Rabia de Basra: escravizada na juventude segundo a tradição, mestra sufi do amor desinteressado
c. 717 – 801 (Smith 1928: nascida provavelmente por volta de 717; morta em 185 da Hégira = 801); o Wikidata dá o nascimento na década de 710 · Mesopotâmia e Levante
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
Abrir no mapa e na linha do tempo
Rabia al-Adawiyya nasceu em Basra por volta de 717 e morreu ali em 801, segundo Margaret Smith (1928). A tradição, contada pelo hagiógrafo persa Attar mais de quatro séculos depois, diz que ficou órfã, foi vendida como escravizada e libertada pelo dono ao vê-la rezar. Recusou propostas de casamento, inclusive a de um governador abássida de Basra, para viver em ascese, e é lembrada por dizer que servia a Deus só por amor a Ele, nem por medo do Inferno nem por esperança do Paraíso.
Fontes e problemas de data
Smith lembra que não há biógrafo próximo à época de Rabia; para a vida inicial só existe o Memorial dos Santos de Attar, que viveu mais de 400 anos depois e inclui lendas. Ela dá o nascimento como provável por volta de 717 em Basra e a morte em 185 da Hégira (801), com sepultamento na cidade. A autora anota ainda que existiu uma homônima na Síria, Rabia bint Ismail, que morreu cerca de cinquenta anos antes e é sempre chamada pelo nome do pai, ao contrário da de Basra. A confusão entre as duas aparece nas fontes e Smith a menciona como motivo de cautela. (Smith)
Escravizada e libertada, segundo Attar
Attar conta que ela nasceu na casa mais pobre, quarta filha, e por isso se chamou Rabia, "a quarta". Órfã depois de uma fome em Basra, foi vendida por seis dirhams a um homem que a fez trabalhar duramente. Uma noite, o dono a viu rezando, com uma lâmpada suspensa sobre a cabeça sem corrente, e, assustado, libertou-a. Ela partiu para o deserto, onde passou algum tempo numa cela. Smith considera o relato lendário em parte, mas observa que Rabia é chamada só pelo grupo a que pertenceu (os al-Atik, do clã de Qays ibn Adi), nunca pelo pai, e que vivia sem tutor masculino, o que combinaria com uma mulher libertada. Um escritor moderno, Zihni, diz que ela era de família nobre de Basra. (Smith)
O celibato e as propostas recusadas
Smith narra que Rabia recebeu muitos pedidos de casamento e os recusou todos, por entender que só na vida celibatária poderia buscar Deus sem estorvo. Entre os pretendentes estava Abd al-Wahid ibn Zayd, asceta e pregador que fundou uma das primeiras comunidades monásticas perto de Basra e morreu em 793, e a quem ela respondeu com dureza. Outro foi Muhammad ibn Sulayman al-Hashimi, emir abássida de Basra desde 145 da Hégira, que ofereceu dote de cem mil dinares e renda de dez mil por mês. Ela respondeu que não lhe agradava que ele fosse seu servo nem que a distraísse de Deus por um instante. (Smith)
Servir só por amor
Para Smith, a essência do ensino de Rabia está na resposta que ela deu a Sufyan al-Thawri, quando ele lhe perguntou o fundamento da sua fé: não servira a Deus por medo do Inferno, pois seria como um empregado miserável, nem por amor ao Paraíso, pois seria mau servidor se servisse pelo que se recebe, mas só por amor e desejo Dele. A oração atribuída a ela diz que, se adora por medo do Inferno, que a queimem nele, e se adora por esperança do Paraíso, que a excluam, mas que não lhe neguem a Beleza Eterna. A autora aproxima isso do que chama doutrina do amor desinteressado, tema do sufismo posterior. (Smith)
Fontes
- Smith, Margaret. Rabi'a the Mystic and Her Fellow-Saints in Islam. Cambridge: Cambridge University Press, 1928 (prefácio e parte I, caps. I, II, III, V, IX; parte II). Texto integral lido na digitalização do Internet Archive, consultada em 29/10/2026. https://archive.org/details/margart_smith_rabia Acessar
Na mesma região
- Jabir ibn Hayyan e o corpus de alquimia a ele atribuído: o que o Fihrist e Berthelot permitem dizer séc. VIII ou IX; o Wikidata dá c. 721 – c. 815 e a Britannica de 1911 diz apenas "século VIII ou IX"
- Ibn al-Muqaffa': o secretário persa que verteu o Kalila wa Dimna do pálavi para o árabe c. 725 – c. 760 (Keith-Falconer 1885); o Wikidata dá nascimento em 721 ou 724 e morte em 840
- Mutazilismo: a origem da teologia racional em Basra primeira metade do séc. II da hégira / séc. VIII d.C. (Ayub 2021); sem ano preciso
- Apocalipse de Pseudo-Metódio (c. 692): a conquista árabe lida como profecia em siríaco c. 692, no reinado de ʿAbd al-Malik (685-705), segundo o verbete de Brock; antes se datava mais cedo no século VII
- Mshatta (Jordânia): palácio omíada de 743–744 ou obra abássida? A datação em debate segundo Grabar c. 743–744 (datação tradicional, califa al-Walid ibn Yazid) ou depois de 750, até o fim do séc. VIII (hipótese abássida de Grabar, 1987)
- Cúpula da Rocha, em Jerusalém: o edifício de ʿAbd al-Malik e a inscrição de 72 H que al-Maʾmūn alterou Obras iniciadas em 65 H (684/5) segundo Eutíquio e outros autores citados por Creswell (66 ou 69 H para outros); concluídas em 72 H (691/2), data da inscrição em mosaico