Histórias de Políbio: a constituição mista e a explicação grega da ascensão de Roma (livro VI)
c. 150 a.C. (Wikidata P571, com precisão de século). A obra narra de cerca de 219 a 146 a.C., segundo as notas de margem de Shuckburgh; a data de composição do livro VI não aparece nas fontes lidas · Europa Mediterrânea
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
Abrir no mapa e na linha do tempo
As Histórias de Políbio, escritas em grego por um aqueu, narram de cerca de 219 a 146 a.C. como e sob que tipo de governo quase todo o mundo habitado caiu, em menos de 53 anos, sob uma só cidade, Roma. No livro VI, Políbio descreve seis formas de governo que se sucedem em ciclo e defende que o melhor regime mistura realeza, aristocracia e democracia, como ele diz ter feito Licurgo em Esparta e como via em Roma, onde cônsules, Senado e povo se limitavam mutuamente. Ele avisa que a riqueza e a rivalidade por cargos podem levar o regime romano à pior forma de governo, o governo da multidão.
Por que escrever: Roma em menos de 53 anos
Políbio abre dizendo que seus predecessores já louvaram a história como educação para a vida política e como meio de aprender a suportar a sorte, e que por isso ele pode ir direto ao assunto: quem seria indiferente a saber por que meios e sob que tipo de governo quase todo o mundo habitado foi conquistado e posto sob uma só cidade em menos de cinquenta e três anos? Compara o domínio de Roma com o dos persas, que se arriscaram ao sair da Ásia, o dos espartanos, que mandaram na Grécia por doze anos, e o dos macedônios, que deixaram a maior metade do mundo habitado fora de seu alcance. A conquista romana, diz ele, não foi parcial. (Políbio. As Histórias (The Histories). Tradução inglesa de Evelyn S. Shuckburgh. Londres e Nova York: Macmillan)
Seis formas de governo e o seu ciclo
No livro VI, Políbio critica quem distingue só três constituições, realeza, aristocracia e democracia, e pergunta se são as únicas ou as melhores. Para ele a melhor reúne os três elementos, como Licurgo fez em Esparta. Ele conta seis formas: as três boas e as degenerações ligadas a cada uma, que são a tirania, a oligarquia e o governo da multidão. A realeza, nascida do poder natural de um só, degenera em tirania; a aristocracia que a substitui degenera em oligarquia; o povo que se vinga dos governantes injustos cria a democracia, que por violência e desprezo da lei vira governo da multidão. A tradução de Shuckburgh anota que a classificação deriva de Aristóteles e de Platão. (Políbio. As Histórias (The Histories). Tradução inglesa de Evelyn S. Shuckburgh. Londres e Nova York: Macmillan)
Licurgo e a mistura de poderes
Políbio atribui a Licurgo a percepção de que toda forma de governo simples é instável, porque cada uma carrega um vício que a destrói por dentro, como a ferrugem ao ferro e os vermes à madeira. A realeza gera o absolutismo, a aristocracia a oligarquia, a democracia a violência. Por isso Licurgo combinou o melhor das três em Esparta, de modo que nenhuma parte pudesse crescer demais: o rei era contido pelo temor do povo, o povo pelo temor da Gerúsia, e a Gerúsia, formada por mérito, inclinava-se pela justiça. Políbio conclui que os lacedemônios mantiveram a liberdade por mais tempo que qualquer povo que ele conheça. (Políbio. As Histórias (The Histories). Tradução inglesa de Evelyn S. Shuckburgh. Londres e Nova York: Macmillan)
Cônsules, Senado e povo em Roma
Para Políbio, a constituição romana na época de Canas tinha três elementos soberanos, repartidos com tanto equilíbrio que nem um romano saberia dizer se era aristocracia, democracia ou monarquia. Visto pelos poderes dos cônsules, parecia despótica; pelo do Senado, aristocrática; pelo do povo, democrática. Os cônsules, antes de levar as legiões, ficavam em Roma como senhores da administração, e na guerra tinham poder quase absoluto. O povo dependia do Senado por causa dos contratos de obras e arrecadação dados pelos censores e porque a maioria dos juízes saía do Senado. Para Políbio, a interdependência dava ao conjunto força irresistível em perigo e capacidade de corrigir abusos quando uma das partes se inflava. (Políbio. As Histórias (The Histories). Tradução inglesa de Evelyn S. Shuckburgh. Londres e Nova York: Macmillan)
