Atlas da História

Sambaqui Monte Castelo: evidência de domesticação do arroz

ocupação desde c. 6 mil anos AP e ao menos até a fase Bacabal, que começa c. 4.300 AP (Villagran et al. 2022); o fim real não tem data confiável · Terras baixas da América do Sul

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Sambaqui no Pantanal do Guaporé, em São Francisco do Guaporé (RO), perto da fronteira com a Bolívia, ocupado desde cerca de 6 mil anos atrás. Para Hilbert et al. (2017), fitólitos de casca cada vez maiores indicam a domesticação de um arroz silvestre (o indicador é o tamanho dos fitólitos) a partir de c. 4 mil anos, e a cerâmica local da fase Bacabal, de c. 4.300 anos, leva espículas de esponja (cauixi) na pasta.

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Uma colina de conchas erguida em camadas

O Monte Castelo é um morro artificial de cerca de 160 m de comprimento, que se eleva 6,30 m acima do nível das cheias. Camadas de ocupação se alternam com camadas construtivas de conchas de gastrópodes, inteiras ou quebradas, acumuladas ao longo de milênios. Eurico Miller fez as primeiras escavações no início dos anos 1980; entre 2011 e 2020, uma equipe do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, com Neves e Pugliese, realizou nove campanhas de campo. A sequência foi dividida em três fases: Cupim (c. 6.000 a 5.800 anos cal AP), Sinimbu (c. 5.800 a 5.000) e Bacabal (c. 4.300 a 700). A presença humana na região é mais antiga, de c. 9.500 anos AP e talvez de 12 mil anos atrás (Villagran et al. 2022). (Villagran et al. 2022)

Cauixi: esponjas de rio na pasta da cerâmica

Cauixi é o nome das espículas silicosas de esponjas de água doce. Villagran et al. (2022) examinaram 22 cacos cerâmicos do sítio em lâminas delgadas de 30 micrômetros. Em média, a pasta tem 45% de matriz argilosa, 39% de cauixi, 11% de quartzo e 4% de vazios, com seis vezes mais espículas que quartzo. Em metade das amostras, as espículas aparecem em feixes, sinal de adição intencional, somada ao uso de argilas já ricas em esponjas. A geoquímica isotópica indica que as argilas vinham de depósitos do Holoceno diferentes dos usados nas fases anteriores. Em sambaquis cerâmicos do Holoceno médio no baixo Amazonas, como Taperinha e Ponta do Jauari, o antiplástico era concha moída ou areia; no Monte Castelo, a receita com cauixi se manteve por mais de 3 mil anos. (Villagran et al. 2022)

Arroz, milho e abóbora numa área alagável

O arroz cultivado no mundo vem de duas domesticações, a asiática (Oryza sativa) e a africana (O. glaberrima). Hilbert et al. (2017) apresentaram no Monte Castelo a primeira evidência de domesticação de arroz nas Américas, feita a partir de um arroz silvestre do gênero Oryza por moradores do Holoceno médio. Para os autores, o sudoeste amazônico, provável berço da mandioca, do amendoim e da pimenta, mostra que as áreas alagáveis foram ambientes privilegiados de domesticação de plantas. Villagran et al. (2022), citando Hilbert et al. (2017), registram o cultivo de milho e abóbora na fase Sinimbu (5.416–5.060 anos cal AP) e o predomínio de espécies manejadas, como mandioca, pupunha e amendoim. (Hilbert et al. 2017; Villagran et al. 2022)

Diversificar em vez de intensificar

Furquim et al. (2021) analisaram restos vegetais carbonizados, fitólitos e grãos de amido de toda a ocupação, de c. 6.000 a 650 anos AP, numa paisagem em mosaico de savana e floresta sazonalmente alagada. Segundo o resumo do artigo, o resultado é um padrão local antigo e resiliente: em vez de intensificar a produção de poucos alimentos, os moradores diversificaram cada vez mais as plantas manejadas, inclusive na transição do Holoceno médio para o tardio. Os autores tiram daí implicações para os debates sobre a permanência dos assentamentos, o crescimento da população e a capacidade de suporte do ambiente na Amazônia antiga. (Furquim et al. 2021)

Fontes

  1. Hilbert, L.; Neves, E. G.; Pugliese, F.; Whitney, B. S. et al. (2017). "Evidence for mid-Holocene rice domestication in the Americas". Nature Ecology & Evolution 1(11): 1693–1698. DOI 10.1038/s41559-017-0322-4. Acessar
  2. Villagran, X. S.; Alves, M. L.; Kater, T.; Silva, K. B. V. da et al. (2022). "Petrografia de cerâmicas da fase Bacabal (sambaqui Monte Castelo): um dos mais antigos usos de cauixi na Amazônia". Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas 17(1): e20200120. DOI 10.1590/2178-2547-bgoeldi-2020-0120. Acessar
  3. Furquim, L. P.; Watling, J.; Hilbert, L. M.; Shock, M. P. et al. (2021). "Facing Change through Diversity: Resilience and Diversification of Plant Management Strategies during the Mid to Late Holocene Transition at the Monte Castelo Shellmound, SW Amazonia". Quaternary 4(1): 8. DOI 10.3390/quat4010008. Acessar

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