes, contas, diademas e braceletes decorados, indica ideias já elaboradas de identidade há cerca de 32 mil anos. Os autores propõem um sistema de informação em três níveis: distinguir os de fora, marcar diferenças dentro do grupo e identificar pessoas. Interpretam uma presa de mamute gravada como registro mnemônico, talvez mitológico, ligado a crenças animistas e a um culto do lobo, e veem numa das imagens um rito coletivo do tipo xamânico, com uso de perspectiva e de movimento. São leituras dos autores, não consenso. (Pitulko et al. 2012; Pitulko e Pavlova 2025)
Os genomas de Yana e uma linhagem perdida
Sikora et al. (2019) obtiveram dois genomas de alta qualidade a partir de dentes de leite fragmentados, segundo eles os restos humanos pleistocênicos mais ao norte encontrados até então. Os dois indivíduos, do sexo masculino e sem parentesco próximo, definem uma linhagem chamada Antigos Norte-Siberianos, mais próxima da Eurásia ocidental, modelada com cerca de 25% de ancestralidade do Leste Asiático. A diversidade genética indica uma população efetiva de até 500 pessoas, sem endogamia, o que sugere redes amplas de troca de parceiros, como em Sunghir, a cerca de 4.500 km. O indivíduo de Mal'ta, perto do Baikal, há 24 mil anos, descende dessa linhagem. Os autores concluem que o povo de Yana não é ancestral direto dos povos nativos da América nem dos siberianos atuais, embora traços de sua herança apareçam nos dois continentes. (Sikora et al. 2019)
Fontes
- Pitulko, V. V.; Nikolsky, P. A.; Girya, E. Yu.; Basilyan, A. E. et al. (2004). "The Yana RHS Site: Humans in the Arctic Before the Last Glacial Maximum". Science 303: 52–56. DOI 10.1126/science.1085219. Acessar
- Pitulko, V. V.; Pavlova, E. Y.; Nikolskiy, P. A.; Ivanova, V. V. (2012). "The oldest art of the Eurasian Arctic: personal ornaments and symbolic objects from Yana RHS, Arctic Siberia". Antiquity 86: 642–659. DOI 10.1017/s0003598x00047827. Acessar
- Sikora, M.; Pitulko, V. V.; Sousa, V. C.; Allentoft, M. E. et al. (2019). "The population history of northeastern Siberia since the Pleistocene". Nature 570: 182–188. DOI 10.1038/s41586-019-1279-z. Acessar
- Pitulko, V. V.; Pavlova, E. Y. (2022). "Structural Properties of Syngenetic Ice-Rich Permafrost, as Revealed by Archaeological Investigation of the Yana Site Complex (Arctic East Siberia, Russia): Implications for Quaternary Science". Frontiers in Earth Science 9: 744775. DOI 10.3389/feart.2021.744775. Acessar
- Pitulko, V. V.; Pavlova, E. Y. (2025). "A Mammoth Tusk with Representational Engraving from the Yana Complex of Sites and Its Archaeological Context". Archaeology, Ethnology & Anthropology of Eurasia 53(3): 8–22. DOI 10.17746/1563-0110.2025.53.3.008-022. Acessar
Na mesma região
- Ídolo de Shigir c. 12 mil anos atrás (c. 10.000 a.C.; Terberger et al. 2021)
- Kolyma1 (Duvanny Yar, rio Kolyma, nordeste da Sibéria): indivíduo de c. 7850 a.C., com genoma de cobertura de 14×, referência dos Paleossiberianos Antigos c. 9,8 mil anos atrás ("~9.8 kya", Sikora et al. 2019), isto é, c. 7850 a.C. (ano astronômico −7850). O texto lido não traz a faixa calibrada nem o código do laboratório, só o valor aproximado; o registro começa nele
- Cultura Okunev fim do séc. XXVI a.C. – séc. XVII a.C. (Poliakov e Svyatko 2021)
- Kurgan Arzhan 1 (Tuva, sul da Sibéria): grande túmulo da época cita na virada dos sécs. IX–VIII a.C. virada dos sécs. IX–VIII a.C. (c. 800 a.C.), segundo Zaitseva et al. (2007), como citados por Sadykov et al. (2020); Marsadolov (2009) diz séc. VIII a.C.
- Complexo funerário de Arzhan 2 (Tuva, sul da Sibéria), kurgan de 75 m de diâmetro da segunda metade do séc. VII a.C. (data em debate) segunda metade do séc. VII a.C., segundo K. V. Chugunov; E. V. Perevodchikova considera a data não definitiva
- Ourivesaria de ouro do túmulo principesco de Arzhan 2 (Tuva, sul da Sibéria), em estilo animal cita-siberiano, de fins do séc. VII a.C. Fins do séc. VII a.C. (Armbruster e Meyer 2024: "late 7th to early 6th centuries BCE"). Chugunov (2011) data o complexo na segunda metade do séc. VII a.C., com a maior parte do material no último quarto do século, ou seja, c. 625–600 a.C.; em ano astronômico, c. −624 a −599. O ano −612 é o meio dessa faixa, usado só como marca no tempo