Cnossos e os centros palacianos minoicos
c. 1900–1100 a.C., fase dos palácios (UNESCO) · Europa Mediterrânea
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Cnossos, um dos maiores assentamentos de Creta do Neolítico à época romana, é um dos seis centros palacianos minoicos que a UNESCO inscreveu juntos, com Festo, Malia, Zakros, Zominthos e Kydonia, datados de 1900 a 1100 a.C. Os palácios eram centros administrativos, econômicos e religiosos, com sistemas de escrita antigos e redes marítimas que ligavam Europa, África e Ásia. A imagem moderna do sítio vem em boa parte das escavações de Arthur Evans e das amplas reconstruções do início do século XX, cujas premissas hoje são revistas.
Kalokairinos, o primeiro a escavar a colina de Kephala
Antes de Arthur Evans, Minos Kalokairinos (1843–1907), comerciante, intérprete e advogado, abriu escavações na colina de Kephala, em Cnossos, em 1878, provavelmente estimulado pelos achados recentes de Heinrich Schliemann em Micenas. Segundo Karadimas (2018), ele trouxe à luz partes de um palácio e foi pioneiro da arqueologia cretense, mas os trabalhos pararam em abril de 1879; Evans os retomou, sobretudo entre 1900 e 1905. Kotsonas (2016) chama a atenção para outra faceta de Kalokairinos, quase esquecida: o seu Diário Arqueológico Cretense, que registra a topografia e os monumentos da Cnossos grega e romana na segunda metade do séc. XIX. (Karadimas 2018; Kotsonas 2016)
A Cnossos grega e romana nos papéis de Kalokairinos
Segundo Kotsonas (2016), o diário de Kalokairinos mostra como a paisagem arqueológica de Cnossos mudava no séc. XIX e permite identificar monumentos desconhecidos ou perdidos, entre eles grandes construções, inscrições e esculturas, e situar o ponto onde apareceram em partes específicas da cidade antiga. O documento também revela como antiguidades do sítio foram reunidas e levadas para fora da ilha: peças de Cnossos foram parar em Atenas, no Egito e na Europa ocidental, onde eram tratadas como de procedência desconhecida. Kotsonas as reconhece como cnossianas e as liga aos seus contextos, o que, para ele, muda bastante o que se sabe da topografia, dos monumentos e do registro epigráfico da cidade. (Kotsonas 2016)
Uma cidade de muitos séculos além do palácio
Whitley (2023) lembra que Cnossos tinha lugar especial no imaginário grego e romano, como sede do rei Minos, do Labirinto e do Minotauro, e que o chamado Palácio de Minos de Evans associou o sítio, na imaginação moderna, a uma cultura perdida da Creta da Idade do Bronze. Para o autor, essa imagem cobre só um período relativamente curto da ocupação: durante a maior parte da sua história, Cnossos parece ter sido uma comunidade política com governo próprio. O livro acompanha o sítio desde a mitologia, passando por antiquários, viajantes e arqueólogos, revê a sociedade palaciana da Idade do Bronze e examina de forma crítica as premissas de Evans e de outros, mostrando como se formou a visão herdada do assentamento. (Whitley 2023)
Escritas, comércio e um labirinto de pátios
Para a UNESCO, os seis centros palacianos são a expressão mais representativa de uma cultura que floresceu no Mediterrâneo oriental por dois milênios, de 2800 a 1100 a.C. Os sítios guardam vestígios do hieroglífico cretense e do Linear A, que a ficha considera os dois sistemas de escrita mais recuados da Europa, e também do Linear B, além de sinais do comércio com egípcios e micênicos. A arquitetura combina planta labiríntica, pátios, sistemas de armazenamento e instalações hidráulicas elaboradas, e integra funções régias, administrativas e religiosas; a ficha vê nisso o surgimento de uma organização de tipo estatal no Mediterrâneo oriental. A lenda do Minotauro e do Labirinto está diretamente associada aos palácios. (UNESCO, lista nº 1733)
