Huaca Prieta: ocupação antiga do litoral peruano
presença humana intermitente de c. 15 mil a 8 mil anos atrás, antes do monte; as camadas sob o monte vão de 15.217 a 10.158 cal AP (Dillehay et al. 2017) · Andes
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Sítio da costa norte do Peru com presença humana intermitente entre cerca de 15 mil e 8 mil anos atrás, antes da construção de seu grande monte artificial. Sem anzóis, arpões nem artefatos bifaciais, os grupos usavam ferramentas simples de seixo, obtinham alimento, segundo Dillehay et al. (2017), por coleta, armadilhas e recursos do estuário e das montanhas, sem que se saiba se por troca ou por deslocamento dos mesmos grupos e deixaram restos de abacate e feijão.
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Um terraço diante de um mar que subia
O sítio fica na ponta sul do chamado Terraço Sangamon, um resto de terraço de cerca de 1 km² que se destaca na planície costeira 2,5 km ao norte da foz do rio Chicama, a distância parecida do mar e das montanhas. Dillehay et al. (2017) lembram que, entre 15 mil e 10 mil anos atrás, o degelo fez o nível do mar subir cerca de 60 metros: há 15 mil anos a praia ficava provavelmente uns 30 km mar adentro em relação à atual; há 10 mil anos, de 8 a 12 km; só entre 8 mil e 7 mil anos atrás chegou perto do nível de hoje. Entre o mar e o terraço havia provavelmente extensos alagados, e a planície era um campo de gramíneas com matas ciliares ao longo de cursos d'água entrelaçados. Os autores admitem que parte dos sítios antigos pode estar hoje submersa na plataforma continental. As camadas de ocupação, de 0,5 a 7 cm de espessura e separadas por camadas estéreis, estão enterradas sob 7 a 30 metros de depósitos dos montes posteriores; das 17 escavações de 2007 a 2013 que chegaram à base dos montes, só seis as encontraram. (Dillehay et al. 2017)
Tubarões, leões-marinhos e o calendário das estações
Os restos de fauna das camadas antigas somam 281 espécimes marinhos e só três terrestres. Pelas contas da equipe, tubarões e raias são 27,55% do total; leões-marinhos (e, em menor grau, veados), 15,85%; aves marinhas, 13,96%; peixes ósseos, 12,83%. Tubarões pequenos e peixes médios, como tainha, corvina e pescada, podem ter encalhado na praia ou ficado presos em águas rasas e alagados salobros, onde seriam apanhados com porretes ou redes; um seixo perfurado sugere pesos para armadilhas de junco. O calendário pesava: leões-marinhos e grandes aves marinhas aparecem no verão, de dezembro a março, quando os tubarões também são mais numerosos, e as ressacas de inverno lançam mais peixes nas lagoas da costa. Para Dillehay et al., leões-marinhos e tubarões foram as maiores fontes de carne por milênios. Entre as plantas, só a semente de feijão tem data direta de mais de 14 mil anos; as demais datadas ficaram entre 10,6 mil e 10,2 mil anos atrás. (Dillehay et al. 2017)
Lascas de seixo numa tradição que mudou pouco
Das 71 peças de pedra lascada das camadas antigas, 49 foram analisadas. São seixos locais de riolito, basalto, andesito e quartzito, trabalhados por percussão direta, quase sempre de um lado só, e 90% têm marcas visíveis de uso. A equipe distingue três conjuntos: de cerca de 15 mil a 13,5 mil anos atrás, lascas grandes de gume afiado; até 11,5 mil anos atrás, instrumentos menores e mais variados para raspar, cortar e golpear; até 10 mil anos atrás, lascas ainda menores, algumas serrilhadas. Duas lascas de um silicato verde vieram das montanhas a leste. Os autores dizem ter examinado mais de um milhão de peças líticas da costa de Chicama sem achar um só artefato bifacial, e mais de 350 mil fragmentos de concha sem sinal de fabrico de anzol ou arpão. Esse modo de lascar seixos locais, já notado por Junius Bird nos anos 1940, seguiu em uso até os períodos inca e colonial. Um fragmento de esteira de junco trançado, datado entre cerca de 11,2 mil e 10,6 mil anos atrás, está entre os exemplos conhecidos desse ofício nas terras baixas sul-americanas. (Dillehay et al. 2017)
Costa e quebradas na fase El Palto
No Boletín de Arqueología PUCP, Greg Maggard (2011) situa Huaca Prieta na fase El Palto, nome dado às tradições líticas documentadas mais recuadas da costa norte do Peru, de cerca de 14,2 mil a 9,6 mil anos atrás. Ao lado de uma tradição unifacial de sítios em estuários ou perto do mar, como Huaca Prieta, os de Amotape, perto de Talara, e os do delta de Carrizal, havia dois complexos de pontas bifaciais: Cola de Pescado, em acampamentos curtos datados no vale do Jequetepeque de cerca de 13 mil a 12,4 mil anos atrás, e Paiján, de cerca de 13 mil a 10 mil anos atrás, com 126 sítios registrados no baixo Jequetepeque. Estes ficavam em quebradas do sopé andino, de 10 a 35 km do mar e de 200 a 600 metros de altitude, e indicam uma economia mais voltada à terra. Para Maggard, as tradições bifaciais só chegam à costa norte uns mil anos depois das unifaciais, e a técnica unifacial continuou presente em quase todos os conjuntos posteriores. Dillehay et al. (2017) confirmam que essas pontas aparecem no sopé e nos vales interiores a leste, mas não no terraço. (Maggard 2011; Dillehay et al. 2017)
Rota costeira ou exploração lenta?
