Atlas da História

Tomada de Jerusalém pelos sassânidas (614): Antíoco Estratego, Sebeos e os sepultamentos coletivos de Mamilla

614 (ano do tratado de Antíoco Estratego e de Avni); Sebeos, na tradução de Bedrosian, dá junho do 25º ano de Cosroes II, que o tradutor anota como 615 · Mesopotâmia e Levante

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

Abrir no mapa e na linha do tempo

Em 614, na guerra entre os impérios bizantino e sassânida, o exército persa tomou Jerusalém depois de cercá-la e de abrir brecha na muralha. O monge Antíoco Estratego, do mosteiro de Mar Saba, descreve a matança, o incêndio de igrejas e o cativeiro de moradores e do patriarca Zacarias, e a história armênia atribuída a Sebeos conta a mesma queda com outros números. Segundo Gideon Avni, a arqueologia confirma sepultamentos coletivos de vítimas, mas não acha destruição ampla de igrejas.

O relato de Antíoco Estratego e sua transmissão

O texto grego de Antíoco Estratego se perdeu, salvo um fragmento mínimo. Conybeare traduziu em 1910 a antiga versão georgiana, editada por N. Marr, e diz ter abreviado o texto, omitindo exclamações piedosas e passagens sem interesse histórico, o que anota em notas. Marr atribui a versão georgiana ao século X e defende que ela veio de uma versão árabe do grego, tese que Conybeare acha duvidosa. O mesmo tratado conta ainda a volta da Cruz da Babilônia a Jerusalém, no 15º ano depois da queda, quando Cosroes foi morto pelo filho. (Conybeare)

Os números dos mortos

Na versão georgiana, um certo Tomé recolhe os mortos em dezenas de pontos da cidade e dos arredores e os enterra em grutas; a soma é de 66.509. O trecho do texto árabe, que Marr imprimiu, difere em várias parcelas. Segundo Avni, os manuscritos dão para o tanque de Mamilla 4.518, 4.618 ou 24.518 mortos. Sebeos conta 57.000 corpos e 35.000 pessoas levadas vivas, entre elas o patriarca Zacarias. São cifras de textos antigos, que não se reconciliam entre si; nenhuma estimativa de historiador moderno foi lida. (Conybeare; Avni; Sebeos (história armênia a ele atribuída))

Sebeos: o cerco de 19 dias

Em Sebeos, o general persa Rhazmiozan acampa em Cesareia e propõe que Jerusalém se renda em paz. Depois da rebelião da cidade, cerca-a por 19 dias e derruba a muralha escavando sob os alicerces. A cidade cai no 27º dia do mês armênio de Marg, dez dias depois da Páscoa, no 25º ano de Cosroes; Bedrosian anota entre colchetes 615 e junho. Seguem três dias de matança e o incêndio. Os persas fundem a prata e o ouro da cidade e procuram a Cruz, que os clérigos acabam por indicar, e a levam. O rei manda tratar bem os presos e põe Modestos à frente da cidade. (Sebeos (história armênia a ele atribuída))

O que a arqueologia mostra

Avni identificou sete sepultamentos coletivos fora das muralhas, de época bizantina. O mais claro é uma gruta em Mamilla, a cerca de 120 m a oeste da Porta de Jafa, com 12 m por 3 m, cheia de ossos: centenas de esqueletos, mais jovens que o normal nos cemitérios da época, com mais mulheres que homens e sem sinais de doença. Havia cerca de 130 moedas, a mais recente de Focas (602-610), e uma inscrição grega pedindo a salvação daqueles que só Deus conhece. Nem todos os sepultamentos se datam com segurança em 614. As escavações da cidade não mostram camadas claras de destruição pela conquista, e o Santo Sepulcro, segundo ele, sofreu só um incêndio leve. (Avni)

Fontes

  1. Conybeare, F. C. Antiochus Strategos' Account of the Sack of Jerusalem in A.D. 614. English Historical Review, v. 25, 1910, p. 502-517 (tradução abreviada da versão georgiana editada por N. Marr, com notas do tradutor). Texto lido em archive.org/details/cony1910ehrstrategosjerusalem em 31/10/2026.
  2. Sebeos (história armênia a ele atribuída), capítulo sobre a tomada de Jerusalém e a carta de Modestos, em Sebeos' History, trad. Robert Bedrosian, texto em archive.org/details/SebeosHistoryOfArmenia, lido em 31/10/2026. Os anos entre colchetes são do tradutor.
  3. Avni, Gideon. The Persian Conquest of Jerusalem (614 CE) -- An Archaeological Assessment. Bible and Interpretation (Arizona Center for Judaic Studies, Universidade do Arizona), out. 2010, bibleinterp.arizona.edu/articles/pers357904. O autor aparece no texto como diretor do Departamento de Escavações e Pesquisas da Autoridade de Antiguidades de Israel. Lido em 31/10/2026.

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