Eanna de Uruk e a "economia sagrada" de Inana: religião, trabalho e poder num só sistema, segundo Potts
c. 3400 a.C. (segundo Potts 2021, para os textos arcaicos de Eanna; data não identificada como calibrada) · Mesopotâmia e Levante
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Segundo Daniel Potts (2021), o complexo Eanna de Uruk, onde se achou quase 4.000 textos arcaicos, era o domínio da deusa Inana, e o trabalho de pastores, tecelões, barqueiros e outros dependentes era dedicado a ela e gerido por seus administradores, em troca de rações. Para ele, isso mostra que economia, sociedade, religião e política não eram esferas separadas e que a religião dessa fase era mais cuidado do patrimônio da divindade do que doutrina ou oração. É uma leitura, contestável para quem vê no mesmo período menos peso do religioso, como Frangipane em Arslantepe.
O domínio de Inana e as escavações
Potts (2021) escreve que Uruk, no atual sul do Iraque, foi uma das primeiras grandes cidades da Mesopotâmia e cobria, no auge, mais de 4 km². Após duas temporadas de Loftus em 1850 e 1854, arqueólogos alemães fizeram 39 campanhas entre 1912 e 2003, concentradas em Eanna ("casa do céu"), conjunto de edifícios monumentais que, segundo ele, constituía o domínio da deusa-cidade Inana. As escavações deram cerca de 4.000 textos arcaicos, achados em depósitos de lixo, como documentos de arquivo descartados. (Potts 2021)
O que os textos arcaicos mostram
Segundo Potts (2021), os primeiros textos de Uruk eram puramente numéricos e depois combinaram substantivos, números e sinais compostos, como o de "ração". Muitos controlam rações pagas a trabalhadores por serviços, outros acompanham o crescimento de rebanhos, e uma parte são listas de palavras por categoria, como profissões, árvores, aves, metais e recipientes. Ele conclui que a escrita serviu à contabilidade de um sistema econômico complexo. Aqui o que importa é o sistema social por trás dos registros, e não a técnica de escrever. (Potts 2021)
O Vaso de Uruk como imagem do sistema
Potts (2021) liga o Vaso de Uruk, peça de calcário de 1,05 m achada em 1929 e do mesmo período dos primeiros textos, às cenas de selos cilíndricos: ovelhas, cabras, gado, tecelagem, construção, santuários marcados com símbolos divinos, prisioneiros de guerra e "governantes" em ação. Nos registros do vaso, produtos agrícolas e pastoris são levados a Eanna e registrados, e quem os entrega recebe rações do administrador-chefe, que seria o intendente das terras de Inana. Essa é a leitura de Potts; outras interpretações do vaso não foram lidas. (Potts 2021)
Uma religião de cuidado, não de doutrina
Para Potts (2021), a religião da Mesopotâmia dessa fase era menos doutrina, oração e filosofia do que "sublimação" ao poder de forças elementares que protegiam a comunidade. Ele observa que hinos, orações, mitos de criação e textos rituais só foram escritos mais de mil anos depois da invenção da escrita, e escreve que a religião era mais o cuidado das propriedades de um deus do que ser cuidado pelo amor do deus. Diz também que a morte era definitiva e que não havia ideia de ressurreição. São conclusões do autor a partir de ausências nos textos. (Potts 2021)
Fontes
- Potts, D. T. (2021). Uruk and the origins of the sacred economy. Engelsberg Ideas, 15 nov. 2021 (publicado antes em Knowledge and Information: Perspectives from Engelsberg Seminar, 2018, Bokförlaget Stolpe). https://engelsbergideas.com/?p=992, consultado em out. 2026. Acessar
- Frangipane, M. (2000). Origini ed evoluzione del sistema centralizzato ad Arslantepe: dal "tempio" al "palazzo" nel IV millennio a.C. Isimu, 3: 53-78. DOI 10.15366/isimu2000.3.001 (PDF em https://revistas.uam.es/isimu/article/download/3613/3855/7142), consultado em out. 2026. Acessar
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