Augusto "devolve o Estado" ao Senado e ao povo (28–27 a.C.): as Res Gestae e Tácito
28 a 27 a.C. (sexto e sétimo consulados de Augusto, segundo as Res Gestae 34, na glosa do tradutor) · Europa Mediterrânea
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Nas Res Gestae, o texto que Augusto deixou para ser gravado depois da morte, ele diz que, em seus sexto e sétimo consulados, apagada a guerra civil, devolveu o Estado de seu poder ao Senado e ao povo romano, recebeu por decreto o nome Augusto e passou a ter influência acima dos outros, mas não mais poder que seus colegas nas magistraturas. Tácito, nos Anais, descreve o mesmo processo como a concentração gradual, em Augusto, das funções do Senado, dos magistrados e das leis, sem oposição porque os mais ousados haviam caído em batalha ou nas proscrições. Os dois relatos são de lados opostos: um do próprio Augusto, outro de Tácito.
O que Augusto escreve em 34
No capítulo 34, na tradução lida, Augusto diz que "nos meus sexto e sétimo consulados", depois de pôr fim à guerra civil e "obtidas todas as coisas por consentimento universal", transferiu o Estado do seu poder para o domínio do Senado e do povo romano. Por esse mérito, por decreto do Senado, foi chamado Augusto, as portas de sua casa foram cobertas de louros, uma coroa cívica foi fixada sobre elas e um escudo de ouro foi colocado na Cúria Júlia, cuja inscrição atestava virtude, clemência, justiça e piedade. O tradutor acrescenta entre colchetes "28-27 a.C." aos dois consulados. O capítulo termina dizendo que, depois disso, Augusto superou todos em influência mas não teve mais poder do que os colegas. (Augustus 1998)
O texto como monumento
As Res Gestae abrem dizendo que o texto resume os feitos de Augusto, pelos quais submeteu "toda a terra" ao domínio do povo romano, e as despesas que fez pelo Estado, gravadas em dois pilares de bronze erguidos em Roma. A página da Wikisource lembra que o original não sobreviveu e que o texto, escrito perto da morte de Augusto, em 14 d.C., provavelmente foi revisto várias vezes e deixado com seu testamento, com instrução ao Senado para gravá-lo. Essa origem importa para ler o capítulo 34: é o autor falando de si mesmo, para a posteridade, depois de décadas de principado. (Augustus 1998)
Tácito e a quietude comprada
Nos Anais, Tácito resume o caminho de Augusto depois da destruição dos exércitos da República e da eliminação de Lépido e de Antônio: ficou só Augusto para chefiar o partido de Júlio César. Deixou o título de triúnviro e se apresentou como cônsul, contente com o poder de tribuno em defesa do povo. Tácito conta os meios: dons aos soldados, trigo barato ao povo, doçura da paz a todos; assim as funções do Senado, dos magistrados e das leis se concentraram nele. Os nobres sobreviventes, quanto mais dispostos à servidão, mais foram elevados por riqueza e cargos, e, engrandecidos pela revolução, preferiram a segurança do presente ao passado perigoso. (Tacitus)
A guerra de escravizados em Res Gestae 25
No capítulo 25, ao falar de ter devolvido a paz ao mar, livrando-o de piratas, Augusto escreve que, "naquela guerra de escravizados", entregou a seus senhores, para castigo, cerca de 30 mil capturados que tinham fugido deles e pegado em armas contra o Estado. Diz depois que toda a Itália jurou fidelidade a ele de forma voluntária e o pediu como chefe da guerra que ele venceu em Áccio, e que mais de 700 senadores combateram sob suas insígnias. O texto lido não dá a data dessa guerra, nem o destino dos 30 mil, nem o ponto de vista deles. (Augustus 1998)
Fontes
- Augustus, Res Gestae Divi Augusti ("The Deeds of the Divine Augustus"), caps. 1, 25 e 34. Tradução inglesa de Thomas Bushnell (1998), em Wikisource. https://en.wikisource.org/wiki/The_Deeds_of_the_Divine_Augustus (acesso em 30/10/2026). Acessar
- Tacitus, Annals 1.2. Tradução inglesa de Alfred John Church e William Jackson Brodribb, Complete Works of Tacitus (Nova York: Random House, 1942), Perseus Digital Library. https://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Tac.+Ann.+1.2 (acesso em 30/10/2026). Acessar
Na mesma região
- De architectura, de Vitrúvio: dez livros sobre cidades, materiais, templos, edifícios, água, relógios de sol e máquinas, escritos por volta de 27 a.C. por volta de 27 a.C., data de composição situada "com certa aproximação" pela Enciclopédia Italiana (1937); a datação já foi disputada
- Calendário juliano: a reforma de Júlio César, com ano de 365 dias e um dia intercalar a cada quatro anos (46 a.C.) promulgado em 46 a.C. (708 de Roma), no terceiro consulado de César, segundo a Enciclopédia Italiana (1930)
- Lívia Drusila, esposa de Augusto e mãe de Tibério, depois chamada Júlia Augusta, 58 a.C.–29 d.C. nasceu em 30 de janeiro de 58 a.C. (a Enciclopedia on line dá 58/57); morreu em 29 d.C., muito idosa
- Notas tironianas (notae): a taquigrafia latina atribuída a Tirão, liberto de Cícero, e o discurso de Catão anotado no Senado (63 a.C.) 5 de dezembro de 63 a.C., primeiro uso datado nas fontes lidas (o discurso de Catão contra Catilina foi taquigrafado); a invenção do sistema por Tirão não tem data no verbete
- Revolta de Espártaco (73–71 a.C.): escravizados e gladiadores contra Roma e os 6.000 crucificados 73 a 71 a.C. (datas do Wikidata; Apiano diz que a guerra durava três anos quando Crasso assumiu)
- Lucrécio (Tito Lucrécio Caro), poeta latino do De rerum natura, sobre a física atomista de Epicuro, c. 95–55 a.C. nasceu em meados dos anos 90 a.C. e morreu em meados dos anos 50 a.C. (as fontes antigas divergem: nascimento entre 99 e 95 ou em 94 a.C.; morte entre 55 e 51 a.C.)