Maggard (2011) julgava muito provável que os grupos da tradição unifacial, de vida marítima, tivessem colonizado a região pela costa, e esperava achar outros sítios na antiga linha de praia. Dillehay et al. (2017) são mais cautelosos: seus dados não provam a entrada inicial pela costa do Pacífico; o conhecimento minucioso de ambientes marinhos e terrestres exigiria muito tempo de observação e tentativa e erro, o que sugere um avanço mais exploratório e lento do que se pensava. Nem se sabe se grupos especializados da costa e do interior trocavam recursos ou se os mesmos grupos percorriam vários ambientes. Uma errata de 2026 retirou da tabela de datas uma medição (AA75326) que não era de Huaca Prieta e trocou a imagem da esteira de junco do material suplementar, que vinha de um período posterior; segundo a revista, as conclusões não mudam. (Maggard 2011; Dillehay et al. 2017; Science Advances 2026)
Fontes
- Dillehay, T. D.; Goodbred, S.; Pino, M.; Vásquez Sánchez, V. F. et al. (2017). "Simple technologies and diverse food strategies of the Late Pleistocene and Early Holocene at Huaca Prieta, Coastal Peru". Science Advances 3(5): e1602778. DOI 10.1126/sciadv.1602778. Acessar
- Dillehay, T. D.; Bonavia, D.; Goodbred, S. L.; Pino, M. et al. (2012). "A late pleistocene human presence at Huaca Prieta, Peru, and early Pacific Coastal adaptations". Quaternary Research 77(3): 418–423. DOI 10.1016/j.yqres.2012.02.003. Acessar
- Maggard, G. J. (2011). "Las ocupaciones humanas del Pleistoceno Final y el Holoceno Temprano en la costa norte del Perú". Boletín de Arqueología PUCP 15: 121–143. DOI 10.18800/boletindearqueologiapucp.201101.005. Acessar
- Science Advances (2026). "Erratum for the Research Article “Simple technologies and diverse food strategies of the Late Pleistocene and Early Holocene at Huaca Prieta, Coastal Peru” by T. Dillehay et al.". Science Advances 12(34): eaek2171. DOI 10.1126/sciadv.aek2171. Acessar
Na mesma região
- Abóbora, amendoim e algodão no vale de Ñanchoc (Peru): horticultura nas encostas andinas há cerca de 10.000 anos cerca de 10.000 anos atrás, segundo o resumo de Dillehay et al. 2007; sementes de abóbora com datação direta de 9240 ± 50 anos 14C AP (sem calibração publicada nos textos lidos)
- Wilamaya Patjxa (altiplano de Puno, Peru): a jovem sepultada com um kit de caça e o debate sobre a divisão sexual do trabalho (c. 7000 a.C.) c. 8980–8730 cal AP (c. 7030–6780 a.C.), faixa calibrada de duas datas diretas de colágeno ósseo do indivíduo 6, segundo Haas e outros (2020)
- Amido em cálculo dentário de Ñanchoc (Peru): abóbora, amendoim, feijão e pacay na dieta de c. 8600 anos atrás c. 8600 cal AP (c. 6650 a.C.), conversão dada pelos autores para "cerca de 8000 anos 14C AP"; os dentes foram associados a datas entre 8210 ± 180 e 6970 ± 60 anos 14C AP, que são idades de radiocarbono não calibradas e não valem como ano de calendário
- Mumificação artificial chinchorro (Arica e Camarones) c. 5450 a 890 a.C. (UNESCO)
- Caral c. 2627–1977 a.C. (datas calibradas)
- Chavín de Huántar (Peru): rapé de vilca e tabaco inalado por tubos de osso na Galeria 3, em depósitos de c. 800–350 a.C. c. 800–350 a.C. (faixa dos depósitos de uso da Galeria 3, segundo modelo bayesiano de Rick et al. 2025); a galeria foi selada por volta de 500 a.C. e escavada em 2017–2018