Atlas da História

Tomada de Mascate e expulsão dos portugueses de Omã

1650 · Península Arábica

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Em 1650, forças omanis do imame Sultan bin Saif, da dinastia Ya'ariba, tomaram Mascate, fortaleza portuguesa na península havia cerca de 150 anos, e encerraram o domínio português sobre Mascate, exercido desde o saque de 1507 e o protetorado sobre Ormuz (1507–1515). Depois disso, Mascate virou o principal entreposto do comércio do Golfo, e as frotas dos imames passaram a atacar posições portuguesas no Índico.

Mascate sob os portugueses: escala, feitoria e salvo-conduto

Couto (2022) lembra que Mascate já era, antes de 1507, a cabeça de ponte do interior de Omã e um nó das redes do oeste do Índico, à frente dos outros portos omanis. Depois do ataque de 1507, os portugueses fizeram da cidade escala de suas frotas e ali instalaram uma feitoria; a participação na economia local veio junto com interferência crescente na política interna, inclusive nas disputas entre as elites de Mascate, as de outras cidades omanis e Ormuz, que tinha autoridade sobre a costa de Omã e virou protetorado português após as conquistas de Afonso de Albuquerque (1507 e 1515). Fukuda (1991) descreve o controle que se seguiu: todos os portos capazes de receber navios de longo curso, como Mascate, Sur, Suhar e Qurayat, ficaram sob domínio português, e os barcos locais precisavam de salvo-conduto emitido em Mascate e de pagar direitos. Um passe de 16 de novembro de 1611, dado a um capitão baluchi de Gwadar, listava porto de escala, armas a bordo e cargas proibidas, como corda, ferro, chumbo, tabaco, gengibre e canela. (Couto 2022; Fukuda 1991)

Do interior para a costa: Suhar, Sur e o cerco de 1648

Segundo Fukuda (1991), enquanto os portugueses dominavam a costa, o interior estava dividido entre poderes locais, até que Nasir bin Murshid foi eleito imame ibadita em 1624/5 e unificou a região sob sua autoridade. Ele retomou Suhar em novembro de 1643, e até 1648 Sur e Qurayat também voltaram ao controle árabe. Depois de Suhar, Nasir pediu à Companhia Inglesa das Índias Orientais que comerciasse com Omã; o acordo de 1646, negociado por Philip Wylde, dava à companhia comércio livre, sem restrição de produtos, nas terras do imame. Em agosto de 1648 Nasir atacou Mascate e manteve o cerco por cerca de dois meses e meio. O acordo que os portugueses foram obrigados a aceitar já previa que navios omanis saíssem sem inspeção e que os súditos do imame não pagassem direitos em Mascate. Para Fukuda, isso mostra que o controle do comércio era um objetivo antes mesmo de 1650. O autor data a tomada da cidade, já sob Sultan bin Saif I (r. 1649–c. 1679), de janeiro de 1650. (Fukuda 1991)

De Zanzibar a Diu: a guerra que seguiu no mar

A tomada de Mascate não encerrou a luta, que passou para o oceano e para as costas da Índia e da África Oriental (Fukuda 1991). Em 1652 uma frota omani atacou Zanzibar, e no mesmo ano uma esquadra saída de Goa atacou Mascate. Em 1655 houve ataque e saque a Bombaim, então portuguesa; em 1670 os omanis atacaram Diu; em setembro de 1673 os portugueses voltaram a atacar Mascate, e o imame respondeu armando dez navios mercantes. Sob Bal'arab (c. 1679–c. 1692), as disputas internas com o irmão Saif reduziram os choques. Saif bin Sultan I (c. 1692–1711) retomou a ofensiva: perdeu uma batalha ao largo de Surat em 1693, atacou Damão, Salsete e Kung em 1694, destruiu a feitoria de Mangalore em 1696 e, após cerca de três anos de cerco, tomou Mombaça, seguindo para Pemba, Zanzibar, Pate e Kilwa, mas fracassou diante de Moçambique. Fadlallah (2020), pelo título, estuda o papel dos governantes de Malindi, Faza e Zanzibar, que chama de elites traidoras, no prolongamento desse conflito na África Oriental entre 1652 e 1698. (Fukuda 1991; Fadlallah 2020)

