Atlas da História

Insurreição Pernambucana

1645–1654 · Terras baixas da América do Sul

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Guerra de reação luso-brasileira iniciada em 1645 contra o governo neerlandês do Brasil Holandês (Nova Holanda), que durou até 1654. Câmaras municipais tiveram papel na reação; do lado neerlandês, a má condição das tropas da Companhia das Índias Ocidentais pesou no desfecho.

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Vista de Olinda
Paisagem pintada na Holanda por um artista que esteve no Brasil durante o domínio holandês. A ordem e a calma da cena escondem o trabalho de pessoas escravizadas e a guerra da região. Vista de Olinda, Frans Post, 1662. Domínio público. Ver no acervo

Dívidas, câmaras e a preparação do levante

Luciani (2008) lembra que, quando a Companhia das Índias Ocidentais tomou as capitanias do norte, quem detinha o poder local eram os senhores de engenho, que governavam por meio das câmaras municipais portuguesas. Os neerlandeses criaram as câmaras de escabinos, presididas por escoltetos que, segundo Boxer, citado pela autora, eram cordialmente detestados pelos moradores, que se queixavam de extorsão; mas a autora nota que muitos senhores de engenho e lavradores participavam dessas câmaras e que os escabinos luso-brasileiros eram maioria. Com a saída de Nassau, em 1644, uma das primeiras medidas da Companhia foi cobrar as dívidas dos moradores, o que recaiu sobretudo sobre os senhores de engenho. Citando Evaldo Cabral de Mello, ela associa essas dívidas à compra financiada de pessoas escravizadas e à queda do preço do açúcar a partir de 1638. O levante, escreve, foi preparado por senhores de engenho e apoiado pela maior parte das pessoas principais da terra. (Luciani 2008)

Uma guerra de soldados mal pagos

Segundo Françozo (2016), resenhando Miranda (2014), a maioria dos soldados da Companhia das Índias Ocidentais não era neerlandesa: vinha dos Estados alemães, dos Países Baixos espanhóis, da Inglaterra, da França, da Escandinávia e da Escócia. Não eram, ao contrário do que se repetia, gente de pior fama, e muitos entraram por saber algum ofício. A resenha afirma que as tropas eram, via de regra, mal alimentadas, doentes, mal pagas e maltratadas por superiores no Brasil e por autoridades na Holanda, e que a má condição geral delas foi decisiva para o destino frustrado dos neerlandeses; alguns desertaram, passaram ao inimigo ou se amotinaram. Miranda (2025), por sua vez, indica que a rebelião dos colonos luso-brasileiros eclodiu em 1645 e que, no começo de 1654, a Companhia capitulou. Luciani (2008), por outro lado, avisa contra explicar a reação luso-brasileira apenas por sentimento anti-holandês ou nativista, tese da historiografia do século XIX que ela não aceita. (Françozo 2016; Miranda 2025; Luciani 2008)

Os Potiguara entre as duas forças

Miranda (2025) estuda um documento raro: a representação que cerca de 140 indígenas Potiguara, vindos de aldeias do Rio Grande, da Paraíba, de Itamaracá e de Pernambuco, redigiram numa assembleia em Tapesserica, no fim de março de 1645, e entregaram ao governo neerlandês no Recife em 11 de abril. O texto foi registrado por um escrivão indígena, Clemente da Silva. Pedia, em substância, que os neerlandeses respeitassem a lei de liberdade dos indígenas, emancipando os mantidos como escravizados, a fusão de aldeias e aldeamentos e um autogoverno em três câmaras nativas. Os Potiguara escolheram como regedores Domingos Fernandes Carapeba, Pieter Poty e Antônio Paraupaba. O autor lembra que, dois meses depois, a rebelião dos colonos desorganizou e destruiu aldeamentos, e muitos indígenas fugiram para o interior. Os Potiguara estiveram em ambos os lados: em 1645 Antônio Felipe Camarão e Pieter Poty trocaram cartas em tupi, e a resposta de Poty só é conhecida em tradução para o neerlandês; Poty foi capturado em 1649 e morreu prisioneiro. Em 1654, muitos buscaram refúgio nos sertões, e alguns foram perseguidos, mortos ou escravizados. (Miranda 2025)

Pessoas africanas e afrodescendentes na guerra

Costa (2022) mostra que a historiografia clássica resumiu a participação negra na guerra a Henrique Dias e ao seu terço, símbolo de resistência ao lado dos portugueses. Dias era um negro forro, natural de Pernambuco, que se apresentou em 1633 com outros libertos; em 1636 recebeu o título de governador das companhias de crioulos, negros e mulatos, com patente de 1639, e em 1649 foi ferido na segunda batalha dos Guararapes. Os terços reuniam escravizados e libertos e davam uma liberdade tutelada, segundo a autora, sem libelo antiescravista: o próprio Dias capturava escravizados e nem sempre os libertava. Do outro lado, a autora identifica africanos que serviram aos neerlandeses, como os capitães Antônio Mendes e João de Andrade, e conclui que os comportamentos eram ambivalentes e não uma posição única. Ela lembra ainda que os neerlandeses, depois de hesitar, aceitaram a escravização de africanos em 1637 e 1638. (Costa 2022)

Fontes

  1. Luciani, F. T. (2008). Munícipes e escabinos: poder local e guerra de restauração no Brasil holandês (1630-1654). Universidade de São Paulo. DOI 10.11606/d.8.2008.tde-30112009-152527. Acessar
  2. Françozo, M. (2016). "Gente de guerra: novas perspectivas sobre o Brasil holandês" (resenha de B. R. F. Miranda, Gente de guerra, 2014). Revista de História (São Paulo) 174: 419–422. DOI 10.11606/issn.2316-9141.rh.2016.115467. Acessar
  3. Miranda, B. R. F. (2025). "A representação dos Potiguara na Assembleia de Tapesserica (1645): estudo e tradução de um escrito indígena das Guerras do Açúcar". Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas 20(1): e20240024. DOI 10.1590/2178-2547-bgoeldi-2024-0024. Acessar
  4. Costa, R. de C. R. da (2022). "Ambivalências pretas nas guerras pernambucanas do açúcar: estratégias de colaboração e resistência". Tempo 28(2): 103–131. DOI 10.1590/tem-1980-542x2022v280206. Acessar

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