O aviso final e a Grécia derrotada
No fim do livro VI, Políbio diz que tudo o que existe está sujeito a decadência e mudança, por causas externas e por uma causa interna que segue ordem definida. Quando um Estado, depois de enfrentar muitos perigos, alcança prosperidade e poder indiscutidos, a riqueza prolongada torna a vida dos cidadãos mais extravagante e a rivalidade por cargos mais feroz. O povo, enganado por uns e lisonjeado por outros, passa a exigir tudo; o regime ganha o belo nome de liberdade ou democracia, mas vira governo da multidão. Antes, no livro 6.43, ele já descartara como fortuitas as constituições de Atenas e de Tebas, cujo brilho dependeu de seus líderes. Mais tarde, no livro 39, ele aparece a defender a memória de Filopêmen diante de Múmio e a organizar as constituições gregas depois de Corinto. (Políbio. As Histórias (The Histories). Tradução inglesa de Evelyn S. Shuckburgh. Londres e Nova York: Macmillan)
Fontes
- Políbio. As Histórias (The Histories). Tradução inglesa de Evelyn S. Shuckburgh. Londres e Nova York: Macmillan, 1889 (reimpressão Bloomington, 1962), pela edição digital do Perseus Project (Universidade Tufts). Lidos em texto bruto os trechos dos livros 1 (cap. 1 e 2), 3 (cap. 4), 6, 29 (cap. 16 e 17) e 39 (cap. 8 a 19); as notas de margem e de rodapé com meses e anos são do tradutor. https://raw.githubusercontent.com/PerseusDL/canonical-greekLit/master/data/tlg0543/tlg001/tlg0543.tlg001.perseus-eng2.xml (baixado e lido em 29/10/2026). Acessar
- Estrabão. Geografia (Geography), livro 8, cap. 4.8 e 6.23. Tradução inglesa de Horace Leonard Jones (Loeb Classical Library, Londres: Heinemann; Cambridge, MA: Harvard University Press, 1924–1929), pela edição digital do Perseus Project. https://raw.githubusercontent.com/PerseusDL/canonical-greekLit/master/data/tlg0099/tlg001/tlg0099.tlg001.perseus-eng3.xml (baixado e lido em 29/10/2026). Acessar
Na mesma região
- Guerra Aqueia e destruição de Corinto (146 a.C.): o que contam Políbio, Pausânias e Estrabão 146 a.C. (Wikidata P585, sem mês); nas notas de margem de Shuckburgh a Políbio, a morte do estratego Crítolau é da primavera de 146 a.C. e o saque de Corinto, de setembro de 146 a.C.
- De agri cultura, de Catão: a prensa de azeite, a alvenaria de cal e areia e a gestão da propriedade rural c. 160 a.C. (Wikidata, data de publicação com precisão de década; o texto lido não se data)
- Cerco de Numância (134–133 a.C.): a cidade celtibera cercada por Cipião Emiliano, segundo Apiano e Blázquez Martínez 134–133 a.C. (Wikidata P580 e P582); na tradução de Apiano por White, Cipião é eleito cônsul em 134 a.C. e o cerco e a rendição se dão em 133 a.C.
- Batalha de Pidna (168 a.C.) e a partilha da Macedônia em quatro cantões, segundo Lívio e Políbio 22 de junho de 168 a.C. (Wikidata P585); Políbio, nas notas de Shuckburgh, situa a batalha por volta do meio do verão; a partilha da Macedônia em cantões foi anunciada em Anfípolis logo depois, em data que as fontes lidas não dão
- Senatus consultum de Bacchanalibus (186 a.C.): o decreto contra as bacanais, lido pela inscrição de Tiriolo e por Lívio 7 de outubro de 186 a.C. (nonas de outubro, data da consulta ao Senado na inscrição; o ano 186 vem do NovaRoma e da descrição do Wikidata)
- Terêncio: o comediógrafo nascido em Cartago, trazido a Roma como escravizado, segundo a tradição, e suas seis peças c. 185 – c. 159 a.C. (Wikidata); primeira peça encenada em 166 a.C. (Britannica de 1911)