Imames mercadores: navios de guerra que levavam carga

Fukuda (1991) mostra que, depois de 1650, Sultan bin Saif enviou agentes (wakil) à Índia, à Pérsia, a Sanaa, a Basra e ao Iraque para trazer cavalos e armas. Com o tempo, o comércio omani tornou-se sobretudo de reexportação: o café vinha do Iêmen ou da Somália, os tecidos da Índia, o enxofre e os tapetes da Pérsia, e o marfim de Moçambique saía de novo por Mascate. Fontes árabes atribuem a Saif I de 24 a 28 navios, alguns com dezenas de canhões; para o autor, a maioria servia de navio mercante em tempo de paz. Os imames viviam no interior, em Rustaq ou Nizwa, e iam a Mascate de tempos em tempos, por isso o comércio corria por agentes. Havia também tensão religiosa: juristas teriam criticado Sultan I por comerciar, já que o patrimônio pessoal do imame devia ficar separado do tesouro público. Saif I teria aplicado os lucros em canais de irrigação (aflaj) e em tamareiras. O imame também recusou, em 1659, uma feitoria inglesa com cem soldados, e nenhuma potência europeia abriu feitoria em Mascate antes do séc. XIX. (Fukuda 1991)

Rivais além de Portugal e uma história contada pelos árabes

Os alvos não eram só portugueses (Fukuda 1991). Mercadores iemenitas saqueados em Mascate em 1642/3 só voltaram ao Golfo após 1650 e passaram a concorrer com os omanis; em 1685, quatro navios de Mascate esperavam os de Mocha no estreito de Bab al-Mandab, e o controle do café entre o mar Vermelho e Basra rendeu muito a Omã. Por volta de 1670 tropas omanis cercaram o forte safávida de Ormuz, e entre a década de 1690 e c. 1710 navios persas foram atacados com frequência. Com os ingleses a política foi outra: segundo o autor, Omã não atacou navios da companhia inglesa, só três navios particulares ingleses, tomados entre c. 1700 e 1707 em represália. O autor critica ainda estudos que leram o comércio omani pelo papel dos mercadores indianos, que, no séc. XIX, ajudaram a expansão da influência britânica; para ele, a iniciativa coube aos árabes e aos imames, e os indianos só ganharam papel central depois de 1800. (Fukuda 1991)

Fontes

  1. al-Shuaili, M. b. H. (الشعيلي، محمد بن حمد) (2023). "أساليب البرتغاليين في مواجهة المقاومة العمانية قبل ظهور دولة اليعاربة (1507- 1624م)". حوليات أداب عين شمس 51(11): 72–98. DOI 10.21608/aafu.2023.323267. Acessar
  2. Fadlallah, S. (فضل الله، شيرين) (2020). "دور النخب الخائنة فى إطالة أمد الصراع العمانی – البرتغالی فى ساحل شرق أفریقیا دراسة حالات حکام مالیندى وفازا وزنجبار 1652- 1698". مجلة کلیة اللغة العربیة بإتاى البارود 33(3): 3431–3496. DOI 10.21608/jlt.2020.123465. Acessar
  3. Fukuda, S. (1991). "The Maritime Trade and Imams in the Ya'ariba Period". Bulletin of the Society for Near Eastern Studies in Japan 34(2): 74–92. DOI 10.5356/jorient.34.2_74. Acessar
  4. Couto, D. (2022). "Muscat and the Portuguese: economic and political dynamics in the early 16th century (1507-1529)". Arabian Humanities 15. DOI 10.4000/cy.6966. Acessar

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