Cerritos de índios de India Muerta (Rocha, Uruguai)
c. 5 mil anos atrás (Gazzán et al. 2022) até o séc. XVII (Cabrera Pérez 2005) · Cone Sul
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
Abrir no mapa e na linha do tempo
Montículos de terra que os moradores do leste uruguaio chamam de cerritos de indios, erguidos nas terras alagáveis de India Muerta (Rocha) desde c. 5 mil anos atrás, num clima mais seco. A construção cresceu após c. 3 mil anos, com clima mais quente e úmido, e formou aldeias em redes regionais; em Los Ajos, Iriarte et al. (2004) acharam os cultivos mais antigos conhecidos no sul do continente.
Leia sobre isto
Milhares de montículos na bacia da lagoa Mirim
Cabrera Pérez (2005) situa os cerritos na bacia da lagoa Mirim, de cerca de 54 mil km², dos quais 24 mil no Brasil e 30 mil no Uruguai. Ali foram erguidos milhares de montículos ao longo dos últimos 4 mil anos, até o século XVII. A forma mais comum é circular, com 30 a 40 m de diâmetro e até mais de 7 m de altura; os maiores estão no banhado de India Muerta, onde mais de um terço passa de 2 mil m³, e há grupos de até 50 montículos em menos de 4 km². Os construtores escolheram e prepararam os materiais: muitas estruturas contêm uma parte constante de "terra queimada", em boa medida vinda de cupinzeiros cozidos, o que levou Bracco e colegas a propor, como hipótese, que esse material fosse incorporado de propósito. Enterramentos humanos aparecem com frequência nos montículos. (Cabrera Pérez 2005)
De Ameghino ao resgate de 1986
A primeira notícia dos montículos no leste uruguaio é de Florentino Ameghino, em 1880. Segundo Cabrera Pérez (2005), Figueira propôs em 1892 que tivessem função funerária; Sierra y Sierra (1909) os comparou aos montículos do Mississippi e os viu como construções simbólicas ou plataformas para morar nas cheias, e Ferrés (1927), como plataformas para habitar as áreas alagáveis. Nos anos 1960 e 1970, pesquisadores brasileiros como Naue e Schmitz os chamaram de "aterros" e lhes deram uma leitura funcionalista. Mesmo sem referências históricas diretas, atribuiu-se os cerritos aos charrua e minuano, que viviam na região no século XVIII, num modelo de caçadores nômades. A pesquisa sistemática no lado uruguaio começou em 1986, como projeto de resgate do Ministério de Educação e Cultura (CRALM). Até 2005, só cerca de vinte montículos, de uma dezena de sítios, tinham sido escavados num universo de milhares, e o autor adverte que as interpretações são tendências. (Cabrera Pérez 2005)
Crescer aos saltos ou aos poucos
Como os montículos ganharam altura é tema de debate. López Mazz propôs um crescimento em pulsos, e Bracco e Ures, com mais de 60 datações, um crescimento contínuo. No sítio Ch2D01, a construção começou em 2530 ± 60 AP, com camadas acrescentadas a cada 200 a 400 anos (Cabrera Pérez 2005). Gazzán et al. (2022) mostram, em India Muerta, montículos sobre "ilhas" secas em meio às áreas alagáveis, organizados em grupos de diferentes ordens, que formavam aldeias planejadas dentro de sistemas regionais. Cabrera Pérez lembra que esses grupos foram descritos como sociedades heterárquicas, com desenvolvimentos paralelos, às vezes aliadas diante de ameaças externas e às vezes em competição (Dillehay 1996). (Cabrera Pérez 2005; Gazzán et al. 2022)
Butiá, cervos e os primeiros cultivos do sul
A alimentação combinava palmeiras como o butiá e o jerivá, quebradas com pedras de covinhas ("rompecocos"), caça de cervo-do-pantanal e veado-campeiro e, em alguns sítios, lobos-marinhos. Isótopos em esqueletos indicam consumo baixo de recursos marinhos e de milho, e fitólitos registram milho, feijão (Phaseolus), abóbora (Cucurbita) e Canna ao longo de 2.500 anos (Cabrera Pérez 2005). Em Los Ajos, Iriarte et al. (2004) descrevem a transformação do sítio em aldeia permanente com praça circular por volta de 4.190 anos radiocarbônicos AP, e definem um período dos montículos cerâmicos de c. 3.000 a 500 AP; para os autores, essa arquitetura é uma tradição independente, surgida na própria região. (Cabrera Pérez 2005; Iriarte et al. 2004)
Contas venezianas e os arachanes dos cronistas
Os cerritos continuaram em uso após a chegada dos europeus. No sítio CG14E01, na Isla Larga, um dos episódios de construção cobriu fragmentos de uma vasilha e contém contas venecianas, o que o situa já em tempos históricos. Urnas da tradição tupi-guarani dos séculos XVI e XVII aparecem associadas a elementos dos construtores de cerritos. Cronistas falam de povos chamados genericamente de "tapuias", distintos dos vizinhos tupi; entre eles, o nome mais frequente para os habitantes da região das grandes lagoas é "arachanes", descritos como horticultores em aldeias semipermanentes (Cabrera Pérez 2005). (Cabrera Pérez 2005)
Fontes
- Gazzán, N.; Cancela-Cereijo, C.; Gianotti, C.; Fábrega-Álvarez, P. et al. (2022). "From Mounds to Villages: The Social Construction of the Landscape during the Middle and Late Holocene in the India Muerta Lowlands, Uruguay". Land 11(3): 441. DOI 10.3390/land11030441. Acessar
- Iriarte, J.; Holst, I.; Marozzi, O.; Listopad, C. et al. (2004). "Evidence for cultivar adoption and emerging complexity during the mid-Holocene in the La Plata basin". Nature 432(7017): 614–617. DOI 10.1038/nature02983. Acessar
- Cabrera Pérez, L. (2005). "Patrimonio y arqueología en el sur de Brasil y región Este de Uruguay: los cerritos de Indios". Salduie 5: 221–254. DOI 10.26754/ojs_salduie/sald.200556513. Acessar
Na mesma região
- Genomas antigos do Cone Sul central: a linhagem da Argentina Central, com indivíduo de c. 8500 anos atrás, e oito milênios de continuidade c. 8500 cal AP (c. 6550 a.C.) para o indivíduo mais antigo da linhagem da Argentina Central (rótulo "JesusMaria_8500BP"), datado por radiocarbono calibrado (OxCal 4.4, IntCal20 do Hemisfério Sul); o artigo mostra a linhagem presente até c. 150 AP
- Arroyo Seco 2 (Pampa argentina): um lugar de enterramento recorrente e a ancestralidade da paisagem (c. 8550 a 7300 cal AP) c. 8550 a 7300 cal AP (c. 6600 a 5300 a.C.) para o núcleo de enterramentos do setor A; o sítio continua a receber sepultamentos até c. 4950 cal AP
- Complexo El Vergel c. 1000 a 1500–1550 d.C. (Díaz de Aranda 2022; Gajardo 2019)
- Cueva de las Manos (rio Pinturas) c. 9.300 a 1.300 anos atrás (UNESCO, justificativa)
- Parlamento de Quilín 6 jan. 1641
- Guerra Guaranítica e resistência dos Sete Povos das Missões 1754 – 1756 (Wikidata); Correa 2021 recorta 1753–1756