Atlas da História

Os muçulmanos da Sicília normanda vistos por Ibn Jubayr (1184–1185)

dez. 1184 – mar. 1185 (inverno de 580 H na Sicília; partida em 26 mar. 1185, segundo Böhme) · Europa Mediterrânea

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Entre dezembro de 1184 e março de 1185, o andaluz Ibn Jubayr, funcionário almoada de Granada, passou o inverno na Sicília depois de um naufrágio e registrou como viviam os muçulmanos sob o reino normando. Segundo Böhme, a maior parte das fontes da época vem da chancelaria régia e de cronistas cristãos latinos, e o relato do viajante é uma das poucas janelas de fora dessa perspectiva.

Um naufrágio e um inverno na ilha

Ibn Jubayr nasceu em Xàtiva em 1145 e fez carreira na chancelaria almoada. Em fevereiro de 1183 partiu em peregrinação a Meca num navio genovês, por Tarifa, Ceuta, Sardenha, Sicília e Creta até Alexandria. Na volta, sofreu naufrágio no estreito de Messina e foi obrigado a passar na Sicília o inverno de dezembro de 1184 a março de 1185. Segundo Böhme, foi levado a terra por ordem do rei Guilherme II, passou nove dias em Messina e seguiu para Palermo e Trapani. A proibição régia de navegar, por causa de uma campanha naval contra Bizâncio, prendeu-o na ilha; ele só embarcou para Granada em 26 de março de 1185. (Böhme 2024)

Palermo: mesquitas, escolas e a oração de sexta

No bairro muçulmano de Palermo, Ibn Jubayr visitou a mesquita principal e notou inúmeras outras, quase todas usadas como escolas por mestres do Alcorão. O chamado público à oração era feito, mas o sermão de sexta em nome do califa abássida só era permitido nos dias de festa. Segundo Böhme, os imãs vinham da própria comunidade, e não eram nomeados pelas autoridades normandas; um cádi julgava as causas internas. Em Trapani, no fim do Ramadã, o viajante viu um funcionário muçulmano conduzir uma procissão até a mesquita, e se espantou que as autoridades cristãs tolerassem o barulho. (Böhme 2024)

Abū l-Qāsim, o líder em desgraça e o seu entorno

Em fevereiro de 1185, em Trapani, Abū l-Qāsim ibn Ḥammūd convidou Ibn Jubayr para uma conversa. Segundo o viajante, ele fora acusado por inimigos de se corresponder com os almoadas, perdera mais de 30 mil dinares e todas as casas herdadas, e depois recuperara um posto no governo. Böhme confirma o prestígio da família por outras fontes, entre elas o poeta egípcio Ibn Qalāqis, que foi hóspede de Abū l-Qāsim em 1168–1169, e por documentos que o mostram na administração financeira régia em 1168 e 1172. A vida dele depois de 1185 é desconhecida. (Böhme 2024)

Convivência precária e o que veio depois

Böhme lembra que parte da população cristã participou de pogroms antimuçulmanos em 1161, e que a convivência entre os grupos religiosos da ilha dependia do equilíbrio mantido por uma dinastia que se apoiava na herança bizantina e islâmica. No fim dos anos 1170 e início dos 1180, Guilherme II transferiu várias comunidades muçulmanas do domínio régio para a abadia de Monreale. Com a morte do rei em novembro de 1189 e a usurpação de Tancredo, houve novos choques e uma revolta muçulmana nas montanhas de Palermo, encerrada até a primavera de 1191, segundo o mesmo autor. (Böhme 2024)

Fontes

  1. Böhme, E. (2024). "1185: Ibn Ǧubayr and a Local Muslim Leader Assess the Situation of Muslims in Sicily". Transmediterranean History 6.2. DOI 10.18148/tmh/2024.6.2.86. Inclui o trecho árabe de Ibn Jubayr (Riḥla, ed. Wright e de Goeje, 1907, pp. 341–342) e versão em inglês adaptada de Broadhurst (1952). PDF aberto em ojs.ub.uni-konstanz.de. Acessar

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