Reconstruções do séc. XX e a questão da autenticidade
A ficha da UNESCO reconhece que Cnossos enfrenta um problema próprio de autenticidade: as amplas reconstruções do início do séc. XX comprometeram parte da forma e do desenho originais, embora grandes porções do sítio continuem autênticas e todas as reconstruções estejam documentadas. O órgão pede que se desenvolvam métodos para distinguir com clareza os vestígios originais das reconstruções posteriores, de modo que o valor do bem se apoie em material autêntico. Nos outros componentes predominou a intervenção mínima. A ficha observa ainda que a extensão total de Kydonia, sob a cidade atual de Chania, não foi determinada, e que o conjunto é protegido pela lei grega 4858/2021, sob o Ministério da Cultura. (UNESCO, lista nº 1733)
Fontes
- UNESCO World Heritage Centre, "Minoan Palatial Centres", lista nº 1733. https://whc.unesco.org/en/list/1733/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026) Acessar
- Whitley, J. (2023). Knossos. Bloomsbury. DOI 10.5040/9781350241619. Acessar
- Karadimas, N. (2018). "Kalokairinos, Minos (1843–1907)". In: The Encyclopedia of Ancient History. Wiley. ISBN 9781405179355. DOI 10.1002/9781444338386.wbeah30454. Acessar
- Kotsonas, A. (2016). "Greek and Roman Knossos: The Pioneering Investigations of Minos Kalokairinos". The Annual of the British School at Athens 111: 299–324. DOI 10.1017/s0068245416000058. Acessar
Na mesma região
- Erupção minoica de Thera (Santorini): a data, entre c. 1600 e 1500 a.C., em disputa Entre o fim do séc. XVII e o início do séc. XV a.C., segundo a fonte e o método: a radiocarbono, c. 1600 a.C. (Pearson et al. propõem metade do séc. XVI a.C. em 2023); pela cronologia arqueológica, depois de 1540 a.C. ou c. 1524 a.C.; segundo Bruins e van der Plicht (2025), antes do reinado do faraó Ahmose
- Oficina de tintura de púrpura em Egina-Kolonna (séc. XVI a.C.): conchas esmagadas de Hexaplex trunculus, resíduos analisados por HPLC e ossadas queimadas de filhotes Séc. XVI a.C. (fase Heládico Recente IIA, Micênico Inicial), época da camada de destruição de dois edifícios, segundo Berger e colegas (2024). A tintura de púrpura já era conhecida em Creta desde o início do 2º milênio a.C. e chegou a Kolonna no Bronze Médio, segundo os mesmos autores
- Fim de El Argar, no sudeste da Península Ibérica (c. 1550 a.C.): colapso, "rebelião social" e outras leituras c. 1550 a.C. (data de calendário calibrada, que Bonora Soriano e outros usam como corte para contar sítios; eles falam também em transformações "por volta de 1600–1550 a.C.")
- Destruição do Palácio de Nestor, em Pilos (c. 1200 a.C.), e as causas em debate c. 1200–1180 a.C. (3150–3130 anos antes de 1950, na transição do Heládico Recente IIIB para o IIIC, como Finné et al. situam a destruição)
- Fim das terramare, na planície do Pó (c. 1150 a.C.): colapso, clima e uso da terra c. 1150 a.C. (data de colapso citada por Capuzzo et al.; a contração demográfica que eles medem vai de 1200 a 1050 a.C.)
- Complexo do Vaso Campaniforme (a partir de c. 2750 a.C.): expansão da Ibéria atlântica à Europa central e à Grã-Bretanha, e a substituição quase completa da população britânica a partir de c. 2750 a.C. (datações de cerâmica campaniforme na Ibéria atlântica, segundo Olalde et al. 2018) até c. 2200–1800 a.C. (quando a cerâmica deixa de ser usada); chegada à Grã-Bretanha com ancestralidade da estepe depois de 2450 a.C.